Um franco valia 30 escudos, um marco cerca de cem, e a peseta dava uma conta esquisita. A Europa não era nada disto e para viajar pelo estrangeiro convinha ser rápido a fazer contas de cabeça. Eu até achava graça. Os meus pais, que gostavam de meter os filhos no carro e aventurar-se Europa fora (certo verão fomos até à Suécia), lidavam bem com a logística que era complicada e requeria uma grande preparação. Eu mal me apercebia, para mim tudo parecia simples: metíamo-nos no carro e avançávamos. Na altura certa lá apareciam as pesetas, os francos, as liras, os marcos, os florins, as coroas, as libras, os xelins.
Parte do dinheiro, dividia a minha mãe em envelopes, misteriosamente guardados, a salvo de eventuais gatunos. Éramos muito desconfiados quando íamos lá para fora, tudo nos parecia estranho e perigoso. Não havia multibancos: uma invenção porventura mais importante do que a moeda única. Por isso, se queríamos dinheiro local tínhamos de passar por um banco ou por uma daquelas casas de câmbio, que agora desapareceram, mas que então havia aos magotes. O meu pai ia lendo os números a vermelho, como quem estuda as ementas dos restaurantes. E depois lá se decidia por uma. Muitas vezes o câmbio não se fazia com escudos --  a moeda era muito desvalorizada e, em alguns países mais remotos, nem sequer era contemplada - mas numa moeda mais forte, como o franco suíço. A lira não valia coisa nenhuma. Menos ainda do que um escudo. Só que isso, para grande surpresa minha, não significava que as coisas em Itália fossem mais baratas. No estrangeiro, em geral, tudo era caro. Demasiado caro.
Se por acaso nos cruzávamos com um carro de matrícula portuguesa, o meu pai acenava com a buzina, como se distância da pátria nos tornasse subitamente amigos de longa data. Quando nos emaranhávamos pela Europa Central, os autóctones estranhavam a matrícula. Viam o 'P' e perguntavam se éramos polacos. Apurada a origem, admiravam-se pelo caminho percorrido. Antes de passarmos as fronteiras, os meus pais davam-nos as moedas que sobravam. Os bancos só trocavam notas, e as moedas, prestes a tornarem-se inúteis, serviam para comprar o que quiséssemos, essencialmente guloseimas. Quando atravessávamos a fronteira, etapa que por vezes era demorada, esticávamos o pé dentro do carro e gritávamos entre os irmãos: "Eu é que fui o primeiro a entrar na Alemanha!", como se isso interessasse para alguma coisa. Mais tarde, testávamos a língua com a frase: "Ein gross apfelstrudel!". Quando dizíamos 'Viva ao Costa', o empregado trazia-nos a conta. Nós riamo-nos a bom rir. Só que o alemão, claro está, não achava graça nenhuma.