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O que é o conceito de habitação multifamiliar que pode ser o futuro da habitação nas cidades

Imobiliário

Lucília Monteiro

O " cohousing" está a chegar a Portugal e a mais recente aposta vai surgir no Porto. Por cá, o movimento está ainda associado aos idosos, mas o modelo escandinavo pode ser uma das soluções para gerir o complicado mercado habitacional no centro das cidades

Marisa Antunes

Quem partilhou casa com colegas nos tempos da universidade ou viveu numa residência universitária guarda certamente bons momentos de convivência. Replicar este espírito de “república”, mas num contexto mais adulto, está na génese da habitação colaborativa, um modelo que começou na Escandinávia mas progressivamente está a disseminar-se por todo o mundo.

Na sua essência, o cohousing é uma habitação multifamiliar, acolhendo vários estúdios ou pequenos apartamentos, que não só dividem espaços comuns como zonas de refeições, lavandaria ou sala de cinema, mas também criam uma filosofia de partilha quase familiar e colaborativa, na qual se promove a genuína interação entre os habitantes daquela grande casa. Acolhido com entusiasmo junto do mercado de seniores ativos, na sua génese o cohousing engloba também os mais jovens.

Em Portugal, esta solução de habitação começou a ser divulgada de forma mais estruturada pela mão da Hac.Ora Portugal Sénior Cohousing (hac.ora, em latim, significa “neste instante, nesta hora”), uma associação sem fins lucrativos, fundada no ano passado e presidida pelo ex-presidente da Câmara do Porto Nuno Cardoso. A partir de uma parceria entre esta associação – que vai prestar consultoria – e a Misericórdia do Porto, irá nascer na zona das Antas a primeira residência de cohousing. O edifício vai ser construído praticamente de raiz na antiga casa senhorial do diretor do Hospital Serpa Pinto (unidade que fica no outro lado da rua), sendo preservada a emblemática fachada. O projeto ainda está a ser delineado pelo gabinete de Arquitetura da Misericórdia do Porto, mas, segundo o seu provedor António Tavares, “dentro de um ano, no máximo dois”, o edifício deverá estar pronto a habitar.

“Isto não será uma residência assistida. A ideia é, antes, criar um cohousing com serviços, num espaço confortável que permita a convivência entre seniores ativos e que façam uma vida independente, mas partilhando toda uma zona comum e várias atividades”, explica à VISÃO António Tavares. Paredes-meias com o terreno onde vai ser construída esta habitação colaborativa sénior, já existe um outro projeto residencial da Misericórdia do Porto, orientado para o arrendamento, e onde mora cerca de uma centena de pessoas. A instituição, recorde-se, é um dos grandes senhorios do Porto, com mais de 2 mil contratos de arrendamento sob a sua gestão.

Inspiração nórdica
O movimento cohousing nasceu em 1970, na Dinamarca, e o conceito tem vindo a espalhar-se por todo o mundo com bastante sucesso, principalmente junto dos seniores e dos mais jovens, que estão a iniciar a vida ativa. Na essência está a vontade de recuperar o sentido de partilha e de comunidade junto de pessoas de todas as gerações, cruzando também questões económicas.

Seja em zonas rurais ou urbanas, os complexos de habitação colaborativa abrangem tradicionalmente entre 15 e um máximo de 50 fogos por edifício ou propriedade. O verdadeiro cohousing deve ter também um espaço comum, considerado o centro nevrálgico desta minicomunidade, na qual se partilham eventos, refeições e encontros frequentes ao longo da semana, no sentido de esbater o isolamento e aproximar os moradores.

O conceito foi importado para os Estados Unidos da América na década de 80 e, atualmente, estimam-se em cerca de 170 as comunidades deste tipo distribuídas por vários estados e mais 140 em projeto. No Reino Unido, existem 21 complexos de habitação colaborativa já estabelecidos (e mais 40 em projeto) e na Alemanha, só edificados em Berlim, são já 127. Em países como a Holanda e a Suécia, este tipo de modelo há muito que faz parte da estratégia habitacional dos respetivos governos, que os financiam. A ideia tem vindo também a implementar-se na Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Japão.

Para Nuno Cardoso, a grande recetividade que o conceito tem tido junto das autarquias e das instituições é sinal de que este modelo poderá vir a constituir uma solução para o complicado mercado de arrendamento em Portugal. “Queremos sensibilizar a sociedade portuguesa para um modelo que não só pode constituir uma solução habitacional mas também combater o isolamento, principalmente nas faixas etárias mais elevadas. Infelizmente, muitos dos lares e residências seniores que existem pelo País estão transformados em unidades de cuidados continuados e não tem de ser assim”, sublinha Nuno Cardoso.

Junto aos amigos

Num país como Portugal – onde uma em cada cinco pessoas tem mais de 65 anos (dados do Instituto Nacional de Estatística) – este é, pois, um mercado com grande potencial para explorar, apesar de estar ainda a dar os primeiros passos. “Somos um País com uma população extremamente envelhecida, onde uma boa parte vive em alojamentos deteriorados e em contexto de grande isolamento, seja a nível rural seja a nível urbano”, reforça Alda Botelho de Azevedo, investigadora das dinâmicas de envelhecimento da população portuguesa, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

A responsável defende que esta “será uma forma de fazer reabilitação urbana de um modo sustentável e adequado às populações mais envelhecidas”. O único problema, alerta, é a “questão do uso do solo, uma vez que o cohousing não é um alojamento clássico, é multifamiliar – daí que a questão do apoio estatal e local seja fundamental”.

É nesta tarefa de sensibilização do poder estatal e local que se tem desdobrado o presidente da Hac.Ora. Existem várias arestas para limar e Nuno Cardoso dá um exemplo: “Os planos diretores municipais referem que a construção de novos fogos pressupõe também a construção de lugares de garagem. Isto é uma questão que não se coloca neste tipo de modelos, assentes na sustentabilidade, onde nem sequer faz sentido ter uma viatura.”

A associação tem estado muito ativa junto de autarquias e IPSS mas, sublinha Nuno Cardoso, a habitação colaborativa pode partir da iniciativa privada, mesmo a um nível mais informal. E deixa uma sugestão: “As pessoas podem organizar-se junto do seu círculo de amizades e criar uma estrutura com identificação fiscal, uma cooperativa de habitação, por exemplo, e formar o seu próprio cohousing.”

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