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Cientistas portugueses ligam e desligam neurónios da obesidade

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Matt Cardy / GettyImages

Neurónios do tecido adiposo controlam o aumento de peso. Investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência trabalham numa forma de controlar o processo, através de medicamentos

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Já sabemos que a obesidade se está a tornar no principal problema de saúde dos países ricos. E anda meio mundo a tentar encontrar uma fórmula mágica para resolver o assunto.

Ana Domingos, que dirige o laboratório de obesidade do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, está na linha da frente, tendo-se dedicado ao estudo dos mecanismos neurobiológicos envolvidos no aumento de peso. Em particular, a investigadora tem estudado o papel de um tipo de neurónios, ditos simpáticos, que rodeiam o tecido adiposo. Estes neurónios fazem parte do sistema nervoso periférico e estão diretamente envolvidos no processo de ganho e perda de massa gorda.

Em 2015, num artigo publicado na revista Cell, a cientista e a sua equipa mostravam que, quando estes neurónios são excitados, ou ativados, - algo que conseguiram fazer em ratinhos de laboratório - o organismo perde peso. Agora, num artigo publicado na revista Nature Communications, provaram que quando são desligados, os ratinhos engordam a olhos vistos, mesmo sem qualquer alteração no seu regime alimentar.

Para o fazer, a equipa de investigação recorreu a uma técnica muito usada em engenharia genética para eliminar células, que se baseia no uso da toxina diftérica. Modificando o método, de forma a que pudesse ser usado em ratinhos, ficou assim explícito, sem sombra de dúvida, que estes neurónios são "necessários e suficientes para o ganho e a perda de peso", resume Ana Domingos.

Com este ponto assente, está o caminho aberto ao desenvolvimento de um medicamento que consiga atacar o problema. "No fundo, esta técnica que usámos para eliminar os neurónios serve também como modelo para testar medicamentos", avança a investigadora.

Ter como alvo neurónios que estão no corpo, fora do cérebro, simplifica e muito o trabalho, já que os neurónios cerebrais estão protegidos pela barreira hematoencefálica, muito difícil de penetrar. Além disso, reduzem-se os riscos associados a uma potencial terapêutica que obrigasse a interferir com o cérebro (o órgão que no fundo controla todo o processo).

Uma vez que estes neurónios simpáticos também estão presentes noutros tecidos, o desafio agora é encontrar uma molécula que os atinja em exclusivo. Ana Domingos garante que está no bom caminho, revelando ainda que há já vários investidores interessados em apostar no desenvolvimento de um medicamento.