"Sem colocar em dúvida a legitimidade da decisão da justiça, pedimos às autoridades do Estado para mostrar clemência (...) na esperança que [as condenadas] renunciem a qualquer repetição deste género de sacrilégio", indicou o Conselho Superior da Igreja, em comunicado.

As três jovens - Nadejda Tolokonnikova, de 22 anos, Ekaterina Samoutsevitch, de 29, e Maria Alekhina, de 24 -, entraram encapuzadas em fevereiro passado na catedral do Cristo Redentor (ortodoxa), em Moscovo, e cantaram uma canção de protesto na qual pediam à Virgem para "perseguir" o Presidente russo Vladimir Putin.

 

O caso das Pussy Riot provocou fortes divisões na sociedade russa e a atitude intransigente da hierarquia ortodoxa russa sobre este assunto acabou por prejudicar a imagem da igreja junto dos fiéis.

O patriarca Kirill, o líder da igreja ortodoxa russa, classificou a ação das jovens de "sacrilégio" e o porta-voz do patriarca, Vsevolod Tchapline, afirmou que as jovens tinham cometido um "crime pior do que homicídio" e que deviam ser "punidas".

Cerca de 70 por cento da população russa declara-se ortodoxa, mas o número de praticantes regulares não ultrapassa os sete por cento, segundo várias sondagens.

Ainda na Rússia, as forças da oposição apontaram o dedo a Putin, denunciado que o Presidente russo está por detrás da decisão do tribunal.

"As decisões nestes casos importantes são assumidas pessoalmente por Putin", assegurou, em declarações à agência espanhola EFE, o liberal Vladímir Rizhkov.

Por seu lado, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, um dos líderes da oposição sem assento parlamentar, considerou que este julgamento foi "um ajuste de contas medieval e inquisitório".

"Este julgamento não tem qualquer relação com a lei ou com o direito. Isto mostra o estado das coisas na Rússia de Putin", reforçou Kasparov.

O processo das Pussy Riot ganhou um enorme mediatismo fora do território russo e após a divulgação da sentença na capital russa as reações internacionais de condenação começaram a surgir.

Condenação internacional 

O departamento de Estado norte-americano considerou o veredicto "desproporcional" e exortou Moscovo a rever o processo das três jovens, bem como a assegurar o respeito pela liberdade de expressão.

"Os Estados Unidos estão preocupados com o veredicto e com as penas desproporcionais impostas (...) e pelo impacto negativo sobre a liberdade de expressão na Rússia", indicou a diplomacia norte-americana.

O Reino Unido, através do secretário de Estado para os Negócios Estrangeiros, também considerou que a sentença foi "uma resposta desproporcional perante a expressão de uma opinião", manifestando preocupações face à condução do julgamento.

"O veredicto coloca em causa o compromisso da Rússia na proteção dos direitos fundamentais e liberdades", afirmou Alistair Burt.

A diplomacia francesa lamentou igualmente a condenação "particularmente severa" das três jovens face aos acontecimentos, destacando que as vias judiciais para a revisão da sentença não estão esgotadas.

"A França apoia em todo o mundo os princípios da liberdade de expressão e de opinião", acrescentou o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também não ficou indiferente ao caso das Pussy Riot, afirmando que a sentença é "excessiva".

"A sentença excessivamente severa não está em harmonia com os valores do Direito europeu e da democracia que a Rússia assumiu como membro do Conselho da Europa", afirmou Merkel.

Em algumas cidades europeias, como Paris, Londres, Bruxelas, Barcelona e Sofia, ocorreram ações de rua para denunciar o veredicto e para manifestar apoio às três jovens russas.