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Susana Peralta: “O capitalismo irá resistir às alterações climáticas? Dificilmente”

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Marcos Borga

A economista e professora da Nova SBE esteve na conferência anual da Exame e desafiou a audiência a refletir sobre a capacidade do capitalismo para lidar com o combate às alterações climáticas e com as suas consequências.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Menos precipitação, menor fluxo de água nos rios, ameaças à biodiversidade, agricultura menos produtiva, mais incêndios catastróficos e maior incidência de algumas doenças. É assim que se espera que Portugal chegue a 2100, case se confirme o aumento de 4 graus da temperatura média do planeta.

Este cenário alarmante - e a nossa aparentemente incapacidade para o travar - é o que leva Susana Peralta a questionar se o actual sistema económico será capaz de operar a transição para uma sociedade sustentável.

“São necessárias alterações drásticas aos comportamentos de produção e de consumo, portanto é preciso uma visão de conjunto. Só há uma instituição que é capaz de pensar a 80 ou 150 anos: os governos têm de começar a ter um papel mais ativo na transição climática”, explicou a economista durante a sua intervenção na conferência que celebra os 30 anos da revista Exame, no Centro Cultural de Belém. “Isto requer um investimento massivo em infraestruturas e é bastante claro que o sector privado não o irá fazer.”

Embora admita que o capitalismo se pode adaptar, Susana Peralta duvida que ele o consiga fazer com a velocidade e profundidade que as alterações climáticas exigem. “Os mercados não se apercebem do problema, caso contrário não teríamos chegado a este ponto. Mesmo o Estado tem as suas limitações a olhar para o longo prazo”, acrescentou.

Isto significa que “é pouco provável que o capitalismo possa fazer a transição”. “Mas irá o capitalismo resistir? Dificilmente.” Porquê? “Haverá catástrofes naturais, movimentos migratórios potencialmente caóticos...”

Como as alterações climáticas afetam muito mais os países do Sul, muitos deles em vias de desenvolvimento, devemos esperar vagas de milhões de refugidos que migrarão do Sul para o Norte do planeta, muitos dos quais chegarão à Europa. “Se deixarmos isto ao setor privado, os ricos provavelmente viverão em mundos climatizados e os pobres enfrentarão a perda de casa e outra dificuldades.”, sublinhou Susana Peralta.

Se hoje já estamos a assistir a reações negativas dos eleitores dos países desenvolvidos a fenómenos migratórios e de globalização, o que acontecerá quando eles se tornarem ainda mais intensos e dramáticos?

“Se não conseguirmos trazer confiança às pessoas, quem se sentirá mais ameaçado serão aqueles que já sentem insegurança nas suas vidas”, afirmou. “O Brexit foi um voto anti-globalização. As pessoas têm usado o voto para a combater e irão usá-lo para dar cabo do sistema, a não ser que façamos alguma coisa para a ajudar.”