Um dia farão uma impressora de gente, com alma e muitas dúvidas existenciais. Metade da alma e o dobro das dúvidas. "Serei um original ou uma cópia?", perguntar-se-ão de tempos a tempos, os homens de boa vontade. E o que é que isso interessa? O que importa é ser, existir. Tudo começa como uma brincadeira. Imprimir a ex-mulher para matar saudades. A si próprio para faltar ao emprego. Enquanto um vai trabalhar, o outro fica em casa a ver a bola. Só pode dar mau resultado. A 'sósia' da ex-mulher não será assim tão diferente da original, o mesmo corpo e metade da alma. E a genuína vai sentir ciúmes da cópia, e reclamar direitos de autor. Isso vai custar uma fortuna. E o outro que era eu, igualmente preguiçoso, ou mais ainda porque tem apenas metade da alma, também vai querer seguir os jogos do Sporting e matar saudades da ex-mulher, apesar de nunca ter sido sua.
Que complicada será a vida. Estamos melhor assim. Não matamos saudades, mas matamos. Matamos se quisermos, através de uma impressora. O futuro já lá vai, no parágrafo anterior, agora falamos do presente. Não é ficção científica, é a realidade científica e tecnológica, que nos atropela e nos invade de espanto. Nos Estados Unidos, algures no Texas, houve uns neo-cowboys que conseguiram fabricar uma arma, um revólver com ar de Tupperware ou jerrican, que dispara balas de verdade. À medida que as bisnagas se vão parecendo cada vez mais com pistolas, as pistolas parecem-se com bisnagas. Eu vi uma reportagem da BBC, está disponível na internet.
É o passo mais concreto em direção ao abismo da impressionante tecnologia das impressoras 3D. Claro que a culpa nunca é da tecnologia mas da forma como esta é usada. Para estas impressoras, em concreto, têm sido encontradas as mais louváveis utilidades, em áreas como a medicina dentária. Maquinaria de ponta, altamente evoluída, em prol da saúde e bem-estar. Mas daqui a meia dúzia de anos será comum ter uma impressora 3D em casa. A sua democratização avança a largos passos. Nos Estados Unidos, já se vendem impressoras 3D para uso doméstico com preços a partir de 1500 dólares. Quase todas usam como material uma liga de plástico (também há com outros materias, como chocolate), que é fundida a alta temperatura. A impressora recebe os dados sobre a formatação do objeto através de um programa: os ficheiros podem ser descarregados na internet ou desenhados pelos próprios. Também já há programas que permitem cópias através de fotografias. Caminha-se assim para a pirataria de objetos em larga escala. Já não é apenas a contrafação das fábricas chinesas. Brevemente poderemos ter clones de objetos feitos em casa. Mas também poderemos fabricar peças absolutamente originais. O homem fabrica-se a si próprio e a preços competitivos. Até faz impressão.