O poema "Cântico Negro" de José Régio[1] perdura no nosso imaginário poético com uma força inspiradora. Mas Régio tem também um conto, do seu livro "Há mais mundos" intitulado "Os três vingadores ou nova história de Roberto do Diabo" onde três príncipes tentam vingar seu pai, um velho Rei deposto e exilado durante anos, que também seduz pela sua força poética. Após a morte do Rei, os seus três filhos rumam ao seu reino perdido. O príncipe mais velho encarna a força e a coragem e lança rebeliões por todo o reino tornando-se numa lenda viva: O Cavaleiro da Máscara. O segundo, um intelectual eloquente expunha os abusos e crimes do actual Rei Roberto com tal "fogosidade verbal, penetração analítica e precisão lógica" que também rapidamente atrai um grande número de admiradores e passa a ser conhecido como o Monge Negro. Havia tumultos por toda a parte e o Rei Roberto nunca mais teve paz, até que chegou a terceira personagem. O cavaleiro branco de olhos límpidos e cara gentil, contava "anedotas, gracejava, opinava, aplicava fábulas e anexins" acalmando a população que depressa trocou de fidelidades. Roberto mandou então colocar um edital por todo o lado, convidando o salvador que tinha reposto a ordem pública e a integridade do reino, para a maior festa jamais vista naquele território. Quando o príncipe mais novo chegou apresentou-se: "Sou o filho mais novo do teu Rei e o que quero é o teu arrependimento completo". Depois de um longo silêncio tumular, Roberto lançou-se aos pés do cavaleiro branco: "Pesa-me, pesa-me. O meu trono pelo teu perdão".

Gosto deste conto porque em vez de se cingir à dicotomia usual da força vs o raciocínio, da arma vs a palavra, apresenta uma terceira via, que se distingue por não se distinguir em nada. É apenas simples e natural. A coragem e o raciocínio conseguem seduzir-nos e aterrorizar-nos ao mesmo tempo, mas quando somos confrontados connosco próprios sem força nem retórica, rendemo-nos de forma orgânica e natural. A mensagem ambiental tem passado por estas fases, quer com a força científica dos factos e números, quer com a retórica que nos confronta com a crise ambiental de forma inequívoca. O "Rei Roberto" resiste com todas as suas forças as estas duas lendas vivas: o cientista da máscara e o mensageiro negro. 

Num artigo[2] sobre as nossas fronteiras planetárias identificaram-se nove, dentro das quais nos temos que manter para podermos sobreviver a longo prazo. Para as primeiras três, já ultrapassámos a fronteira: Alterações climáticas, perda da biodiversidade e ciclo do azoto. Para as seguintes cinco, estamos perto, mas ainda nos mantemos dentro da zona segura: ciclo do fósforo, deplecção do ozono estratosférico, acidificação do oceano, uso global de água doce, alterações de uso do solo. Para as duas últimas: carga de aerosol atmosférico e poluição química ainda não se conseguiu determinar onde se situa a fronteira e onde estamos. A par deste artigo, centenas de outros "gritam" quão perto estamos de um caminho irreversivelmente insustentável, e quão urgente seria parar e repensar as nossas estratégias de desenvolvimento. Ninguém os ouve. Acho que precisamos de um poeta, de um cavaleiro branco que sem certezas e sem um rumo certo nos diga apenas "Não sei por onde vou. Não sei por onde vou. Sei que não vou por aí".  

 

[1] Dito maravilhosamente por João Vilarret em: http://www.youtube.com/watch?v=qKyWRJZnu2o

[2] Rockstrom et al. 2009. A safe operating system space for humanity. Nature 461: 472-475