Primeiro, tirou a T-shirt. Passou um braço pela manga, a seguir o outro, ficou em tronco nu. Depois, descalçou-se, deixou cair os calções, despiu as cuecas. Na sua cabeça, imaginou-se todo nu, enquanto caminhava para o Casino Lisboa. Daí a pouco, começariam as audições para o musical Rapazes Nus a Cantar e Pessoa Júnior, luso-brasileiro, 34 anos, estava decidido a participar nesse projecto. Talvez o strip-tease mental lhe tenha valido a descontracção com que, horas depois, prestou a sua prova de canto e, a seguir, se despiu para dançar.

Agora, a dias da estreia de Rapazes Nus a Cantar - na próxima terça-feira, 8 de Setembro, no Auditório Casino Estoril -, nem Pessoa Júnior nem nenhum dos outros sete actores e cantores escolhidos para o elenco deste musical precisam de pensar duas vezes, antes de tirar a roupa. Visto de fora, parece um acto tão natural quanto querem que o seja no espectáculo. Aqui, a nudez não se considera gratuita. Eles tiram as roupas para mostrar de que forma os homens se sentem despidos de cada vez que falam de si próprios. E é disso que se trata: de coisas de homens, que vão do amor e da sexualidade às idas ao ginásio ou à cerimónia da circuncisão.

A ideia de produzir, em Portugal, este musical americano de Robert Schrock, que já leva dez anos de existência, foi de Henrique Feist, director-geral do projecto e responsável pela tradução e adaptação. Viu-o, pela primeira vez, em DVD, quando não resistiu à curiosidade de descobrir o que se escondia atrás de um título destes. "Há o choque inicial do nu, porque não estamos habituados", reconhece, "mas depois encontra-se um espectáculo com uma grande qualidade artística." E sublinha: "Espero que as pessoas, ao saírem, levem muito mais do que o facto de terem visto rapazes nus."

Mas, sim, em cima do palco, há órgãos sexuais masculinos à mostra e nas canções ninguém escamoteia esse pormenor - fala-se deles, da importância que têm para os seus portadores e até das várias palavras que existem para os nomear. "Aqui as inibições libertamos, aqui emoções e olhares despertamos, aqui nós vamos poder arriscar, aqui bem certo é a roupa tirar, e do início até ao fim vai ser sempre assim", cantam todos em coro, logo no princípio do espectáculo.

Que mais há para mostrar?

Numa pequena sala, nos bastidores do Casino Estoril, onde se chega através de corredores labirínticos com slot machines desactivadas, João Carvalho ensaia uma das suas músicas com Sara Belo, professora de voz. Aos 24 anos, é o mais novo deste grupo de actores e cantores. "Perante vós tão exposto, que mais há pra mostrar?", canta, de pé, encostado a um piano de onde Sara vai fazendo sair umas notas. Se há uns meses lhe dissessem que se iria expor assim, num palco, João não acreditaria. Antigo ginasta de competição e com um curso de fisioterapia, viu-se no mundo do espectáculo há dois anos, quando o produtor de uma versão de Carmina Burana foi assistir a um dos seus treinos e o convenceu a participar. Havia de se seguir Visions, ali mesmo, no Casino Estoril, mas João nunca pensou que algum dia se despiria perante um público. "Fui às audições para fazer a prova de canto", recorda,
"e quando disseram para nos despirmos, fiquei à espera de que alguém se fosse embora, para eu ir atrás, mas ninguém o fez e não tive coragem de ser o único." Acabou por ser um dos escolhidos e decidiu não perder a oportunidade.

"No que é que me fui meter?"
A pergunta veio à cabeça de muitos dos elementos deste grupo de oito, mas agora todos olham para o musical como um espectáculo em que se orgulham de participar. Num intervalo dos ensaios, sentados à mesa da cantina do pessoal do Casino Estoril, recordam as suas reacções durante as audições, quando tiveram de se despir e quando souberam que eram os escolhidos. A nudez é tema de conversa recorrente, por mais que já estejam habituados a despir a roupa em público. E não há quem arrisque uma opinião sobre como reagirão os espectadores...

"Não faço ideia do que vai acontecer", confessa Hugo Martins, 33 anos, já na sala onde, daqui a uns dias, será visto, todo nu, por centenas de pessoas. Dê para onde der, a ele a experiência já lhe valeu muito. Bailarino (foi fundador do Ballet Contemporâneo, que acabou em 2007), estava cansado das dificuldades do mundo da dança e quase decidido a voltar à sua profissão anterior de piloto de aviões. Mas não resistiu quando o desafiaram para ir às audições, apesar de nunca antes ter cantado, e acabou por fazer parte dos seleccionados. "Está a ser engraçado descobrir como se canta e isto deu-me um novo alento. A verdade é que gosto mesmo de estar em cima de um palco." Quem ali o vê nem imagina que não era cantor e muito menos que só começou a dançar aos 27 anos. Em Rapazes Nus a Cantar, Hugo ultrapassou a inibição da nudez e do canto e mergulhou de cabeça. "Curiosamente, o que me levou a largar a TAP com a vida estável e o ordenadão que tinha foram os musicais que via sempre que pernoitava em Londres."

Liberdade 'gay'

Ao som do piano de Nuno Feist (director musical), ensaia-se um dos quadros românticos do musical. Numa das pontas do palco, Nuno Martins, 33 anos, em tronco nu, veste um roupão turco. "É só chamares por mim, não me ames em segredo, vem chamar por mim, para quê ter medo?", canta para o madeirense Ricardo Spínola, 39 anos, que está na outra ponta do palco. A componente gay de Rapazes Nus a Cantar é, no entanto, desvalorizada por Henrique Feist: "São sentimentos comuns a qualquer pessoa. O que me interessa é a universalidade do que se passa aqui. O objectivo deste espectáculo não é ser um hino à liberdade gay. Se assim acontecer, será uma consequência e nunca uma bandeira do musical." No entanto, ninguém duvida de que o espectáculo acabará por atrair um público maioritariamente feminino e homossexual.

Talvez por isso, Nuno Martins nunca tenha tido vontade de ver esta peça em Nova Iorque, nos anos em que ali estudou teatro. Agora, confessa-se arrependido, e convicto de que este é um musical "para toda a gente". Em palco, e sobretudo nas cenas românticas que tem de protagonizar, faz por encarnar uma personagem e não pensar em orientações sexuais. Mas Nuno sabe que há conotações inevitáveis e até já ouve algumas piadas dos amigos por se mostrar todo nu - nada que lhe tire o sono, nem mesmo a ideia de que os seus pais estarão na plateia para o ver. "As minhas avós é que é melhor não virem...", diz, a rir-se, este actor do Porto, com experiência nos musicais de Filipe La Feria.

Os quadros românticos alternam com outros bem humorados. Sem um único adereço, Alexandre Ferreira, 32 anos, a cara mais conhecida do espectáculo (participou em novelas como Jura, Ninguém como Tu ou Anjo Selvagem), despe-se para interpretar "uma vedeta porno de Coina, Margem Sul". Pouco depois, é a vez de Hugo Goepp, 35 anos, explicar, em tom de rap, porque vão os homens treinar todas as manhãs ao ginásio. E, mais à frente, no espectáculo, Pedro Pernas, há-de vestir-se (ou despir-se) de artista "divino e tão sublime", cheio de maleitas escondidas. Aos 36 anos, pai de um bebé de quatro meses e "sem idade já para ter vergonhas", apostou na irreverência deste musical e não se arrependeu.

Juntos, em palco, não lhes falta entusiasmo. E hão-de cantar e dançar para quem os quiser ir ver: "Vá, venham aplaudir os rapazes que desfilam com mais uma canção, vamos lá despir esse vosso preconceito, neste musical estar sem roupa é respeito", cantam, quase no fim. Afinal, aqui, o público também tem de se despir - não de roupas, mas de inibições.