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Arquitetar a dimensão local

Todos Queremos Um Bairro Melhor

Pedro Gadanho: "
É fundamental dialogar com a população, para encontrar as respostas certas para os problemas reais, muito concretos"

Lucília Monteiro

Como pode a arquitetura responder às novas exigências da vida em comum? Fazendo perguntas e encontrando respostas junto das comunidades, defende Pedro Gadanho.

Isabel Lucas

De que forma queremos viver juntos no futuro? A pergunta é transversal a várias disciplinas que pensam a vida em sociedade e está a ser alvo de discussão e de intervenção já com alguns resultados práticos. Um dos exemplos mais interessantes parece vir de Turim e é lembrado por Pedro Gadanho, arquiteto português, curador no MoMA, especialmente atento aos desafios que se colocam à arquitetura contemporânea e às respostas que estão a ser apresentadas um pouco por todo o mundo face a necessidades muito reais. O coletivo de arquitetos de Berlim, o Raumlabor, foi convidado a pensar numa solução para um dos bairros mais problemáticos daquela cidade italiana, um lugar que cresceu com muita imigração e com muitas necessidades básicas por resolver, e a proposta foi a de desenvolver soluções em conjunto com a população. "Esta é uma abordagem muito interessante, a de um arquiteto ou de uma equipa de arquitetos a trabalhar em conjunto com a comunidade, para assim responder melhor", refere Pedro Gadanho, enquanto lembra uma tendência de fundo da moderna arquitetura: a de que a escala está a ser repensada e que isso não é mais do que o sinal de um tempo em que a dimensão local voltou a ganhar importância.

As razões são várias. Económicas, sociais, culturais. O arquiteto aparece cada vez menos como um autor singular para se inserir num espaço. "Essa sempre foi a sua função, a de pensar o espaço, mas em vez de responder a um cliente passa a ter uma atitude mais pró-ativa na discussão de soluções", continua, sublinhando que isso decorre muitas vezes da falta de grandes encomendas, de uma crise que chegou e veio exigir novas formas de funcionar. "Muitas vezes são os próprios ateliers ter a iniciativa e aparecer com uma proposta antes sequer de haver um cliente no conceito tradicional", exemplifica, voltando de novo à intervenção de Turim. "Temos de perguntar como queremos os nossos bairros, que tipo de relações queremos construir. Foi a partir dessas questões que eles apresentaram uma solução."

À nossa medida

A proximidade, ou a escala humana, tão presente nos discursos urbanísticos e políticos, é, de facto, uma realidade também na arquitetura atual. Na 14.ª Bienal de Veneza, que decorreu no ano passado, o atelier Artéria destacou-se com um projeto: o de recuperar espaços desativados, devolvendo-os à atividade. No caso, sótãos abandonados. ?A solução parece simples: depois de recuperado, o sótão é arrendado e os lucros que se tiram dessa atividade revertem para a manutenção ou reabilitação do prédio onde se inserem. Mais local é impossível. "Neste tipo de propostas, diminui-se não apenas a escala de intervenção como o tempo em que essa intervenção decorre", continua Pedro Gadanho, falando destas micro propostas como fundamentais num momento em que assistimos ao crescimento desmesurado de muitas cidades, como o Rio de Janeiro, Bombaim, Tóquio. "Pensar a proximidade nestes lugares é fundamental."

Pedro Gadanho está a levar esta discussão para o MoMA, em Nova Iorque. Não apenas na seleção de trabalhos que vai escolhendo como emblemáticos do atual momento, como nas exposições que organiza. A mais recente chama-se Uneven Growth: Tactical Urbanisms from Expanding Megacieties (Crescimento desigual: urbanismos táticos para megacidades em expansão), onde pretende sublinhar a ideia de que os arquitetos podem e devem ter uma intervenção cada vez maior no modo como se projetam e se tentam humanizar megacidades. "O mundo alterou-se e é preciso alterar as práticas", defende, reafirmando a necessidade de diálogo com a população, a resposta direta a problemas reais e muito concretos, o modo como, em vez de erradicar partes de cidade, as podemos tratar de modo a que sejam apropriadas pelas novas exigências da vida em comum.