O cubano que veio para o frio
Esta era uma das 17 prisões para prisioneiros políticos que existiram no território na parte comunista da Alemanha durante a Guerra Fria. Jorge conta que havia mais salas de interrogatório do que celas, numa proporção de 120 para 103. A luz naqueles corredores é fria e, estranhamente, ainda se sente o cheiro da ditadura, sobretudo nos pisos superiores onde se sucedem as salas de interrogatório, que têm o soalho revestido a linóleo claro.
No "submarino", uma zona da prisão assim chamada por se situar debaixo da terra também cheira, mas a mofo. "Chamam-lhe assim porque, quando aqui entravam, as pessoas desapareciam, submergiam. E nessa submersão nunca dava para perceber se era de dia ou de noite", explica o guia.
Jorge movimenta ruidosamente os ferrolhos das pesadas portas de metal. Exemplifica como os guarda faziam e imita-lhes a voz de comando. "Aqui deixavas de ter nome e passavas a ser um número". Jorge cerra os punhos e junta-os delicada mente. Ajeita o cachecol e emociona-se enquanto conta a história desta prisão. Ele não é um guia profissional. Viveu o que aqui conta aos visitantes. Isto é, sofreu-o na pele.
Quando, na década de 80, se apaixonou por uma alemã oriental e veio viver para cá ("são as mulheres que nos levam à certa", dirá à margem da visita com um brilho nos seus olhos azuis pequenos), nada fazia prever que seria detido pela Stasi para ser interrogado. O delito de Jorge foi o de ter-se dado com as pessoas erradas. Ou melhor, com homens e mulheres suspeitos de terem contactos com ocidentais, logo potenciais espiões. O azar foi isso ter acontecido numa época e num lugar em que contar uma anedota podia ser considerado uma deslealdade para com o "Estado de Operários e Camponeses", o que dava, obviamente prisão.
Bastou isso para uma semana de interrogatórios, de tortura do sono, de coacção psicológica. E claro para o separarem da mulher. Foi deportado para Cuba, onde voltou a ser detido pela polícia política do regime castrista. Não conseguiram provar nada contra ele e após três dias de interrogatório foi "condenado" a cinco anos de termo de identidade e residência, à proibição de deixar o país e a uma perseguição permanente.
O muro de Berlim caiu entretanto. E, depois dos cinco anos, Jorge regressou à Alemanha e à "sua" prisão, entretanto convertida em museu onde é actualmente guia.

