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Qual é a maior estrela do cinema dos últimos 30 anos?

Inconsistência Problemática

Tarantino conseguiu juntar dois dos mais bem-sucedidos atores das últimas décadas no mesmo filme. A concentração de estrelas é o pretexto perfeito para lançar a discussão: que ator que tem dominado o cinema desde a década de 80? Fomos compará-los

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

“Era uma vez… em Hollywood” vai acabar como segundo ou terceiro filme de Quentin Tarantino que mais dinheiro fez nas bilheteiras de todo o mundo. Com a promessa de fazer apenas dez filmes, todos os projetos do realizador são um evento. Neste caso, ter duas megaestrelas como Leonardo DiCaprio e Brad Pitt dá uma ajuda ao sucesso comercial do filme. Mas qual deles é o verdadeiro motor de “Era uma vez… em Hollywood”?

Se tem um grupo de amigos que gostam de cinema, talvez já tenha tido uma variação desta discussão. Às vezes surge um argumento desarmante: “Na realidade, o Brad Pitt é o ator mais importante dos últimos 30 anos.” Uma frase destas não é dita sem que a seguir alguém responda “obviamente, que é o Tom Cruise”, “então e o Tom Hanks?” ou “vocês sabem que a resposta é DiCaprio, certo?”.

Aquilo que começou com uma conversa de amigos, acabou no desejo de responder à pergunta: entre Tom Cruise, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Tom Hanks, qual é a maior estrela do cinema das últimas três décadas? Para isso, decidimos pegar no maior número de métricas de desempenho quantificáveis: sucesso comercial, apreciação dos críticos e do público e reconhecimento dos pares e da indústria.

No Twitter, algumas pessoas já manifestaram a sua preferência.

A primeira coisa a esclarecer é: não se agarrem a 30 anos certinhos. O objetivo é olhar para a carreira dos quatro. Aquele que tem a carreira mais longa, Cruise, começou a vida de Hollywood há 37 anos, o que compara com os 26 anos de DiCaprio. Todos eles tiveram picos de carreira nos anos 90 e continuam ativos.

A segunda coisa a esclarecer é: não se pretende dizer qual é o melhor ator. Para isso, vão ler o Ípsilon. Além de ser uma tarefa para os críticos e impossível de quantificar, é provável que o melhor ator dos últimos anos nem sequer tenha entrado num filme de Hollywood. Neste caso, procura-se a maior estrela. Continuará a ser espinhoso, mas temos mais a que nos agarrar.

A última coisa a esclarecer é: não vão ter uma resposta no final deste texto. Se vocês acham que o Tom Hanks é o tipo mais carismático desde o Steve McQueen, não é meia dúzia de números que vos farão mudar de ideias. Nem contem comigo para abalar a crença em que o “Entrevista com o Vampiro” foi uma grande escolha de carreira para Cruise e Pitt.

Os dados que vão ser usados são: receita internacional de bilheteira (e referência a receitas domésticas ajustadas à inflação) do Box Office Mojo; classificação dos críticos e do público no Rotten Tomatoes (site agregador de críticas); e o reconhecimento dos pares e da indústria, via nomeações e vitórias nos Óscares. Vamos a isso.

TOM HANKS

Não passou assim tanto tempo desde que Tom Hanks era visto como um protótipo da estrela de cinema masculina. Capaz tanto de uma comédia romântica sobre troca emails como de salvar o Matt Damon da II Guerra Mundial. Os filmes faziam muito dinheiro e o desempenho de Hanks era elogiado.

Talvez a primeira vez que tenha ouvido falar dele foi em “Big” (1988), mas a carreira de Hanks explodiu com “Filadélfia” (1993). Os anos seguintes são avassaladores: “Forrest Gump”, “Apollo 13”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “À Espera de Um Milagre”, “O Náufrago” e “Apanha-me Se Puderes”. Pelo caminho, 4 nomeações para óscar e 2 vitórias.

A viragem do século marcou o início do declínio da carreira, com algumas exceções alimentadas a Dan Brown (e, mesmo aí, a perder fôlego). O seu filme que mais dinheiro fez em todo o mundo foi “O Código Da Vinci”, com quase 760 milhões de euros. Contudo, se usarmos apenas os dados do mercado americano – que permitem ajustar os valores à evolução dos preços – Forrest Gump surge como o maior sucesso comercial de Hanks, a alguma distância dos restantes. É provavelmente o filme pelo qual é mais conhecido.

A evolução da apreciação dos críticos também reflete a perda de relevância de Hanks nos últimos anos. Entre 2002 e 2013, os seus projetos são recebidos com indiferença, até a um minirregresso com “Capitão Phillips” e “Milagre no Rio Hudson”. No entanto, os recentes “Inferno” e “O Círculo” são os filmes com pior avaliação crítica de toda a sua carreira.

TOM CRUISE

Tom Cruise começa a carreira em Hollywood ligeiramente antes do outro Tom e, embora não tenha os picos de bilheteira de Hanks, beneficia de maior estabilidade. Ao longo das décadas, foi mais provável um filme de Cruise ser um sucesso do que um de Hanks.

É verdade que não tem um “Forrest Gump” no currículo, mas conta seis “Missão Impossível” que nunca fizeram menos de 450 milhões de dólares por todo o mundo. Esses foram os seus maiores sucessos globais, mas quando olhamos apenas para os EUA (e usamos dados ajustado à inflação), o lugar de topo é obviamente ocupado por “Top Gun” e as cenas de volley na praia. À medida que Hanks foi perdendo a aura de “megaestrela”, Cruise manteve-se relevante, com os já referidos MI, mas também “A Guerra dos Mundos”, “Jack Reacher” e “No Limite do Amanhã”.

As diferenças face a Tom Hanks mantêm-se aos olhos da crítica. Embora não tenha gozado um período de 10 anos tão forte como Hanks a partir do início dos 90, a carreira de Cruise envelheceu melhor. Ainda assim, quando se fazem as contas no final, têm um número semelhante de filmes rejeitados pela crítica. Dos 38 filmes de Cruise aqui incluídos, 13 têm menos de 60% no Rotten Tomatoes, o que os faz merecer a distinção “podre”. Hanks tem um registo de 11 em 35.

Onde eles claramente se distinguem é na avaliação que a Academia foi fazendo do seu desempenho. Tom Cruise nunca venceu um Óscar e tem apenas três nomeações, com “Nascido a 4 de Julho” e “Jerry Maguire” para ator principal e “Magnolia” para ator secundário.

BRAD PITT

Se há argumentos para Pitt estar nesta discussão não é de certeza pelo dinheiro que os seus filmes fizeram. É um bocado deprimente que o seu filme que mais faturou o tenha no écrã durante literalmente 2 segundos (é o “Deadpool 2, que não incluímos na análise). De resto, nenhum filme seu fez mais de 550 milhões de dólares em todo o mundo. O que ficou mais perto foi “WWZ: Guerra Mundial”, de 2013. Nos EUA, os valores ajustados mostram que o maior êxito foi “Ocean’s Eleven”, que seria apenas o 9º maior sucesso de Tom Cruise.

Aquilo que Pitt sabe fazer melhor do que os outros dois é escolher filmes que serão bem-recebidos. E mesmo filmes que não foram propriamente amados pelos críticos, como “Seven”, “Clube de Combate” ou “Snatch”, cavaram um estatuto central na cultura popular. Pitt não fez muitos filmes considerados “maus” pelos críticos. Tem 9 “podres”, mas o seu pior nunca é tão mau como os de Cruise e Hanks.

Tal como Cruise, tem três nomeações para óscar. Uma como ator secundário (“12 Macacos”), duas como ator principal (“O Estranho Caso de Benjamin Button” e Moneyball). Tal como Cruise, nunca ganhou.

LEONARDO DICAPRIO

Tem o percurso mais curto dos quatro, mas só começou dois anos mais tarde do que Pitt. A diferença é que a carreira de DiCaprio explode muito rapidamente quando é convidado a fazer parte de um colosso: “Titanic”. É só o 5º filme que mais dinheiro fez na História do cinema americano e o terceiro que mais ganhou por todo o mundo (este segundo dado não está ajustado à inflação).

Nenhum outro filme destes 4 atores vai sequer aproximar-se dos valores alcançados nas bilheteiras por “Titanic”. Aliás, a diferença é tão grande, mesmo em relação a outros projetos de DiCaprio, que o gráfico em baixo parece sugerir que o resto da carreia não correu bem. Na realidade, o seu segundo filme mais bem-sucedido – “A Origem” – seria o nº1 na lista dos outros três atores. A estreia desse filme, em 2010, acabou também por ressuscitar o seu estatuto de megaestrela.

Ao longo dos anos, conseguiu sacudir a imagem de “mais cara bonita do que ator”. Uma transformação que provavelmente não teria acontecido sem o empurrão de Martin Scorsese. 5 dos 11 filmes em que DiCaprio entrou entre 2002 e 2013 foram realizados pelo homem que nos deu "Taxi Driver".

Os seus filmes são normalmente bem-recebidos. Na ótica dos críticos, teve vários tropeções, como “O Homem da Máscara de Ferro” ou “J. Edgar”, mas só um “desastre”, chamado “A Praia”. Por outro lado, não entrou em muitos filmes que com classificações superiores a 90%.

No ano em que entra no círculo de Hollywood, DiCaprio é logo nomeado para melhor ator secundário por “Gilbert Grape”. Desde aí colecionou 4 nomeações para ator principal e venceu, finalmente, em 2016, com “The Revenant”.

Todos juntos

Olhar individualmente para cada um deles pode não ser o mais fácil para os comparar. A começar pelas diferentes escalas utilizadas em cada gráfico de receita. Colocá-los todos juntos e usar a mesma escala permite ver melhor as diferenças nas receitas dos filmes. No gráfico em baixo fica mais clara a modéstia comercial da carreira de Brad Pitt e quão atípico é um filme como "Titanic" nestas contas das bilheteiras.

Do lado da avaliação dos críticos e do público, vê-los todos juntos também deixa mais evidente a regularidade de DiCaprio, a irrelevância de Hanks no pós-“Apanha-me Se Puderes” e a montanha russa que tem sido a carreira de Cruise em comparação com os outros.

Provavelmente, alguns dos que estão a ler este texto notarão que poderíamos/deveríamos ter considerado outros nomes. Isso levou-me a fazer algumas experiências com outros três atores com percursos muito diferentes: Will Smith (uma estrela com carreira fora do cinema); Robert Downey Jr. (campeão de bilheteiras); e Denzel Washington (adorado pela crítica).

Este gráfico é um pouco deprimente para o Denzel Washington, mas o que ele mostra essencialmente é a capacidade inédita dos filmes da Marvel para fazerem dinheiro. Aquelas barras altas do Downey Jr. têm um nome: Homem de Ferro. O último capítulo dessa série de filmes – “Vingadores: Endgame” – fez quase 2,8 mil milhões de dólares por todo o mundo, ultrapassando “Avatar” como o filme mais rentável de sempre.

Infelizmente, este tipo de análise não permite incorporar a totalidade do estrelato de Will Smith, que antes dos filmes já tinha uma carreira de sucesso na televisão (“O Príncipe de Bel-Air”) e desenvolveu até uma carreia musical curta, mas com algum sucesso. No final dos anos 90, era uma estrela omnipresente.

Aa olharmos a apreciação da crítica, é possível ver como os críticos nunca gostaram muito dos filmes do Will Smith e como a carreira do Downey Jr. virou a partir do momento em que entrou nos filmes da Marvel.

Contabilidade final

Adicionando estes três underdogs às contas, é altura de fazer a contabilidade final e ver qual dos 7 tem melhores métricas para reclamar o cinto de ator mais importante dos últimos 30 anos.

Talvez seja surpreendente para os mais distraídos, mas de todos estes atores, Downey Jr. é aquele cujos filmes mais dinheiro arrecadaram. Ainda que seja difícil saber quanto mérito devemos atribuir-lhe a ele e à máquina de produção e marketing da Marvel, ninguém surfou melhor a onda dos super-heróis. Com a carreira mais curta dos analisados, DiCaprio não tem valores acumulados elevados, mas tem a segunda média mais elevada. Confirma-se também a dimensão mais de nicho de Washington e Pitt.

Por outro lado, quanto se fazem médias de apreciação dos críticos e do público, percebe-se facilmente a vantagem de DiCaprio neste departamento, bem como as dificuldades de Will Smith.

Por último, na contagem dos óscares, só três deles têm vitórias no currículo: Washington, Hanks e DiCaprio. O primeiro é o ator com mais nomeações deste grupo (8), embora DiCaprio se esteja a aproximar.

Tudo somado, DiCaprio parece ter o perfil mais equilibrado dos 7: filmes bem-sucedidos, que agradam ao público e à crítica e já com reconhecimento da Academia. Obviamente, tudo isto são contas de guardanapo. Se a sua escolha for diferente, não significa que esteja menos correta (a não ser que a escolha seja Will Smith, nesse caso está errada).

Outras análises mais sofisticadas permitem pintar uma imagem mais complexa, que vai para lá do papel de ator. O site The Numbers publica um índice chamado Bankability Index, que tenta traduzir quanto é que a participação de um ator, realizador ou produtor vale para um filme. Ou seja, além do desempenho no ecrã, conta com a capacidade para levantar um projeto do chão. Por exemplo, Tom Cruise está a frente dos filmes Missão Impossível e é a força motriz por trás dos rios de dinheiro que o franchise continua a fazer, enquanto Brad Pitt se tem envolvido como produtor em filmes mais pequenos (“The Departed”, “The Big Short”…).

As boas notícias para esta análise é que os nossos suspeitos estão no top50 do Bankability Index, de julho deste ano. O problema é que talvez nos obrigue a repensar algumas das conclusões anteriores. Em número 1, surge Tom Cruise, com um valor estimado de 22,5 milhões por filme, seguido por Will Smith com 21,2 milhões. Em terceiro lugar, mas já longe desses dois, aparece Downey Jr, com 16,6 milhões. O resto das nossas estrelas estão fora do top 5. Denzel Washington é o sexto (14,2 milhões), Hanks é o 15º (10,9 milhões), DiCaprio o 16º (10,9 milhões) e Pitt o 36º (8,1 milhões).

Mais uma prova de que a resposta é sempre a parte menos divertida destes debates.