A Casa, de Júlio Alves

"A maneira como nós, os humanos, somos na terra é a habitação. A essência de construir é deixar-habitar", a citação de Martin Heidegger serve de epígrafe a este documentário de Júlio Alves. Uma casa é construída desde a sua raiz por apenas dois operários brasileiros. O filme é feito sobretudo de planos fixos. Na primeira parte, é essencialmente contemplativo. Ou seja, o realizador reporta o que vê através da câmara sem querer interferir com a realidade. Apenas observa. E as imagens dos operários em construção sucedem-se, com enquadramentos fotográficos excelentes. Apesar da aparente lentidão da montagem, na primeira parte Júlio Alves consegue fazer do mais banal lavor um objeto poético. Na segunda metade, acrescenta o fator humano, o que enriquece o filme. Os operários têm as suas histórias, os seus dramas, os seus percursos. Ironia das ironias: constroem as casas dos outros mas sofrem por estar a milhares de quilómetros de distância da sua própria casa. Um deles estava fora do Brasil há cinco anos. O outro conta o episódio em que foi preso nos Estados Unidos. Mas a construção não para, nem sequer para ouvirmos as suas histórias. Está sempre no horizonte. No final a casa está pronta. E aquele projeto de arquiteto, à partida tão estranho, ganha forma. O trabalho dos operários terminou. Agora contar-se-ão ali outras histórias.

1 Maio, 21h45, Cinema São Jorge, e 4 Maio, 21h15, Cinema Londres



Por Aqui Tudo Bem, de Pocas Pascoal

Não foi assim há tanto tempo. Passou apenas uma dúzia de anos, quando a guerra deflagrava o país africano, Portugal era o mais natural país de acolhimento de angolanos fugidos e nunca o contrário. De acolhimento, mas, diga-se, de uma hospitalidade longe de ser exemplar. Por Aqui Tudo Bem, de Esperança (aka Pocas) Pascoal é uma história de emigração. Um filme angolano, rodado em Lisboa e seus arredores, que merece a seleção para a competição nacional do Indie. Centra-se em duas irmãs ainda adolescente que se refugiam em Portugal para fugir aos tormentos da guerra. Oriundas de famílias educadas, esperam ansiosamente pela chegada da mãe. Só que a mãe tarda e o dinheiro acaba-se. Tudo se transforma num drama humano, sem fuga. Ir é tão mau como ficar. E o mundo em volta desenha-se cruel e elas tornam-se vítimas da sua própria inocência. Apesar de alguns traços de ingenuidade, Por Aqui Tudo Bem é um exemplo de cinema angolano, uma cinematografia ainda algo imberbe mas que tem tudo para crescer. Aqui conta-nos um conto de fadas virado do avesso.

29 Abril, 18h00, Cinema São Jorge, e 1 Maio, 14h30, Culturgest

From New York with love, de André Valentim Almeida

André Valentim Almeida é professor na Universidade do Porto e está a tirar um doutoramento em documentário interativo. O que quer que isso seja é mais ao menos o que este filme é. From New York with love, a sua primeira longa-metragem, um documentário em forma de diário de insónia, com muita experimentação à mistura. Tudo começa com essa justificação: estava com insónias e por isso pôs-se a filmar. Assumindo o filme como um acaso, sem plano, nem rumo. Mas, logo de seguida, identifica a dificuldade seguinte: filmar Nova Iorque, provavelmente a cidade mais filmada da história do cinema. Assumindo os riscos, assume também o olhar, assim como um pequeno Jonas Mekas. Interessa-nos mais o olhar, o sujeito, do que aquilo que é visto. Mas também nos seduz a vontade de experimentar. De início, é cativante a forma como substitui a voz off - que seria uma solução fácil e óbvia - por legendas. Mesmo quando André descobre a sua voz, o uso das legendas transforma-se numa forma adicional de comunicar que enriquece o filme. Usa e abusa de citações o que até se pode confundir com arrogância e mistura reflexões íntimas com considerações sobre a portugalidade (essa talvez seja a pior parte). Todo o filme é falado em inglês, mesmo os pedaços que se passam em Portugal. Talvez seja o filme mais desalinhado da competição nacional de longas.

1 Maio, 16h45, e 3 Maio, 21h15, Cinema Londres

Jesus por um dia, de Helena Inverno, Veronica Castro

No Estabelecimento Prisional de Bragança prepara-se a via-sacra. É uma estrutura complexa que é criada. Preparam-se os adereços. Constroem-se e montam-se as cruzes da passagem, a coroa de espinhos. Os atores-presidiários estudam os seus papéis, enquanto falam de futebol. São maquilhados e caracterizados de forma expressiva. Há um que faz de Jesus, outros de discípulos, de guardas, de Pilatos. Todos se empenham para que o resultado final seja perfeito, como se fosse uma companhia de teatro, mas com uma carga emotiva extra. E ironicamente, um daqueles presos que cumpre a sua pena transforma-se mesmo em Jesus por um dia. No Jesus que é condenado e mal-tratado durante a sua caminhada para a cruz. A via-sacra é um pretexto forte, para um documentário com um contexto recorrente no cinema: a prisão. O filme tem um olhar humano, as cenas são bem filmadas, com primor estético e bons enquadramentos. A humanidade do filme está precisamente na perspetiva de que o que para uns pode ser um malfeitor para outras é um messias. É um dos raros documentários produzidos pela O Som e a Fúria, a produtora que tanto tem dado ao mais jovem cinema português.

28 Abril, 19h00, 3 Maio, 16h30, Cinema Londres