Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Hiperinflação e Hitler. Os alemães não compreendem a sua própria História

Inconsistência Problemática

E se o medo dos alemães acerca da subida dos preços não fizer sentido nenhum? Um novo estudo questiona o entendimento que os germânicos têm da sua própria História económica e conclui que Hitler chegou ao poder após um episódio de… deflação

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Qualquer jornalista de economia ouviu a mesma história vezes sem conta: a Alemanha teme subidas dos preços devido ao seu trauma com a hiperinflação a seguir à I Guerra Mundial, que acabaria por criar o ambiente perfeito para a ascensão de Adolf Hitler ao poder. É um argumento utilizado frequentemente para justificar a aversão de Berlim a descidas agressivas de juros, às políticas não convencionais do BCE ou até a sua prudência face a estímulos à economia. Como acaba por acontecer com muitas histórias, a sua repetição incessante mascara fragilidades factuais.

Um novo estudo do Instituto Jacques Delors conclui que a República de Weimar não nos ensina nenhuma lição sobre prudência dos bancos centrais e muito menos existe uma ligação direta entre o episódio de hiperinflação alemã e o hastear da bandeira nazi.

“Na realidade, na história económica da República de Weimar dificilmente se encontram argumentos para cautela na política monetária. Os nazis chegaram ao poder mais de dez anos após o período de hiperinflação ter terminado”, pode ler-se no estudo. A pobreza profunda em que o País caiu teve mais a ver com a recessão e explosão do desemprego que acompanhou a Grande Depressão do início dos anos 30. Na verdade, “Hitler chegou ao poder após um período de deflação.”

“Mind = blown”, como dizem os miúdos. Isto é o equivalente económico a dizer que, afinal, comer canja não faz bem às gripes ou que o Cristiano Ronaldo não é português. O gráfico é elucidativo.

Por trás destes problemas de memória está alguma confusão em relação às crises alemãs. O estudo conclui que a maioria não sabe que, entre a I e a II Guerra Mundial, o País enfrentou duas crises separadas: um período em que a inflação atingiu os três dígitos no início dos anos 20; e uma recessão profunda, no seguimento da Grande Depressão, nos anos 30. Para muitos, foi tudo a mesma coisa. “Menos de 1 em cada 25 alemães sabem que a Grande Depressão foi um período de deflação, enquanto mais de 40% pensa que foi uma mistura de inflação e desemprego. Ao analisar uma versão inquinada da sua própria História, muitos alemães concluem que desemprego e inflação elevada são dois lados da mesma moeda.”

Esta interpretação significa que têm dificuldade em acreditar que é possível combater o desemprego sem provocar uma explosão dos preços. O que afeta as suas opiniões acerca do que é uma “boa” política monetária. No atual contexto, isso traduz-se em olharem com bastante desconfiança para as medidas do Banco Central Europeu (BCE) - desde as compras de dívida à política de juros muito baixos -, assim como para qualquer estímulo que combata o marasmo económico.

Este problema é agravado pelo facto de esta não ser uma narrativa repetida por pessoas pouco informadas. As elites políticas e económicas da Alemanha parecem estar entre os mais vulneráveis. O inquérito mostra que os mais qualificados e que mais sabem acerca de inflação são normalmente quem associa a hiperinflação à Grande Depressão. Ou seja, é precisamente quem está mais atento ao debate público tende a estar mais errado. E isso é especialmente verdade entre eleitores mais à direita.

Não é de admirar, quando os próprios governantes repetem essas ideias. Em 2011, o ministro da Economia alemão, Rainer Brüderle falava de uma “lição da História”: “quando o dinheiro se torna “mau”, tudo piora. Sentimos isso na História alemã: da hiperinflação à pobreza em massa, até depois à guerra e às aberrações fatais da Alemanha.”

Mais: mesmo depois de serem informados de que essa sua leitura da História está errada, isso não parece fazer grande diferença na sua visão da política monetária.

Estas conclusões mostram quão difícil será o trabalho de Christine Lagarde à frente do BCE, com Berlim cada vez mais resistente ao atual rumo da política monetária. Quando até as elites se revelam vulneráveis a narrativas falsas, como pode o BCE convencer o público alemão de que está a fazer o mais correto? Em vez de uma banqueira central, talvez seja preciso uma professora de História.