O meu marido saiu de casa no domingo, às três da tarde, depois de espreitar pela janela e se dar conta que havia um espaço para estacionar em frente à porta. O nosso carro estava longe, na rua de baixo, e aqui, à mão de semear, pode dar-se uma olhadela de vez em quando

(há tantos roubos e se fossem só roubos, são esses miúdos que esvaziam pneus, partem antenas, riscam a chapa com um prego, toda a gente sabe que os pais já não educam os filhos)

no caso de chover molhamo-nos menos para entrar e, além disso, da nossa rua à rua de baixo é um esticão e o médico, derivado à angina de peito, proibiu-me de me cansar. O meu marido, que foi comigo à consulta

(vai sempre comigo à consulta e toma nota do que o médico diz na agenda, atento às palavras, tive sorte, a gente casa cedo, sem conhecer a vida nem as pessoas e, como eu digo sempre, o casamento é uma lotaria, graças a Deus saiu-me este que se preocupa, se interessa, se desvela)

arranjou uma senhora para auxiliar na limpeza

(- Tens de poupar-te)

e realmente as pernas incham-me menos ao fim do dia, ando mais bem disposta, menos exausta, no outro dia dei por mim a cantar, a senhora que me auxilia, uma viúva de reforma estreita, admirou-se

- Que alegria

não é bem alegria, é o alívio de respirar melhor, ficar sentada na sala a ler uma revista que me distraia, ver um bocadinho de televisão enquanto ela aspira o quarto, comer um quadradito de chocolate

(estou um pingo mais forte, as saias apertam-me)

discutir com a viúva os perigos dos taxis, um deles, por exemplo, galgou o passeio, esmagou o marido contra a montra de uma ourivesaria e ele, coitado, faleceu ali mesmo, de nariz contra os relógios e os anéis, o que sempre é preferível a falecer com a cara enfiada contra os pechisbeques das lojas dos chineses. Mesmo morto o ourives ainda lhe vasculhou os bolsos dado que a gente desconfia, quem garante que não meteu um anel no dedo para impressionar os colegas do cemitério. Toda a cautela é pouca conforme garantem os penhoristas. O certo é que a nossa vida tem corrido melhor, a da viúva também, que o marido, segundo me explicou, era difícil

(metia-se nos espirituosos e pedia-lhe que tivesse paciência era um trauma de infância

- A minha mãe nunca me deu amor

e agora, numa campa perto da campa da mãe têm a eternidade à frente para resolverem o trauma, num par de anos deixa de beber que é uma beleza, torna-se complicado comprar garrafas dentro de uma urna)

e, com o marido ausente

(- Até ver

declara ela, num mundo tão incerto como este quem se atreve a afirmar seja o que for)

a mobília inteira e ele sem ir buscar ao armário a corneta que tocava no tempo da tropa, no quartel, obrigando-a a apresentar armas

(- Apresentar armas imagine)

e a marchar

(- Esses bracinhos até cima, esses bracinhos até cima)

à volta da mesa das refeições. Portanto corre tudo bem para os três, eu com as revistas, a viúva outra vez civil e o meu marido, tão atencioso, tão amigo, contente de possuir uma esposa não digo com saúde, que sessenta anos são sessenta anos

(se sessenta anos fossem trinta é que me admirava)

mas com melhores cores, sobretudo se visto a blusa vermelha que já me declararam que quando a ponho até pareço um cravo de papel, só falta meterem-me uma quadra ao pescoço e venderem-me pelo Santo António em Alfama. Corre tudo bem para os três, ou seja, correria tudo bem para os três se não fosse o meu marido tirar as chaves do automóvel que estão no prato sobre a arca da entrada, juntamente com a factura da luz e uma carta da minha irmã Hortense, que vive em Buarcos e vai ser operada à hérnia em outubro, que deixei ali para não me esquecer de responder-lhe. Uma hérnia parece que é um trabalho simples mas uma operação é uma operação e há quem se fique na anestesia ou acorde a declarar que é a embaixatriz da Bélgica ou polícia de trânsito

(conheço muitos casos)

derivado a que os fumos que metem no nariz das pessoas mudam a direcção do cérebro e embaixatriz na Bélgica sempre é melhor do que trabalhar na costura e os polícias de trânsito têm refeitório e autoridade, duas coisas que consolam. Entre parêntesis o meu marido é contínuo, um bocado intermitente por causa da sinusite mas contínuo. Correria tudo bem para os três, contava eu, se não fosse o meu marido tirar as chaves do prato da entrada no domingo

(já lá vão cinco dias)

para estacionar o automóvel à nossa porta. Fiquei na marquise à espera porque ele não é grande espingarda a guiar e não temos ourivesarias perto, temos uma tabacaria: lançar-se contra anéis é uma coisa e contra embalagens de tabaco de enrolar e caixinhas de mortalhas outra, para além de que as mortalhas de cigarro são difíceis de comparar às mortalhas da agência, e não me apetece que ele parta embrulhado em cancros do pulmão. Ao menos que vá saudável para os Prazeres, sem os dedos da mão esquerda amarelos. Por acaso a viúva que me auxilia estava cá em casa para um chá, porque entre uma pessoa que aspira e uma pessoa que assiste ao aspirar, é fatal como o destino, acaba por se criar uma amizade limpa e, além de limpa, sem os grãos de pó que dificultam o movimento das engrenagens do afecto. Não é preciso ser psicólogo, quanto mais mecânico, para entender isso. A viúva e eu na marquise e o meu marido nada. Nada, aqui, significa sem aparecer, não significa a nossa relação mais íntima que essa, embora ele apareça, nada de facto. Também, como declarava o meu pai, que tinha a carroça mas faltava-lhe o burro, não se pode ter tudo. Puxava a minha mãe que ele diabético, coitado. Ao cabo de umas duas ou três horas a viúva foi à rua de baixo e o automóvel não estava. Fomos as duas, quatro olhos são melhores do que dois, tomara eu ter quarenta, não me escapava um mosquito, e o lugar do automóvel vazio. Voltámos para cima, esperámos o resto do domingo inteiro, esperámos segunda

(a viúva dormiu cá, no lugar do meu marido que só temos uma cama)

esperámos terça, esperámos quarta e até hoje quinta-feira ou sexta

(perdi a noção das datas com este problema)

o meu marido ausente. A viúva interrogou os vizinhos

(a nossa amizade tem crescido)

e parece que o engenheiro do prédio ao lado, na esquina a passear o cão, o viu partir no sentido da auto-estrada do Norte. Pode ser verdade e pode ser mentira, não sei. Sei que, se por acaso vier, dorme no sofá da sala: na nossa relação mais íntima ele nada e a viúva, pelo menos, ignoro como ela se arranja mas alguma coisa sucede e graças a Deus, depois de suceder, tenho dormido melhor.