Aos 87 anos, Paul Greengard continua a ir trabalhar, de segunda a domingo, na Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, cidade onde vive há três décadas. Uma exceção foi o passado dia 25, em que esteve na Culturgest, em Lisboa, para participar na conferência A Nobel Day, que reuniu especialistas laureados pela academia de Estocolmo. Greengard, que não desiste de procurar novos caminhos no tratamento da depressão e da doença de Alzheimer, além do mais, não é forreta: usou o dinheiro do Nobel para criar um prémio só destinado a mulheres cientistas.

Continua a achar que existe descriminação contra as mulheres no meio académico?

Há 30 anos, toda a gente acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores. Os homens pensavam assim e a esmagadora maioria das mulheres também. Agora, a situação é muito melhor. Estou surpreendido e satisfeito com a forma como a discriminação tem vindo a desaparecer.

A forma como homens e mulheres abordam os desafios científicos é diferente?

Existe a crença de que homens e mulheres pensam de maneira diferente, mas eu não acredito que seja verdade. Ainda não tive provas disso no meu laboratório. Não me parece que homens e mulheres tenham um estilo cognitivo distinto.

E a depressão, afeta de maneira diferente homens e mulheres?

Há depressões induzidas pelas hormonas, como a depressão pós-parto que, obviamente, não afetam os homens. As causas que estimulam a depressão podem ser diferentes entre homens e mulheres, mas a natureza da depressão em si não creio que seja diferente. As consequências acabam por ser as mesmas para ambos.

Porque continua a depressão a suscitar preconceitos?

Ainda há quem pense que a pessoa depressiva é uma preguiçosa, que só quer umas férias. A grande mudança acontecerá quando soubermos mais sobre a base molecular da doença. À medida que a investigação for avançando, a depressão será cada vez mais aceite como uma genuína patologia médica.

Há quem defenda que os antidepressivos têm um efeito de placebo.

Ó meu Deus! (risos) É triste como as pessoas desconhecem as doenças psiquiátricas.

Mas porque é que tantas pessoas desconfiam da eficácia dos medicamentos?

Alguns remédios só são eficazes numa franja da população, outros têm muitos efeitos secundários, e ainda há quem acuse a indústria farmacêutica de inventar estas patologias, para vender medicamentos... 

E podemos confiar na indústria?

Se me basear na minha experiência, sim [Greengard trabalhou oito anos numa farmacêutica]. As pessoas são injustas quando criticam os "lucros astronómicos" das farmacêuticas. Não sou especialista na matéria, mas a média do lucro ronda 15% do que foi gasto em pesquisa... Não é uma grande quantia.

É impossível curar uma depressão sem medicamentos?

Sim, se estivermos a falar de uma depressão profunda. Se for um caso mais "suave", nadar ou qualquer outro tipo de exercício físico é ótimo para combater a depressão. O resultado não é meramente psicológico, é fisiológico. O exercício estimula a produção de endorfinas, que têm um efeito antidepressivo.

Qual é o papel da proteína p11 na depressão?

Já sabemos que, se usarmos a biologia molecular para aumentarmos a quantidade de p11 nos ratinhos de laboratório, eles agem como se tivessem sido medicados com antidepressivos. E, se diminuirmos a quantidade dessa proteína, ficam muito deprimidos. É o nosso estado mental que determina o nível de p11 que temos. Estamos a tentar perceber de que forma os antidepressivos causam o aumento desta proteína e, também, os efeitos que provoca.

A crise do capitalismo está deprimir-nos a todos?

Não é surpreendente que a depressão aumente numa altura de crise. Quando as pessoas não conseguem sustentar os seus filhos é natural que fiquem deprimidas. Tudo o que provoque disrupção na sociedade é passível de causar depressão. O stress é uma das principais causas de depressão.

Porque é que algumas pessoas respondem mais intensamente ao stress do que outras?

Ninguém sabe a resposta a essa pergunta. É do domínio do desconhecido. É triste, mas é verdade. Há tantas coisas que ainda não sabemos sobre o nosso cérebro...

Também se dedica à investigação da doença de Alzheimer. Ainda estamos longe de encontrar terapias mais eficazes para a doença?

Sou otimista. Acho que dentro de 10 anos teremos medicamentos mais eficazes. Atualmente, não existem fármacos que tenham um efeito substancial na evolução da doença. Um dos principais problemas que enfrentamos hoje é que, quando se aperceber que a sua avó tem Alzheimer, uma grande parte do seu córtex já estará destruído. O cérebro tem muitas reservas e é preciso que morram muitas células neuronais até que os sintomas se manifestem.

Como podemos manter o cérebro saudável?

Há provas consistentes de que a atividade intelectual ajuda a reduzir a probabilidade de se desenvolver Alzheimer. E também há quem acredite que a inteligência é uma inimiga da doença, mas não sei se isso será verdade. Já conheci pessoas brilhantes que foram diagnosticadas...

Quão importante é o inesperado ao longo de uma investigação científica?

É muito importante, mas não tão importante como as pessoas pensam. A ciência recompensa as mentes abertas e preparadas para o inesperado. O mau cientista vai achar que fez alguma coisa mal, o bom cientista vai repetir a experiência para ver se o comportamento inesperado se repete. Eu diria que é mais uma questão de intuição. Aquilo a que chamamos de intuição não é mais do que o nosso cérebro a processar informação num estado pré-consciente. Parece que não estamos a pensar no assunto mas, de repente, tudo faz sentido.

Continua a ir à Universidade Rockefeller todos os dias?  

Sete dias por semana. Esta área é tão entusiasmante e criativa que não me imagino numa cadeira de baloiço nas Caraíbas.