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Apagar a luz e fechar a torneira não chega para salvar o planeta

Inconsistência Problemática

Os estudos demonstram que os pequenos gestos, apesar de importantes, podem diminuir a vontade de apoiar medidas estruturais no combate às alterações climáticas - e que exigem mais sacrifícios, como novos impostos. Ou seja, "já fiz a minha parte, logo..."

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

“Separe o lixo, “apague a luz”, “não deixe a água a correr”, “não peça saco de plástico no supermercado”. Tornou-se habitual entre políticos e ambientalistas pedir às pessoas que mudem parte do seu comportamento diário, procurando diminuir a sua pegada ecológica. Se todos fizermos a “nossa parte”, estes pequenos gestos podem fazer alguma diferença. Mas trazem também consequências negativas quando queremos avançar com medidas mais estruturais. Quem acha que faz “a sua parte” no dia a dia tende a ter menos vontade de apoiar, por exemplo, mudanças no sistema fiscal.

Um estudo publicado há poucos dias na revista Nature traz novidades acerca da nossa motivação para apoiar medidas nesta área. David Hagmann, Emily Ho e George Loewenstein concluem que pequenos empurrões (“nudges”) – neste caso, a adesão automática dos consumidores a fornecedores de energia que usem fontes renováveis - diminuem a vontade de apoiar um imposto sobre as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, apesar de essa ser tida como a forma mais eficaz de as travar.

“Um imposto de carbono é aceite como a medida mais eficaz para reduzir as emissões de dióxido de carbono, mas é controverso porque impõe custos aos consumidores. Uma abordagem alternativa, o “nudge”, promete pequenos benefícios, mas com custos muito mais baixos”, escrevem os autores. “Contudo, “nudges” com o objetivo de reduzir as emissões de carbono podem ter efeitos indiretos nocivos se prometerem uma “solução rápida” e comprometerem o apoio a políticas de maior impacto.”

Parece ser exatamente isso que os pequenos gestos fazem. As seis experiências realizados no estudo – incluindo uma com ex-alunos de uma faculdade com curso de políticas públicas – mostram que a influência desses empurrões dá a entender que os problemas podem ser resolvidos sem implicarem sacrifícios, o que retira alguma urgência a outras soluções.

Numa troca de emails com a VISÃO, um dos autores, David Hagmann, nota que, “ao fazer parecer que um imposto sobre o carbono é mais doloroso (ao sublinhar que ele aumentará o preço de coisas como o aquecimento), isso diminui o apoio a esse imposto”. As pessoas podem “exagerar a eficácia da alternativa indolor, para assim poderem justificar não apoiarem a medida que tem custos maiores”.

Este é apenas o estudo mais recente sobre o tema. Mas observa-se uma lógica semelhante noutro tipo de atitudes, como aquelas de que se fala no início do texto. Um outro paper, publicado pela mesma revista em 2015, conclui que pequenos gestos diários diminuem o apoio a medidas governamentais na área do ambiente.

“O comportamento doméstico pode diminuir o apoio público à ação do governo, ao criar a perceção de progresso satisfatório”, explica o autor Seth Werfel, que utiliza respostas a inquéritos dadas por 14 mil japoneses, a quem foi pedido que explicassem o que fizeram para poupar energia depois do desastre de Fukushima. Um efeito aparentemente provocado por uma perceção mais forte acerca da importância das ações individuais e uma diminuição da importância atribuída à sustentabilidade ambiental e energética.

As famílias tendem a ver a atuação individual e as medidas do governo como substitutos parciais e não como complementos. Mais: as pessoas que ficam mais desencorajadas são aquelas que tomaram mais medidas de poupança energética. Ou seja, aquelas que provavelmente estariam mais dispostas a apoiar uma medida fiscal desse género.

Menos 7% é suficiente?

Estas conclusões não significam que esses pequenos gestos não tenham utilidade. Um estudo mais antigo, publicado em 2009, que procurava estimar o impacto de alterações de comportamento pelas famílias americanas, mostrava que há ganhos a obter, mesmo sem penalizar o bem-estar da população. Entre as mudanças estudadas estava a utilização de equipamento mais eficiente de aquecimento/arrefecimento, redução de temperatura de lavagem da roupa, tirar eletrodomésticos do stand-by e partilha de carro. Uma implementação nacional de várias medidas desse género poderia, ao fim de dez anos, reduzir em 20% as emissões domésticas da responsabilidade das famílias e em 7,4% as emissões totais dos EUA.

Quando aos empurrões, eles também mantêm a sua utilidade. Uma das experiências feitas por Hagmann concluía que, “quando as pessoas são informadas do (pequeno) impacto que o nudge de energia verde teria sozinho, isso impede uma diminuição do apoio ao imposto [sobre o carbono]”, explica à VISÃO. “Além disso, as pessoas continuavam a apoiar o nudge: pequenos ganhos sem um custo económico eram vistos como desejáveis.”

Ainda assim, vale a pena levar com o choque de realidade. Como vimos, mesmo que as famílias mudem de vida, alterações de gestos diários demoram dez anos a reduzir menos de 10% das emissões totais de um país. É muito tempo para uma redução pouco drástica, e já não vai a tempo de evitar um desastre ambiental. Colocar as nossas esperanças todas em “gastar menos água no duche” ou em “deixar de usar palhinhas” vai deixar-nos desiludidos com o resultado final.

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