Às vezes sorria-me, desde lá de cima da mesa presidencial do congresso cá para baixo para a plateia, um sorriso cúmplice como se dissesse: "Eu percebo o que significa não te sentires à vontade nestes ambientes." Ou talvez o significado fosse outro: "Lembro-me de ti, claro. Apesar de eu ser uma das pessoas mais influentes de Itália e tu seres apenas um viajante de passagem." Ou se calhar o significado era mais pragmático: "Estás a ver, valeu a pena insistir com aquela entrevista."

O entrevistado tinha sido ele, Carlo Petrini, e a entrevista apresentara o movimento por ele fundado, o Slow Food, a esse Portugal de fins de anos noventa ofuscado com a velocidade, a opulência, o excesso e cujo lugar símbolo era o centro comercial e tudo o que contém. Eu não tivera que insistir com o entrevistado Petrini mostrara-se logo disponível; tivera que insistir, isso sim, para que a entrevista fosse publicada em Portugal.

O tema não fazia parte do leque de interesses, preocupações e reflexões do País na altura. Slow Food chamava a atenção para valores que estavam cada vez mais a ser abandonados na alimentação portuguesa: a parcimónia, a genuinidade, o gosto antigo e inalterado dos pratos, a lentidão e a convivialidade à mesa. Eu iria conseguir colocar, por fim, a minha entrevista a Carlo Petrini na Grande Reportagem, revista hoje já extinta, mas na altura um dos poucos títulos na imprensa portuguesa preocupada com as consequências na produção agroalimentar do nosso país desse progresso ilusório.

Um par de anos depois dessa entrevista em Bra, Piemonte, Portugal tinha já o seu núcleo de associados Slow Food e em 2002 o Porto acolheria a edição anual dos Prémios SlowFood, que homenageiam os indivíduos ou organizações que mais contribuíram para a preservação da biodiversidade alimentar do planeta. Foi neste congresso no Porto que Petrini me ia lançando os seus sorrisos cúmplices. E, porque não pensá-lo, poderiam também significar uma outra coisa: o reconhecimento agradecido pelo meu pequeno contributo à divulgação da Slow Food em Portugal.

O início da contestação começou no "M"

Petrini começara por ser um jornalista, depois envolvera-se no movimento de contestação ao estabelecimento da McDonald's no centro histórico de Roma. A multinacional preparava-se para abrir um restaurante na Praça de Espanha, um dos espaços mais bonitos e íntegros da capital italiana, sem alterar o seu modelo universal de fachada com os enormes arcos do "M" e os neons coloridos. Petrini liderou a defesa da praça. "Chegou-se a um compromisso à italiana, ou seja, McDonald's está lá com os seus ignóbeis triturados, mas não se vê", explicou-me, rindo com a situação. "Salvou-se a praça. O estômago dos romanos é que não..."

Esta conquista representara para Petrini um momento de reflexão e de focagem intelectual que evoluiria para um sentido de missão mais abrangente e importante: "Quase por brincadeira comecei a pensar que se havia a fast-food também podia haver aslow-food, e assim nasceu o "Manifesto" ideológico do movimento: se "fast-food é homologação, igual em todo o mundo, então Slow Food defende a diversidade e o património enogastronómico de cada região." Estávamos em 1989, nascia o movimento que hoje, com 100 mil membros em 150 países, é reconhecido em todo o mundo como um dos mais influentes activistas e defensores da cultura gastronómica regional: educando o gosto do consumidor logo a partir do curriculum escolar, subsidiando a distribuição dos produtos regionais mais periféricos, lutando pelos produtores de nicho em risco de desaparecimento; ou numa escala mais subversiva, actuando como lobbista nos centros de decisão. "Salvaguardar o património do passado é o que existe de mais progressivo actualmente ", dizia-me Petrini.

Slow Food conseguiu, entre outras proezas, que a Itália recusasse as normativas de "higienização", homologação e distribuição das pequenas produções alimentares de qualidade, coisa que a ASAE em Portugal tão obedientemente acatou, extinguindo-as. Através do estabelecimento de observatórios de vigilância, as "Arcas", Slow Food criou comissões formadas por cientistas, críticos gastronómicos, e experts do Slow Food, que definiram o "atlas" dos produtos típicos italianos, catalogados como Bens Culturais da Nação e fora da alçada das normativas de Bruxelas que, como recordava Petrini, "devem manter-se válidas para produtos alimentares industriais."

A crise portuguesa e a mundial 

Hoje, recordo os encontros e as lições de Petrini quando vejo as leituras sobre a crise tremenda que desceu sobre Portugal e pergunto-me se com mais slow food mais cedo não teríamos evitado uma das componentes mais graves dessa crise: o abandono da nossa infraestrutura produtiva alimentar, pescas e agro-pecuária. Enquanto que a crise mundial é essencialmente financeira e especulativa, a crise portuguesa tem muito mais que ver com a dependência do país nas importações de tudo o que nos serve para o nosso dia a dia, a começar pela alimentação.

Deixámos de produzir porque nos pagaram para isso, com o argumento que ficava mais barato comprar fora do que produzir cá dentro. Mas o barato saiu-nos caro.

Será que o factor mais importante na nossa alimentação há de ser o seu preço? Dizia Petrini: "Aqui em Itália, a percentagem de consumo alimentar duma família em relação ao rendimento é de 15%. O meu avô, para comer, gastava 60% do seu rendimento. Estes dados são indiscutíveis. Ou seja, durante décadas lutámos pelo direito a ter que comer, depois conseguimos comer a preços acessíveis, depois ainda transferimos o dinheiro para outras áreas de consumo, e agora chegámos ao fundo: comemos a vaca louca, o frango com dioxina, ingredientes que metem nojo, e mais barato do que isto só mesmo... a "merda" [risos].

Apostar na gastronomia regional não é um capricho de gourmets e bon vivants ricos, é primeiro uma questão de saúde e, no nosso caso, é uma questão de sobrevivência da nossa identidade nacional.

Se o pudermos fazer com gosto e orgulho, ainda melhor.