Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

“Primavera em flor ao sol de inverno”

Exame

Egídio Santos

A Primavera BSS junta a frescura da inovação a vários anos de experiência e continua a liderar o mercado ao fim de 25 anos de atividade. Este texto foi originalmente publicado na edição de setembro de 2019 da revista EXAME

Quando entramos num restaurante e um funcionário nos indica uma mesa, sabemos que dali a pouco vamos ouvir algo como “dei-lhes a mesa 2”. A partir daí, os pedidos são feitos para aquela mesa, lançados num software e, no final, a fatura deverá vir conforme o consumo, com os devidos impostos e taxas aplicados.

No mesmo sentido, as empresas pagam aos seus fornecedores e funcionários através de um software de faturação, tal como os responsáveis de logística conseguem gerir os seus inventários com a ajuda destas ferramentas tecnológicas. O software de gestão está presente em praticamente todos os serviços que usa, mesmo que não dê por ele, e em Portugal o principal player da área é a Primavera BSS. A empresa foi criada em 1993 por José Dionísio e por Jorge Batista, dois amigos tão diferentes que, pela sua complementaridade, se transformaram numa dupla vencedora.

“A Primavera vai continuar a ser líder no mercado nos próximos anos. O que estamos a fazer agora é para garantir o futuro da empresa”, diria José Dionísio já no final da conversa com a EXAME num soalheiro dia de julho. Encontrámo-nos em Paço de Arcos, aproveitando que ambos os responsáveis deixaram a sede, em Braga, para receberem o novo diretor-executivo da delegação em Lisboa. Bruno Agostinho, antigo quadro da Microsoft, foi contratado no início do verão para dar um impulso à presença da Primavera na capital, com uma equipa que deverá contar com 40 pessoas até ao final de 2020. “Esta grande aposta na região de Lisboa acontece porque o mercado vale tanto aqui quanto o do resto do País” – que é como quem diz, cerca de 40%.

Com uma faturação superior a 24 milhões de euros, a Primavera fechou o ano de 2018 com uma estrutura robusta e um músculo financeiro para continuar a ser líder de um mercado em que a sua chegada em primeiro lugar ainda lhe garante uma posição privilegiada. Investiu um milhão de euros num centro de investigação em Leiria, 2,5 milhões de euros na conversão de toda a sua tecnologia em soluções de última geração, abriu portas em Lisboa e espera continuar a crescer, sobretudo nos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que representam um terço da sua faturação.

Quando questionamos Jorge e José sobre os maiores desafios por que passaram durante os 26 anos de atividade, ambos recordam, sem surpresa, as consequências da crise financeira que levou Portugal a um pedido de resgate, em 2011, mas também a recente migração dos negócios para a cloud. “A chegada da cloud foi um momento crítico, por exemplo. Foi muito mais difícil do que a mudança de DOS para Windows”, nota José, salientando o facto de a capacidade de investimento lhes ter facilitado bastante o processo. “Não sei o que vai acontecer às empresas que têm menos de dois milhões de euros”, atira o executivo em jeito de desabafo. Recorde-se que, em 2017, a Primavera lançou no mercado uma nova marca de software de gestão e de faturação online, a Jasmin, direcionada sobretudo para empreendedores, startups e PME, visando, desta forma, acomodar este novo paradigma.

Para pensar e desenvolver esta marca foram precisos cinco anos e, precisamente, dois milhões de euros. “Há quatro anos não tínhamos a certeza de que o novo software fosse bem aceite”, continua. “Mas a verdade é que vende muito bem, [os clientes] estão a adaptar-se com sucesso ao nosso design e estamos já a preparar o lançamento do Rose, um ERP [sistema integrado de gestão empresarial, na sigla em inglês], para um segmento mais premium”, esclarece. “E estamos já a pensar no próximo desafio”, garante Jorge. “Neste processo da cloud, em que a empresa é madura, contando com mais de 30 mil clientes e 500 parceiros, num ecossistema fortíssimo, precisamos de pensar em soluções que possamos adotar no futuro, de forma a continuar a produzir novidades”, sublinha.

“Está tudo por fazer. Parece que estamos novamente em 1994, porque agora toda a gente vai ter de mudar de software na cloud”, nota José, com um sorriso e o entusiasmo de quem ainda não resiste a um bom desafio.

A Primavera BSS é, no seu setor, a empresa portuguesa com maior quota de mercado, uma posição que tem conseguido manter graças ao seu esforço de atualização e também aos anos de atividade que acumula em território nacional. Tendo em conta as especificidades regionais e regulatórias a que as empresas estão obrigadas, um serviço de software de gestão experiente é, muitas vezes, uma mais-valia para quem está a contratar os seus serviços.

Uma alteração total de um prestador deste tipo de serviços é algo significativamente dispendioso e um processo complexo. Para um tecido empresarial como o português, em que as pequenas e médias empresas constituem a larga maioria, a fidelidade pode ser uma grande vantagem. Além disso, a Primavera BSS já faz parte de uma espécie de clube exclusivo do setor das TIC: pertence a 16% de organizações que faturam entre os 20 e os 50 milhões de euros por ano e a 9,1% das empresas que contam com mais de duas décadas de atividade.

Ora, de acordo com o barómetro da Informa D&B, apresentado em abril do ano passado, entre as companhias da área das Tecnologias da Informação e da Comunicação, a média de sobrevivência nacional ronda os 7,7 anos.

Olhos no futuro
Para contrariar estas estatísticas, José e Jorge tentam antecipar tendências, agilizar processos, garantir a conquista e a retenção de talentos. Nos últimos anos, a empresa esteve particularmente dedicada a tudo o que envolve Inteligência Artificial (IA), de forma a conseguir manter-se na vanguarda da inovação – porque “no fundo queremos ser um bocadinho o GPS das empresas, através da IA. Já fizemos tudo o que tínhamos a fazer até à data. Claro que nos falta a bola de cristal para saber quais os próximos passos”, brincam, mas garantem que estão atentos, eles e a equipa com a qual trabalham.

Na Primavera, asseguram, rodeiam-se dos melhores e têm atualmente uma equipa de cerca de 20 diretores que ajuda a empresa a caminhar com confiança e ritmo e que dá aos dois gestores a tranquilidade de que precisam para continuarem a pensar na estratégia de crescimento.

Acreditam que conseguiram desenvolver uma cultura atraente para quem quer aprender e fazer melhor, o que se reflete nos resultados. “As pessoas são bem acolhidas, sentem-se confortáveis; há respeito, há transparência, não se sai do código de conduta...”, salientam. Tal como várias companhias do setor, a Primavera acomoda já entre os seus recursos mais do que uma nacionalidade – com um destaque especial para o talento espanhol e brasileiro. Gostam de trabalhar de perto com as universidades, perceber o que está a ser ensinado e desenvolvido, pensar com os mais novos.

Solidez e experiência
A internacionalização continuará a ser parte fundamental na estratégia de crescimento da empresa bracarense, que também prepara uma mudança de instalações em Luanda, onde conta atualmente com uma equipa de mais de 20 pessoas. O mercado angolano cresceu 60% apenas durante o primeiro semestre de 2019, e ambos os gestores se mostram animados com o novo ciclo político e económico do País, que nos últimos anos se revelou um desafio, particularmente para as empresas estrangeiras. Aliás, Angola é um dos seus melhores mercados, logo seguido por Moçambique e pelos restantes PALOP, onde, ao longo dos últimos tempos, lhes tem valido a experiência e a capacidade para enfrentar um período menos positivo: quando o ciclo inverteu, em economias como a angolana e a moçambicana, eles continuavam a operar “em casa”.

Em Portugal, a Administração Pública é uma das grandes utilizadoras dos seus serviços e, enquanto o confessam, não deixam de lamentar que o País não esteja mais moderno em alguns setores, imputando ao legislador essa responsabilidade. “Há forças que gostam de adiar algumas coisas”, atiram em jeito de análise, mas sem explorarem mais o assunto.

A que não poupam críticas é ao facto de não se estar a apostar mais e melhor na requalificação da população desempregada no País, numa altura em que as empresas, tecnológicas e de outros setores, deverão continuar a precisar de reforçar a mão de obra qualificada. “Há menos gente desempregada mas é preciso que o Instituto de Emprego e Formação Profissional dê resposta e mostre que há gente que realmente precisa de ser requalificada”, atiram. Quanto à procura por talento, ambos acreditam que “se calhar a base de recrutamento”, mais do que as universidades, “tem de se centrar em pessoas que estão a trabalhar com contratos precários, insatisfeitas ou com salários baixos”.

Situações que, lamentam, ainda são uma realidade. Recorde-se que o salário médio nacional é atualmente de 911 euros, o valor mais elevado desde o primeiro trimestre de 2011 – não há dados anteriores a isso – mas que, segundo dados do INE, a maioria dos trabalhadores por conta de outrem recebe menos do que isso.

No mesmo sentido, os gestores defendem também um maior alargamento das áreas de conhecimentos, reconhecendo que, durante os últimos anos, tem havido uma tentativa de suprir as necessidades das empresas, mas sem se dar muita atenção ao facto de a formação dever ser algo mais abrangente. A discussão, aliás, não é nova e tem estado no centro de debates entre gestores, responsáveis de recursos humanos e academia: afinal, que talentos serão necessários para os empregos no futuro, que parecem já ser os de hoje.

Na Primavera BSS, a garantia é a de que continuarão a recrutar os melhores para se juntarem a uma equipa, que deverá continuar a crescer e que espera estar a faturar 35 milhões de euros em 2021, ano em que querem também chegar à marca dos 35 mil clientes, tal como está no mapa estratégico da organização.

Além disso, a única certeza que têm é a de que “a empresa está preparada para correr sozinha e a de que o seu futuro está garantido para os próximos 10 anos”. E, fazendo parte de uma minoria de empresas nacionais que ultrapassa a idade média de 13 anos, fazem também questão de explicar que a Primavera “não é uma empresa familiar”, ao contrário daquilo que é hábito encontrar no tecido empresarial português desta dimensão.

Para os dois sócios e amigos, a Primavera BSS é um projeto de que se orgulham mas, acima de tudo, é uma empresa que querem ver perdurar no tempo. “E vai continuar a ser líder no mercado nos próximos anos”, garantem.