Há tempos, numa entrevista, perguntaram-me: "Se o Gonçalo só pudesse ir a mais um país e depois tivesse de parar de viajar, qual escolheria?"

Não estava explicado qual era a razão de uma mudança tão brusca da minha vida. Seria por causa de uma catástrofe ecológica, de um black-out da produção mundial de petróleo, de um retorno da História do mundo ao tempo dos territórios feudais e estanques? Ou a mudança estaria em mim? Um acidente de locomoção, uma tragédia financeira? Ou, num tom mais positivo, algo como uma iluminação ascética que me faria recolher a um mosteiro, uma oferta irrecusável de um emprego que me obrigaria a estar das nove às seis num escritório? Ou, por fim, a base de todas as metamorfoses do ser humano adulto, que é a chegada de um bebé à sua vida? Assim, sem saber muito mais, respondi: "A África do Sul." Há várias razões para fazer da África do Sul um dos meus destinos preferidos. Talvez a mais importante seja a de ter lá inaugurado a vida de viajante solitário que levo ainda hoje. Combinara com outros seis ou sete colegas da universidade irmos todos, mas um chumbou, outro arranjou namorada, outro ainda não conseguiu poupar dinheiro, a um outro os pais disseram-lhe "nem penses, tem juízo" e assim no momento do embarque eu era o único.

Estávamos no final dos anos 80, o regime do apartheid dava os últimos estertores e os noticiários abriam geralmente a página internacional com mais uma revolta no Soweto, mais uma carga policial na universidade de Pretória, mais um atentado bombista no Transvaal. Nesse verão apenas um outro país estava a ferro e fogo, o Líbano. Quando expliquei ao meu professor de Análise Financei ra que não tencionava ir levantar a nota do exame na segunda época, que estava perfeitamente feliz com o 12 e que de qualquer das formas ia viajar para a África do Sul, ele exclamou com tom irónico: "Olhe, já agora vá também para Beirute."

Não fui a Beirute, concentrei tempo e dinheiro, aliás poupanças, nessa página principal do noticiário internacional que era a nação sul-africana no fim do apartheid. Adorei cada minuto da minha primeira viagem intercontinental e solitária e ao longo dos anos fui regressando, sempre que pude. Mas não é por ter iniciado a minha paixão pelas viagens na "nação do arco-íris" que eu a iria escolher se "só pudesse ir a mais um país".

A minha lógica é mais malandreca: o slogan turístico da África do Sul é "o mundo num só país".

Um encontro ao sabor das ondas 

Então, deixa-me aproveitar a minha última viagem com esta promoção da Geografia, tipo a dos supermercados: não tanto o "leve dois em um", mas "leve-se a um só que tem tudo": fechava o meu périplo do mundo nesse concentrado de mundo que se encontra no fim do continente africano. E teria o cuidado de não regressar cedo.

Numa das minhas visitas periódicas à província do Cabo, conheci um australiano que andava a fazer o que fazem eles todos no final dos estudos: com as poupanças, põem-se a viajar durante um ano.

Partilhávamos o quarto num hostal em Jeffreys Bay, onde quebra a mais comprida, rápida e perfeita onda de surf do planeta. Por outras palavras, quem surfou J-Bay não precisa de surfar mais nada no mundo. Lá está o slogan a funcionar.

O Nathan estava a terminar o seu périplo, tinha passado um ano e tinha gasto as suas poupanças. Também as minhas poupanças estavam a terminar. De qualquer das formas era agosto, terminava também a temporada das ondas em J-Bay. Era altura de partir. Ele com os seus filmes feitos com a sua Handycam para mostrar aos seus amigos australianos; eu com os meus escritos e slides para vender às revistas portuguesas.

A três horas de J-Bay encontra-se outra onda que é uma agradável mudança técnica em relação à perfeição de J-Bay. Trata-se de Nahoon, uma onda curta e compacta que quebra muito perto de uma colónia de focas o alimento preferido do tubarão branco.

Nathan, que andava com um carro alugado, convidou-me a partilhar com ele o custo da gasolina e ir passar o dia a Nahoon. Eu não aproveitei, estava mesmo com as poupanças no alarme vermelho. Devia ter ido.

Nathan fez o seu surf, depois filmou o lugar e a onda e os surfistas e, sem sequer se aperceber disso, captou o único ataque simultâneo jamais registado de dois tubarões brancos a um surfista a deslizar em plena onda . Apesar de ter sido dragado para o fundo pelos tubarões, Brandon Ainslie, o surfista, escapou por milagre de uma morte certa e ainda hoje causa incredulidade ver a dinâmica desse ataque coordenado. Essa cena inédita iria correr os noticiários do mundo, as universidades de biologia marinha e, anos depois, ficaria imortalizada entre as trivialidades do YouTube. Mas a cena só seria divulgada depois de o Nathan ter assinado um chorudo contrato de venda exclusiva das suas imagens à Reuters.

"O melhor das viagens são os regressos e o tempo que investimos a conhecer bem um destino que nos agrada"

Terminava agosto, acabava a temporada de J-Bay, acabavam as minhas poupanças também, enquanto as do Nathan, pelo contrário, recomeçavam do início. Com o dinheiro dessa transação, o australiano simplesmente inverteu o itinerário e passou outro ano a viajar pelo mundo. Se tivesse ido com ele, investindo as minhas últimas poupanças na gasolina do carro alugado, certamente teria fotografado e escrito a peça jornalística desse ataque. Teria podido vender à Reuters a minha promoção tipo supermercado: "dois em um, texto e imagens".

E em vez de regressar a casa, teria passado também eu um ano a viajar pelo mundo.

Mas não me lamento.

Continuei a regressar à África do Sul nos anos, aprendendo que o melhor das viagens são os regressos e o tempo que investimos a conhecer bem um destino que nos agrada. Talvez o Nathan tenha tocado muitos países do mundo no seu itinerário com a sua choruda conta bancária, mas não terá ficado a conhecer bem nenhum em particular. Eu, com a minha lógica malandreca, escolhi gostar de um país que é como uma promoção de supermercado, um concentrado da Geografia. Por isso continuo a regressar.