A especialista não se cansa de falar da necessidade urgente de reverter a tendência atual de adiar a maternidade. Esqueça-se a casa, o emprego estável ou o carro familiar. Há que procriar em tempo, já que o resto vem por acréscimo. Além de todos os dados científicos que tem recolhido em trabalhos de investigação, Jacky sofre, na pele, o peso do adiamento. 

Não há muito consenso quanto à altura certa para procurar um especialista em infertilidade. Qual é a sua opinião?

É verdade que as orientações variam bastante e dependem do facto de o médico ser um ginecologista, um clínico geral ou um especialista em infertilidade.

Mas os protocolos são claros: se, ao fim de 12 meses a tentar engravidar, não se consegue, então deve procurar-se aconselhamento. Não quer isto dizer que se vá iniciar logo um tratamento.

Nesta fase inicial, serão despistados eventuais problemas, como os níveis hormonais. Em pessoas mais velhas, com mais de 34 anos, é melhor procurar um especialista seis meses após ter-se começado a tentar.

Aos 34 anos é-se considerada "velha"?

A fertilidade decresce muito aos 36 anos e a descida é bastante abrupta após os trinta e oito. É preciso dar tempo para se fazer alguma coisa, se for preciso. Há umas décadas, as mulheres tinham os filhos todos, na casa dos 20 anos. Hoje, o primeiro filho nasce quando a mãe já completou 30 anos, quase trinta e um.

E isto tem um custo em termos de fertilidade, que desconhecíamos até há pouco tempo. É preciso assimilar e atualizar a informação.

Há fatores de risco e sintomas de infertilidade?

Sim. Sexo desprotegido, ausência de período ou dores severas durante a menstruação, mais que 30 quilos de excesso de peso, fumar mais de dez cigarros por dia... Tal como tentamos moderar o colesterol ou manter o peso adequado a bem da saúde cardiovascular, ou analisamos os nossos sinais por causa do cancro da pele, é importante conhecer os riscos e sintomas de infertilidade. 

Há efeitos do estado psicológico na capacidade de conceber?

É preciso perceber se estamos a falar do efeito do stresse na saúde física ou na qualidade de vida. Trata-se de uma área importante e muito controversa.

Há empresas interessadas em reforçar a ligação entre o stresse e a fertilidade, para depois poderem vender os seus produtos.

E qual é a verdade?

O que sabemos é que, quando estamos stressados, há efeitos na nossa biologia.

Por exemplo: o stresse pode provocar um atraso na ovulação, por um dia ou dois. E isso transporta-nos para a nossa história evolutiva: se tivéssemos um animal enorme atrás de nós, não seria boa altura para conceber. Há este tipo de interação entre a biologia do stresse e a da fertilidade. Mas a questão é: será que este tipo de interação afeta a fertilidade a longo prazo? Numa perspetiva evolutiva, o objetivo de estarmos aqui é reproduzirmo-nos. Nenhum animal beneficia de uma supressão indefinida da fertilidade. Ou seja, este efeito supressor é temporário. O tal animal continua lá, vai permanecer por muito tempo e, por isso, o melhor é mesmo tentar ter filhos agora. A grande prova de que o efeito é temporário está em África, onde há fome, guerra, falta de água, as piores condições de stresse que se possa imaginar. Mesmo assim, as taxas de fertilidade são das mais elevadas do mundo. O nosso organismo foi desenhado para resistir ao stresse. 

Quer dizer que não há qualquer relação?

O que acontece é que, quando estamos em stresse, comemos pior, ganhamos peso, dormimos mal, fumamos mais, não temos sexo com o nosso parceiro.

Surgem comportamentos que, de facto, influenciam a fertilidade. O tabaco, por exemplo, pode fazer decrescer a produção mensal de óvulos de nove para dois.

O excesso de peso também afeta, e muito negativamente, a taxa de fertilidade. 

E quanto à pressão para conceber? Quando os casais sabem que estão no "dia D" para "fazer um bebé"... 

Um estudo recente mostrou que não há qualquer diferença entre as taxas de fecundação nos casais que usam os aparelhos para prever o dia certo da ovulação e os outros. É o que digo aos casais: há sexo para fazer bebés e sexo para fazer amor. E, por vezes, é diferente.