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Porque está a Guerra dos Tronos tão apressada?

Inconsistência Problemática

Há cada vez mais fãs insatisfeitos com o ritmo supersónico do enredo da Guerra dos Tronos. Porquê fazer uma última temporada com apenas seis episódios? A resposta pode ser dada com um número e um império de media: 15 milhões e Disney

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Se pertence ao exército de desiludidos com a Guerra dos Tronos, fique descansado porque não é o único. A oitava e última temporada da série está a ser a mais desapontante para críticos e fãs. Segundo o Rotten Tomatoes, em todas as temporadas mais de 87% dos utilizadores do site atribuiu à série uma pontuação superior a 3,5 (de 0 a 5). Esta última? Apenas 42%. Se gosta dessas coisas, há uma petição assinada por 700 mil pessoas a exigir um remake. Para os críticos, 3 dos piores 4 episódios pertencem também a esta temporada. O final de uma série é sempre um momento desafiante para o público que imaginou desenlaces diferentes. Os motivos de reprovação são variados, mas existe uma queixa central: a forma apressada como a história está a avançar, provocando reviravoltas repentinas e mudanças drásticas em personagens que podem mudar de identidade no espaço de um ou dois episódios.

Não é um daqueles casos em que os fãs estão a imaginar coisas. Os produtores de Tronos, David Benioff e Dan Weiss, têm mesmo pressa em terminar a série. Parecem é ser os únicos. O público queria mais, jornais e revistas adoram ter conteúdo sobre o qual escrever, a crítica estava rendida e a HBO adoraria continuar a ganhar dinheiro com ela. Até George R.R. Martin, o autor dos livros na qual a série se baseia e um dos vencedores financeiros deste sucesso, pediu mais.

“Podíamos ter continuado durante 11, 12, 13 temporadas. Mas eu acho que [os produtores] queriam ter uma vida”, disse Martin, em entrevista à Variety. “Houve uma altura em que eles falaram de sete temporadas e eu dizia 10. Eles ganharam.”

Ele não está sozinho. Há alguns dias começaram a circular compilações de entrevistas de atores de Tronos, onde parecem desconfortáveis com a direção da série e, nalguns casos, abertamente críticos. “Estávamos habituados a ter uma temporada inteira para chegar a determinado ponto”, afirmou Nikolaj Costar-Waldau (Jaime Lannister), numa entrevista à Vanity Fair. “Agora, de repente, várias coisas acontecem muito rápido.”

Benioff e Weiss começaram a trabalhar em Tronos em 2007 (a série estreou em 2011). Depois de 12 anos dedicados a Westeros, é natural que queiram seguir com a sua carreira. Não era fácil encontrar um projeto que lhes garantisse o mesmo dinheiro ou mediatismo, mas eles conseguiram. Há poucos dias, a Disney anunciou que a dupla de produtores ficará responsável pela próxima trilogia de Star Wars, que deverá arrancar em 2022 e será a primeira tentativa de levar a história para uma era pós-Skywalker.

Dos white walkers para os stormtroopers. Se há história com um público exigente é Star Wars, o que pode explicar o desejo de deixar de pensar em dragões e castrações para se poderem dedicar em exclusivo à produção dos três filmes. Embora não seja claro há quanto tempo duram as negociações com a Disney, já sabemos há mais de um ano que eles ficariam responsáveis por uma nova série de filmes da saga (e, se não fosse Star Wars, talvez fosse "Confederate", uma série que estavam a desenvolver para a HBO). Aliás, esta oitava temporada já terá sido uma cedência de Benioff e Weiss à HBO, que lhes ofereceu mais dinheiro. Eles aceitaram com a condição de que o total de episódios das duas últimas temporadas não ultrapassasse os 13.

“A HBO teria ficado contente se a série continuasse e se tivesse mais episódios na última temporada”, explicou Benioff à Entertainment Weekly. “Sempre achámos que [a série] teria 73 horas e será mais ou menos isso que terá.”

O resultado é um ritmo muito mais rápido. Viagens que podiam demorar temporadas inteiras são agora feitas em meio episódio, abandonam-se fios narrativos e personagens e transformam-se outras em versões muito diferentes daquilo que conhecíamos até agora (cof cof Daenerys). Em sua defesa, Benioff e Weiss provavelmente também não imaginaram que Martin não conseguiria acabar os livros a tempo e cairia em cima dos seus ombros desenhar um final para esta história.

Investimento e salários

Mesmo que os produtores tivessem decidido estender a série por mais uma ou duas temporadas, é possível que surgissem outros problemas de natureza económica. Por um lado, o custo dos episódios só deveria continuar a aumentar naquela que já é a série mais cara de sempre. Durante as primeiras temporadas, cada episódio tinha um custo de 6 milhões de dólares, que atingiu os 8 milhões com a gravação do episódio “Blackwater” (2ª temporada), que envolveu uma batalha naval. Esse orçamento cresceu para 10 milhões a partir da sexta temporada e chegou aos 15 milhões na oitava e última, com os episódios a serem cada vez maiores e mais ambiciosos na utilização de efeitos especiais (leia-se, mais dragões a queimar pessoas e destruir casas). A batalha de Winterfell, no terceiro episódio, exigiu 11 semanas e 55 noites de filmagens, com uma equipa de 750 pessoas.

E há ainda que fazer as contas aos atores. Aqueles que desempenham os papéis mais centrais levam hoje para casa 537 mil dólares por episódio: Kit Harington (Jon Snow), Emilia Clarke (Daenerys), Peter Dinklage (Tyrion), Nikolaj Coster-Waldau (Jaime) e Lena Headey (Cersei). Outros, como Maisie Williams (Arya) e Sophie Turner (Sansa), recebem 158 mil.

Esses custos também aumentariam, assim como o risco de um deles ou vários quererem abandonar a série e seguir com a sua carreira. Emilia Clarke entrou no filme “Solo”, Kit Harington já fez “Pompeii”, Sophie Turner é a personagem central do novo X-Men, Dinklage participou num Avengers e noutro X-Men. Mas é complicado arrancar com projetos ambiciosos ou que durem vários anos, quando se pode ser chamado a qualquer altura para uma nova filmagem. [SPOILER] Conleth Hill (Varys) teve de gravar várias vezes ao longo de sete meses a cena da sua morte. [/SPOILER]

“Fico feliz por termos conseguido manter o toda a gente do elenco. É difícil para qualquer série manter um elenco junto, mas especialmente para nós que temos tantos actores. Teria sido muito complicado se tivéssemos perdido algum membro central pelo caminho”, disse Benioff.

Quem provavelmente não ficou nada contente com o fim da série foi a economia da Irlanda do Norte. A produção de Tronos já gastou 275 milhões de dólares na região, criando 900 empregos permanentes e 5.700 em part-time. O 'boom' turístico que provocou traz 60 milhões todos os anos. Um efeito semelhante aquele a que se tem assistido em Dubrovnik, na Croácia, onde Tronos também filmou e fez disparar ainda mais o turismo, numa cidade onde ele já crescia (anteriormente, aconteceu o mesmo com a Nova Zelândia e O Senhor dos Anéis).

Talvez não fosse possível estender por muito mais tempo a Guerra dos Tronos. E nunca seria fácil fazê-lo com elegância sem ter o caminho desenhado por George R.R. Martin. A série já está há algum tempo "à frente" dos livros e isso coincidiu com uma maior fragilidade (não há garantia de que Martin algum dia publique os últimos dois volumes).

A HBO já tratou de garantir que o apetite por esta mundo não desaparece, anunciando uma prequela que começa a ser filmada este ano, com outras a serem preparadas para o futuro. Mas muitos fãs sentirão que um final apressado trai o investimento emocional (e de tempo) que fizeram na série. Ao optar por avançar tão rápido para a próxima aventura, Benioff e Weiss arriscam que A Guerra dos Tronos seja lembrada mais como um "Lost" do que um "Breaking Bad".