Gostava de entender o Outro, mas às vezes não chego lá. Há um Outro que me atazana o juízo nestes dias de verão, porque ao fim da tarde, a melhor hora para contemplar em sossego o céu a alaranjar-se no oceano, insiste em ouvir música minimal eletrónica, de graves intensos, que estremecem a areia, desfazem as conchas e afugentam os escaravelhos. Chamam-lhes Sunset Parties. Mas o sol não é para aqui chamado. O sol não sabe dançar. O sol prefere o silêncio ou, quanto muito, alguns discos de jazz e o violão de João Gilberto.
Esse Outro, que não concorda comigo, é uma multidão. E abana-se, em fato de banho e biquíni, num bar de madeira, emborcando bebidas coloridas, gritando piropos aos ouvidos, enquanto o sol, pobre coitado, lá se esconde no horizonte, lamentando que a natureza não lhe permita que acelere o processo.
Devem render bastante estas licenças de décibeis atendendo à propagação de festas do género nos últimos verões. E se um concelho como o de Loulé se orgulha de ter dez praias com bandeira azul, questiona-se que raio de classificação é esta que não contempla a poluição sonora. É de rasgar a bandeira.
Se é assim ao lusco-fusco, durante o dia a coisa não melhora muito. Os veraneantes são maioritariamente citadinos. E devem andar tão viciados no tráfego que, só para matar saudades, enquanto descansam na praia, regalam-se a ouvir o som de fundo das motas de água. Cada vez há mais pontos de entrada. Quase desapareceram as gaivotas. Não falo dos pássaros, pobres coitados, mas das pequenas embarcações a pedal, demasiado simples para um mundo tecnológico. Gosto dos surfistas, que desafiam o mar com uma prancha, mas nunca desses diabos a motor, que empestam o mar de gasolina e barulho, deixando-o, tenho a certeza, um pouco menos azul.
O último grito da tecnologia é o silêncio. Esse é o verdadeiro luxo. Mas é um luxo desprotegido e em vias de extinção. Porque, por mais que se levante o volume do silêncio, o ruído ouve-se sempre mais alto. O silêncio não se pode gritar.