É manhã cedo e, à subida para a caldeira, o sol brilha no alto de um esplendoroso céu azul, num engodo comum por estas bandas. Como antecipadamente nos avisara o vigilante Dejalme Vargas, nosso guia e companheiro de caminhada pelos trilhos do Parque Natural do Faial, "aqui de manhã é verão, mas à tarde pode já ser inverno".

Dejalme é um filho da terra e conhece o terreno como poucos. Ao ouvi-lo explicar toda a paisagem envolvente, depressa se compreende o porquê do Parque Natural do Faial ter sido o primeiro local em Portugal a receber o prémio EDEN (European Destinations of Excellence), destinado a distinguir destinos de excelência com baixa procura, que fomentem um turismo sustentável. O modo como, no Faial, homem e natureza se complementam e a forma como estes fatores se interligam ainda com uma história rica em tradições populares únicas foi um dos fatores que mais pesou no sucesso da candidatura faialense.

Chegados ao miradouro da Caldeira, no topo da cratera do vulcão central, damos finalmente início à jornada. O objetivo é percorrer o Trilho dos 10 Vulcões, que associa os trilhos do Perímetro da Caldeira, Levada, Capelo-Capelinhos e Subida ao Vulcão dos Capelinhos, num total de 27 quilómetros de dificuldade média. Estamos a mais de mil metros de altitude e, apesar das nuvens que já se aproximam, a vista é deslumbrante, com a vizinha Ilha do Pico e dominar o horizonte e, mais além, São Jorge.

Munidos do Guia do Parque Natural do Faial, uma ferramenta fundamental para decifrar toda a paisagem envolvente, percorremos primeiro o trilho do Perímetro da Caldeira, observando cá de cima toda a exuberância da Laurissilva húmida.

Como nos explica Dejalme, "o interior da caldeira é um dos mais preciosos redutos da flora natural dos Açores". Por essa razão, o troço da Descida à Caldeira é o único que não é de visitação livre, sendo necessária marcação prévia e a presença de um guia credenciado pelo Parque Natural. Vagarosamente, percorremos os dois quilómetros de diâmetro da cratera com muitas paragens pelo meio. Pelo caminho, cruzamo-nos com outros grupos de caminhantes, que nos cumprimentam com um sorriso cúmplice, como quem partilha um segredo bem guardado. Antes de iniciar o trilho da Levada, fazemos um desvio para visitar o Cabeço dos Trinta, um antigo cone vulcânico basáltico, cujo interior se pode aceder através de um túnel. O trilho tem depois início junto de um tanque de armazenamento de água, de onde se avista, a Oeste, o alinhamento de cones do Complexo Vulcânico do Capelo. Chegados à Levada, somos surpreendidos por uma radical mudança na paisagem, dominada agora pelo verde da cerrada flora Laurissilva, na qual se destacam o louro (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica), a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum) e o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), que Dejalme vai identificando, com atenta paciência, ao longo do trilho.

No parque natural do Faial podem ser apreciadas cerca de 50 espécies de plantas endémicas dos Açores e cada trilho tem assinalados os diversos pontos de interesse, com números que correspondem, no guia, a explicações sobre os mesmos. O troço da Levada tem cerca de 3 quilómetros e é de grau de dificuldade baixo, mas apresenta especial interesse pelas suas caraterísticas, não só no que se refere à flora, à fauna, à geologia, mas também pela sua importância hidroelétrica para a ilha do Faial. A infraestrutura da levada teve a sua inauguração em 1964, estendia-se por 9,5 quilómetros de comprimento e recolhia a água proveniente de várias zonas da ilha do Faial para produção de eletricidade. Continua ainda em funcionamento, mas agora apenas numa extensão de 4,5 quilómetros de levada.

A zona é também conhecida pela sua rica variedade de fetos, nos quais se destaca o feto-docabelinho (Culcita macrocarpa), com os seus pêlos avermelhados e finos, outrora usados para o enchimento de almofadas. Outro local de interesse deste percurso é o do Mistérios do Capelo, uma zona resultante do antigo escoamento lávico da erupção de 1672, que queimou toda a vegetação existente. Com o tempo, as cinzas destas plantas foram incorporadas no solo, aumentando o nível de nutrientes, o que permitiu o surgimento de uma mancha arbórea distinta, com um vigor muito superior ao da vegetação circundante o chamado Mistério...


À descoberta

Descendo sempre em direção ao mar, chegamos ao Parque Florestal das Trupes do Capelo, onde tem início mais um dos trilhos que compõem o percurso dos 10 Vulcões, neste caso o do Capelo-Capelinhos, um dos mais diversificados, em termos de paisagens, de todo o Parque Natural.

Com uma extensão de 7 quilómetros num constante sobe e desce, é um dos mais exigentes, em termos físicos, mas merece bem o esforço para apreciar uma paisagem em tudo idêntica à que os primeiros povoadores encontraram nesta ilha "repleta de aves e com uma densa vegetação". Segundo o padre historiador Gaspar Frutuoso, consta que o primeiro ser humano a habitar a ilha terá sido um eremita, vindo do reino, que aqui vivia com algum gado, algures na primeira metade do século XV.

Caminhando por estas serranias, temos uma pequena noção das dificuldades que o solitário colonizador terá enfrentado em território tão hostil. Com uma grande diversidade ecológica e geológica, este troço percorre alguns dos antigos cones vulcânicos responsáveis pela formação da península do Capelo, visíveis no alinhamento entre a Caldeira e os Capelinhos, também designado de Complexo Vulcânico do Capelo. Na primeira paragem, Dejalme indica-nos, a Este, o Cabeço do Fogo, o local onde ocorreu a primeira erupção histórica da ilha do Faial, em 1672.

Seguimos depois em direção ao Cabeço Verde, que contornamos para regressar depois à estrada de bagacina (designação dada a piroclastos de baixa densidade, constituídos por fragmentos basálticos ou pedra pomes) e daí fazemos um desvio até à Furna Ruim, um algar de uma antiga chaminé vulcânica, com mais de 50 metros de profundidade, totalmente coberta de vegetação.

Um pouco mais à frente, seguindo o trilho na direção oeste, encontra-se o Algar do Caldeirão, uma das formações vulcânicas mais antigas da península do Capelo, que alberga, no seu interior, uma das mais bonitas e valiosas espécies da flora açoriana, a vidália (Azorina vidalii). Continuamos a caminhar, agora sob a sombra de um dos mais belos exemplares de vegetação arbórea endémica dos Açores, o azevinho (Ilex azorica), que aqui chega a atingir alturas de 4 metros. Uma bênção que nos permite recuperar forças, sob o sol abrasador que agora se faz sentir. As nuvens que entretanto passaram, acumularam-se todas no cimo da ilha, em redor da Caldeira, tapando-a agora por completo.


Paisagem lunar

Do cimo do Cabeço do Canto avista-se já o Vulcão dos Capelinhos, lugar da última erupção ocorrida na ilha, entre 1957 e 1958. Ali bem perto, no topo de um morro com vista para o oceano, avistamos uma antiga vigia baleeira. Hoje desativadas, eram de vital importância na atividade da caça à baleia, proibida em Portugal desde a década de 80. Depois de atravessar a estrada regional (de alcatrão), caminhamos mais algumas centenas de metros por cima das cinzas vulcânicas do Costado da Nau, até chegar ao moderno Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos.

Situado nos pisos térreos do antigo farol, hoje totalmente soterrados por areias vulcânicas, é um dos cinco centros de visitantes integrados no Parque Natural (ver caixa) e fundamental para quem quer conhecer a fundo toda a história vulcânica do Faial e do arquipélago. Um dos melhores locais para apreciar a paisagem única desta parte da ilha é no topo do farol. Na madrugada do dia 27 de setembro de 1957, junto ao ilhéu dos Capelinhos, teve início uma erupção, que chegou a formar uma ilha com mais de 100 metros de altura, acabando por se ligar ao Faial através de um istmo. A atividade continuou nos meses seguintes e, na noite de 12 para 13 de maio de 1958, o vulcão passou de uma fase submarina para terrestre, após uma forte crise sísmica em que foram registados mais de 400 abalos numa só noite. O fenómeno durou até outubro, por vezes com períodos de grande explosividade, com projeção de lava a mais de 500 metros de altura.

A última emissão de lava aconteceria a 24 de outubro, mais de um ano depois de ter acordado, o vulcão voltava a adormecer, deixando atrás de si um rasto de destruição nas freguesias limítrofes, com casas e campos de cultivos soterrados por cinzas vulcânicas, e uma nova geografia para a ilha do Faial que, no final da erupção, viu-se acrescentada em mais 2,4 quilómetros quadrados. É por esse jovem território que agora avançamos. A subida ao Vulcão dos Capelinhos é de acesso limitado, pelo que é necessário efetuar um registo no Centro de Interpretação. É também possível, mediante marcação prévia, participar numa das visitas regulares, acompanhadas de guia, organizadas pelos serviços do Parque Natural. De uma forma ou de outra, a visita é obrigatória. As toneladas de cinzas vulcânicas aqui depositadas dão à paisagem um aspecto lunar, que se acentua à medida que subimos e se começam a encontrar diversos materiais piroclásticos soltos, como bombas e blocos vulcânicos.

É já fim de tarde quando regressamos à Horta, ainda a tempo de um retemperador mergulho nas cálidas águas da Baía de Porto Pim, outrora a base da indústria baleeira da ilha e hoje o principal centro balnear da ilha. Depois, já com o sol a pôr-se, sentamo-nos na esplanada do Peter, outra das instituições do Faial, onde, após um dia de intensas caminhadas, bebemos o tradicional (e neste caso merecido) gin tónico com vista para o Pico...