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“Desafiar a elite de poder global deve estar no topo das agendas de todos os movimentos democráticos”

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DR/Empire Files

A versão portuguesa de “Gigantes: Os senhores do mundo” chegou recentemente às livrarias. O livro de Peter M. Phillips, professor universitário nos EUA, traça um intrincado mapa de alegadas influências e relações de poder entre colossos financeiros e instituições globais que constituem a “Poderosa Elite Global” e controlam “90% da riqueza mundial”

Peter Phillips, professor de Sociologia Política e de Sociologia das Conspirações na norte-americana Sonoma State University denuncia a existência de uma “rede não governamental de pessoas ricas” que têm a função de “gerir e proteger a riqueza global concentrada e garantir o seu crescimento continuado.”

O autor de “Gigantes: Os senhores do mundo”, livro editado em Portugal nas últimas semanas pela Saída de Emergência, defende à VISÃO - em respostas por e-mail - a necessidade de resistências organizadas e alianças com quem está no topo, para levar a cabo as mudanças institucionais não catastróficas que, advoga, podem “restabelecer a democracia” e travar a pobreza, a fome, a guerra e as alterações climáticas.

Termina o seu livro com uma carta à “elite poderosa global”, em que pede à 389 pessoas no centro político e financeiro que ajam para proteger o planeta e salvar o mundo da “desigualdade mortal.” O sistema capitalista deverá ser reformado ou não há remédio para ele?

As instituições de países capitalistas – incluindo ministérios, forças de defesa, agências de inteligência, poder judiciário, universidades e órgãos representativos – reconhecem, em graus diferentes, as principais exigências do capital transnacional. Trabalham para garantir vias livres de investimento financeiro em todo o mundo e procuram restringir quaisquer interferências de governos ou das populações nos fluxos de capital.

O perigo chega quando, posta em causa a legitimidade dos Estados-nação capitalistas pela desigualdade económica e o declínio ambiental, as elites aumentam o uso da opção policial para reprimir e controlar, amplificando dessa forma a resistência global e a agitação, conduzindo a guerras civis, greves, resistência não violenta e até sabotagem ou terrorismo.

Estados que se recusem a cooperar ou a controlar as suas populações são confrontados com tentativas de mudança de regime por forças da EUA/NATO e por agências de inteligência de países capitalistas.

Dito isto, há realmente poucas oportunidades para que ativismos de base levem a cabo mudanças não catastróficas sem uma parceria e a cooperação com alguns elementos da elite global. Daí a carta no final do livro.

É possível desmontar esta estrutura gigante sem criar ou piorar o caos e a crise humanitária que, segundo argumenta, é alimentada pelo capitalismo? Que novas instituições ou que edifício institucional propõe em substituição dos atuais?

O conceito de uma classe capitalista transnacional, teorizada na literatura académica há cerca de 20 anos, é central na ideia de uma elite poderosa globalizada. O livro Gigantes aborda a transição das elites do poder do Estado-nação, como descrito por [C. Wright] Mills, para uma elite de poder transnacional centralizada no controlo do capital global à volta do mundo. A elite de poder global funciona como uma rede não-governamental de pessoas ricas, com uma educação semelhante e cujo interesse comum é gerir e proteger a riqueza global concentrada e garantir o seu crescimento continuado.

As elites de poder global influenciam e usam as instituições internacionais controladas por autoridades governamentais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Organização Mundial do Comércio (OMC), o G-7, o G-20 e outros. Estas instituições governamentais recebem instruções e recomendações para ações políticas por parte de redes de organizações e associações não-governamentais de elites de poder global.

A mudança institucional não catastrófica terá de ser implementada por pressões de baixo e com cooperação vinda de cima. Deliberadamente não faço propostas específicas de mudança, pois acredito que é necessária a intervenção de um processo democrático de largo espetro para uma mudança radical (nas origens).


O livro refere que instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o Banco Internacional de Pagamentos (BIS são instrumentais para os capitalistas transnacionais. Contudo, não é adequado ter algumas instituições a garantir alguma coordenação entre os países para alcançar um crescimento global? Porque devemos presumir que eles estão a trabalhar em nome dos capitalistas transnacionais?

As elites de poder globais, que mandam nos gigantes corporativos mundiais, sobrepõem-se a organizações como o Grupo dos 30, a Comissão Trilateral e o Atlantic Council. Estas organizações não governamentais e financiadas por privados dão instruções diretas e recomendações de políticas a governos, instituições internacionais, o G-7 e os seus serviços de inteligência e outros países capitalistas de topo. O império militar EUA/OTAN opera em quase todos os países do mundo para proteger o capital global e os 1% mais ricos.

As elites do poder que apoiam o investimento financeiro estão coletivamente baseadas num sistema de crescimento obrigatório. A incapacidade do capital em atingir a expansão contínua conduz à estagnação económica, o que pode resultar em depressão e desemprego massivo. O capitalismo é um sistema económico que, inevitavelmente, se ajusta através de contrações, recessões e depressões. As elites de poder estão presas numa rede de crescimento forçado que requer uma gestão global contínua e a formação de novas e contínuas oportunidades de investimento financeiro. Isto obriga a que a expansão se torne num desígnio global que busca o domínio total do capital em todas as regiões da Terra e para além dela.

Em comparação com os EUA e a Europa, as referências à China são residuais no seu livro. Porquê? Fica fora dessa classe capitalista transnacional e de todo este esquema de controlo do mundo?

A China é um gigante económico poderoso por direito próprio. Com mais de 300 bilionários e biliões de dólares disponíveis em investimento financeiro, o seu esforço de investimento em infraestruturas globais e na [Nova] Rota da Seda rivaliza com o domínio económico global pelos Estados Unidos. A política norte-americana esforça-se por abrandar o crescimento da China limitando a sua integração total na estrutura de poder global, como demonstrado pelas atuais guerras comerciais, pela não inclusão da China no G-7 e muitas outras operações globais secretas destinadas a condicionar o seu crescimento.

Por outro lado, os gigantes globais estão abertos a investimento chinês, como demonstrado pela abertura de um centro de investimento da BlackRock em Pequim este ano.

O que é que o cidadão comum poderá fazer para evitar os efeitos desta concentração de poder de que fala? E como se pode conseguir uma distribuição equilibrada da riqueza?

O ativismo contra a concentração global de riqueza tem de ser permanente. Movimentos como os Coletes Amarelos, Occupy ou democráticos em geral precisam de ser apoiados, usando a Declaração Universal dos Direitos do Homem como fundamento moral. É amplamente necessário chegar às elites para travar investimentos em domínios prejudiciais e imorais. Um sucesso recente teve a ver com [o fim do financiamento de] prisões privadas por parte do JP Morgan Chase e outros. Um esforço possível para terminar a fome humana seria declarar que ninguém no mundo precise de morrer por essa razão e fazer com que a elite colaborasse com este esforço da sociedade civil para alimentar toda a gente com o terço dos alimentos do mundo que são atualmente destruídos num ano.

Para países como Portugal, que são fortemente dependentes de investidores estrangeiros, a pressão para cumprir com as exigências de entidades como a BlackRock, Pimco ou Goldman Sachs são quase insuportáveis?

A ideia de estados-nação independentes e soberanos tem-se mantido há muito tempo como sacrossanta nas tradicionais economias capitalistas liberais. No entanto, a globalização colocou uma nova série exigências ao capitalismo que requer mecanismos transnacionais para apoiar o crescimento contínuo, cada vez mais para lá das fronteiras dos estados individuais. A crise financeira de 2008 foi o reconhecimento de que o sistema financeiro global está ameaçado. Essas ameaças encorajam o abandono dos direitos do estado-nação e a formação de um imperialismo global que reflete as exigências da nova ordem mundial para proteger o capital transnacional.


Depois de ler o livro, fica-se com a ideia de que os bancos centrais e os governos são manipulados em benefício de uns poucos capitalistas transnacionais. Se assim é, vivemos numa democracia-fantoche? Como podemos restaurar alguma fé a credibilidade às instituições estatais?

O restabelecimento de uma verdadeira democracia vai exigir movimentos sociais que estejam cientes da concentração contínua de riqueza e da insustentabilidade de um sistema como este. Tendo em conta o controlo ideológico hegemónico dos meios de comunicação social pelas elites globais, os esforços para uma verdadeira democracia exigirão o apoio continuado de notícias e análises independentes que alcancem diariamente um grande universo de pessoas.


Há algum ponto de não retorno neste processo de globalização financeira a que se refere? E quão perto estamos desse ponto?

A concentração de riqueza protegida conduz a uma crise da Humanidade, em que a pobreza, a guerra, a fome, a indiferença massiva, a propaganda dos média e a devastação ambiental estão a atingir níveis que ameaçam o futuro da nossa espécie. Organizar a resistência e desafiar a elite de poder global deve estar no topo das agendas de todos os movimentos democráticos, agora e num futuro próximo.

Há ameaças regulares de guerras sérias. Mesmo uma troca limitada de poder nuclear colocaria em causa a existência humana. Pôr a guerra de lado é a nossa única opção para sobreviver no longo prazo. No ambiente, estamos na última década de um ponto de viragem em que se tornará impossível uma inversão e a espécie humana é confrontada com alterações climáticas tão severas que resultará na morte de milhares de milhões de pessoas.

Enfrentar os controlos económicos de cima para baixo, o poder monopolista e as especificidades das atividades das elites de poder global exigirá mobilização e movimentos sociais em todo o mundo.