Eu tinha três caixotes cheios de livros no carro. Na noite anterior, já tarde, depois de um dia inteiro, tive preguiça de carregá-los até ao elevador e, após sete andares, abrir-lhes a porta de casa. Ainda cedo, em calções e chinelos, a primeira coisa que me lembrei de fazer foi ir buscar os livros, antes que a manhã aquecesse demasiado. No elevador, desci sério e despenteado, reflectido por espelhos.

Às vezes, penso: e se um dia acordasse no corpo de outra pessoa? A minha consciência tal como é, mas no corpo de outra pessoa.

De repente, acordar, espreguiçar-me e ter, por exemplo, o corpo do Cristiano Ronaldo, a vida do Cristiano Ronaldo, as pessoas virarem-se para mim e chamarem-me Cristiano Ronaldo, falar com a voz dele, aproximar-me de uma bola e, sem esforço, fazer aqueles truques. E depois? E o que é que faria, sendo o Cristiano Ronaldo, mas tendo os meus pensamentos e estando na minha casa? Se saísse à rua, toda a gente se havia de admirar: o que estava o Cristiano Ronaldo a fazer ali sozinho? Havia de juntar-se uma multidão. E será que as minhas roupas lhe serviam? Duvido. O Cristiano Ronaldo, no meu bairro, embrulhado num lençol, daria notícia certa no telejornal. O lado positivo desse escândalo, seria a possibilidade retomar a vida, voltar aos treinos. Ao acordar na minha casa, dentro do seu corpo, não teria os seus números de telefone. E a minha vida? Havia de sentir muita falta dela. Será que, algures, existiria o meu corpo habitado pela consciência do Cristiano Ronaldo? Essa troca não seria boa para nenhum dos dois.

Como Cristiano, mas com a minha consciência, imagino-me terrivelmente só, sentado num sofá enorme, os seus cunhados a falarem para mim e a serem-me desconhecidos.

Naquela manhã, ainda antes de sair, através do vidro da porta do prédio, vi um cachorrinho branco deitado sobre a calçada, um caniche de pêlo encaracolado, muito sereno e perfeito, com as pernas muito direitas, com um casaquinho azul. Enquanto abria a porta, pensei que era uma pena não ter trazido o meu telemóvel. Aquela imagem daria uma bela foto: o fundo geométrico da calçada e a tranquilidade terna do cachorrinho.

Aproximei-me para lhe fazer uma festa e vi que tinha os olhos meio abertos, a boca estava meio aberta e o topo da cabeça escorria um fio de sangue já coagulado.

Acordar no corpo do Cristiano Ronaldo seria uma probabilidade remota. A acordar no corpo de alguém, se a matemática estiver minimamente certa, seria muito mais provável que acordasse no corpo de um chinês ou de um indiano.

Nesse caso, existiria a dificuldade da língua e dos alfabetos. Seguindo o mesmo raciocínio também poderia acordar no corpo de uma chinesa ou de uma indiana. Nesse caso, haveria dificuldades de outra ordem.

À porta do meu prédio, olhando para cima, estão as varandas de oito andares. O mais certo é que o cão estivesse numa delas e, desconhecendo a altura que o esperava, tenha saltado. Assim que vi a sua boca semiaberta, a mostrar uma tira da língua, fui logo capaz de imaginar todos os detalhes, como se passasse instantaneamente para o seu corpo: Era um animal brincalhão, daqueles simpáticos, que abanam o rabo de roda das pessoas, daqueles que saltam.

O momento do seu voo no ar.

A imagem da sua queda vista pelos seus olhos. E vista de longe: um caniche branco, com um casaquinho azul, a cair de uma varanda, lenta e longamente, uma imagem parada.

O seu choque com o chão: o som da carne. Um som isolado de todos os outros, como se acontecesse um momento de silêncio absoluto para se escutar apenas aquele som, o som da carne.

E depois, no chão, não ficou logo naquela posição tão direita, esperneou.

Em momentos da adolescência, passou-me pela cabeça a ideia de que talvez fosse imortal. Nada me garantia que viesse a morrer. Daqui a um mês faço 38 anos. A esse respeito, em concreto, não tenho mais garantias do que tinha.

Por três vezes, carregado com caixotes cheios de livros, passei ao lado do caniche.

Não tive coragem de tirá-lo do meio do passeio. Tentei não olhar para ele, mas nunca fui capaz. Acabei sempre por vê-lo na fronteira do meu campo de visão, o seu vulto. Em cada uma dessas vezes, imagineime no lugar dele.