São oito à mesa. Bruno Trindade, 32 anos, agente de viagens, não faz a coisa por menos. Vive sozinho, mas não sabe cozinhar para menos de meia dúzia de pessoas.

Encontramo-lo em casa, rodeado de amigos e à volta dos tachos. Na sala do apartamento de Oeiras salta à vista o sofá, king size. Cabem lá todos os que povoam a vida de Bruno. Ele vive só, sim, mas não é de todo um solitário.

Bruno saiu de casa da mãe para ir viver com uma mulher. Estiveram juntos quase dois anos, até que se separaram. Nos primeiros meses, estranhou o silêncio, os fins de semana custavam a passar. Depois do período de adaptação, vieram as vantagens: "Disponho do meu tempo como quero, se for passar um fim de semana fora posso ir jantar a casa de uns amigos e ficar a dormir no sofá de alguém. Lá está, não tenho ninguém a quem dar uma justificação." É esta sensação de liberdade que mais se destaca no discurso de quem está sozinho em casa. "O conceito de conquista, de libertação, de poder gerir a vida a seu bel-prazer é sistematicamente apontado como crucial", explica a socióloga Rosário Mauritti, autora do livro Viver Só. "Provavelmente se todos pudessem ter esta experiência, teríamos um maior número de pessoas a viverem sozinhas, particularmente no segmento da população mais jovem", conclui.

Nem tudo são rosas. Bruno reconhece que, regra geral, os homens são uns piegas quando estão doentes. "Uma pessoa vai ao dentista, chega a casa, está aqui cheio de dores e não há ninguém para nos fazer uma festa na cabeça", diz. Mas em situações mais complicadas, os amigos estão lá para o que der e vier.

"A vida vale a pena em partilha. Quando se vive sozinho dá mais trabalho, temos de ir à procura do outro. Nós podemos ir buscar essa energia fora de casa, aos amigos, no fundo mostrando-nos disponíveis para o outro e o outro retribui-nos", afirma Helena Prata, 42 anos.

Esta designer de comunicação vive sozinha, em Lisboa. Helena pertence já a uma geração de mulheres que não saem de casa dos pais apenas quando se casam. O curso superior, tirado no Porto, foi a primeira experiência. Depois, regressou à capital. "Sempre senti que assim que tivesse autonomia financeira e a vida me permitisse queria viver sozinha muito mais do que sair para casar. E assim foi", conta Helena.

Mais do que o estigma de ser uma mulher a viver sozinha, Helena sente o preconceito com que algumas pessoas olham para uma que não deu o nó. "É sempre aquela pergunta: então quando é que te casas?" Horácio Lopes, 41 anos, gestor desportivo, também se queixa. "Já fui confrontado com críticas do género: 'És divorciado e vives sozinho, ninguém deve gostar de ti.' Caramba, consigo fazer já aqui uma lista de milhares de pessoas que até simpatizam comigo. É uma opção, uma forma de estar. Há pessoas que não conseguem estar sozinhas e procuram a toda a força companhia. Eu consigo estar sozinho e ter prazer nisso. Ponho o meu incenso, a minha música, faço o meu chá e tenho momentos de prazer."

'EU E EU'

O psiquiatra Carlos Amaral Dias distingue as várias razões que levam ao viver só. Umas mais patológicas (por exemplo, uma incapacidade de se relacionar com os outros ou uma necessidade de se isolar do mundo); outras mais saudáveis.

Neste caso... "São personalidades muito mais sadias do que aquilo que seria de supor. Têm a capacidade de estar com os outros, de criar vínculos e relações interpessoais, mas isso não é um antónimo de um outro prazer que é a capacidade de retirar partido da sua própria solidão.

Essa capacidade de estar só retrata do meu ponto de vista as personalidades mais maduras", elogia. Ou como dizia o escritor António Lobo Antunes, "divertimo-nos muito os dois, eu e eu". Horácio diverte-se. Não há muito tempo, para contornar a falta de companhia nas férias, inscreveu-se numa programa de aventura, no Canadá, em regime de sobrevivência. "Levaram--nos de hidroavião, deixaram-nos numa ilha com canoas e comida e disseram--nos para voltar para casa. Eu voltei, estou aqui. Por acaso, naquele grupo (éramos 10 pessoas em cinco canoas), os que tinham vivências mais solitárias foram os que resolveram mais problemas, os que se adaptaram melhor", conta. Horácio adora trabalhar. Gere associações, clubes, equipas, carreiras de atletas, tem um clube de taekwondo no Seixal onde dá aulas, promove passeios de BTT aos fins de semana... Usa o tempo que lhe sobra para investir na sua valorização profissional tem dois mestrados e já fez mais de 10 cursos de formação profissional.

"Claro que há sempre um preço a pagar, mas certamente não teria este currículo se tivesse outro tipo de vivência, como um casamento ou filhos", considera.

O PRAZER DA AUTOSSUFICIÊNCIA


Em países como a Dinamarca, a Holanda ou a Noruega, a fração de famílias unipessoais ronda os 40 por cento. Em Portugal, mostram os dados dos Censos, a percentagem fica-se pelos 21,4, mas tem vindo sempre a crescer. Quase 900 mil portugueses estão sozinhos em casa.

Partindo do grupo de pessoas a viver sós que estudou para a sua tese de doutoramento, a socióloga Rosário Mauritti, professora no Instituto Superior de Ciências do trabalho e da Empresa, concluiu que, no segmento até aos 40 anos, há mais homens do que mulheres a viver sozinhos. "Isso deve-se a uma cultura que associa o homem a maior independência, à necessidade de crescer, antes de construir uma família. Depois a partir dos 40, 45 anos, começa a haver mais mulheres.

Elas têm hoje condições para decidir pela rutura do casamento quando este não está a ser benéfico", analisa.

A alemã Dorte Schneider, 37 anos, assistente de realização, escolheu Portugal como destino para umas férias sem companhia.

Apaixonou-se pelo País e vive cá há 15 anos. Já foi casada, já dividiu a casa com amigos. Agora... "Como estou todo o dia rodeada de muitas pessoas, devido à minha profissão, sabe-me muito bem chegar a casa e não ter de conviver. Ponho a música que me apetece ouvir, abro uma garrafa de vinho e fico na minha, feliz", conta.


Sentada no miradouro da Graça, em Lisboa, à conversa com o amigo Ricardo Gross, 42 anos, técnico de comunicação na Casa Fernando Pessoa, Dorte fala do prazer em ter a sua independência. "Não espero por ninguém. Quero ir à praia, vou à praia, não começo a telefonar às pessoas, não passo duas horas a procurar alguém que queira ir.", diz. "Eu já experimentei essa sensação", interrompe Ricardo. "Enche-nos de um sentimento de poder, de autossuficiência." A assistente de realização não tem, por ora, vontade de partilhar o seu lar com mais ninguém. Já o amigo, que também vive só, está na expectativa de juntar as almofadas, uma vez que se encontra numa relação. "Quero voltar a ter a experiência de viver com uma pessoa porque foi algo com que, no passado, me senti muito bem", conclui.

A CARA METADE

Ter a possibilidade da escolha é um luxo que não está acessível a todos. Os dados estatísticos não refletem, por exemplo, o número de casamentos que se mantêm por força da falta de condições financeiras para que um dos cônjuges saia de casa. Por outro lado, "um dos fatores que conduziu ao crescimento do viver só poderá ser a desagregação de estruturas familiares: o aumento do divórcio, a diminuição da dimensão das famílias, as próprias tendências demográficas associadas ao envelhecimento e à sobremortalidade masculina, porque temos muitas senhoras mais idosas a viverem sozinhas, por questões de viuvez", enumera Rosário Mauritti. É o caso de Lucinda Conceição, 87 anos. Perdeu o marido há duas décadas, mas a dor permanece. Nunca lhe passou pela cabeça voltar a reconstruir o lar: "Ele foi o primeiro e o último", diz, enquanto faz renda no centro de dia da Fundação Cebi, em Alverca, onde disfarça a solidão. Lucinda não escolheu viver sozinha. Embora tenha um filho presente, que se interessa, o vazio permanece.

"Nada supre, nada preenche a falha que se instala depois da viuvez", considera Carlos Amaral Dias. "Aquela versão da cara metade é uma expressão muito curiosa. A partir de certo ponto de uma relação, é frequente as duas pessoas estarem em silêncio e uma delas dizer: 'Tu estás a pensar nisto'.

E está mesmo. É uma espécie de bolha, que cria cumplicidades e intersubjetividades muito específicas entre dois seres humanos", explica o psiquiatra. Assim, em caso de viuvez, aquele que fica, mesmo estando acompanhado por outras pessoas, sente-se sempre incompleto.

"O sentimento que falta lá alguém é também o sentimento que falta lá uma parte de nós", remata Amaral Dias.

A realidade de Lucinda é muito comum em Portugal. Cerca de metade dos portugueses que vivem sozinhos tem mais de 65 anos. Um quinto do total dos idosos vive só. Neste grupo etário já se fala com frequência em solidão. Até porque estas pessoas são de um tempo em que as casas estavam cheias. De gente; não necessariamente de cumplicidades.