Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Sou teu amigo, sim

Exame

Luis Barra

Há quem lá vá para recordar a infância, recuperar aquela peça que se perdeu ou estragou, ou em busca da melhor oportunidade para valorizar e revender com lucro. O Salão do Brinquedo de Lisboa é um regresso ao passado com os olhos postos no mercado da saudade

Olha! O ferro de engomar com que se brincava na minha altura!” Aos 75 anos, os olhos de Elza Silva percorrem com avidez as dezenas de mesas preenchidas com peças multicoloridas. Em cima das bancas, abundam objetos de plástico, borracha e folha de Flandres, uns mais simples, outros escondendo mecanismos elaborados. “E os bonecos que vinham nos [gelados] Rajá! Lembras-te, Jorge? Tínhamos uma caixa cheia!” O filho, com 48 anos, vem atrás, mais reservado. Observa o Vai-Vem, a simples bola ovalada de plástico atravessada por fios de nylon e com quatro pegas que bastava para ocupar as tardes na praia nos anos 1970 e 1980. Ao lado está a terceira geração, a filha Filipa, 10 anos, que “ainda” gosta de brinquedos e coleciona as Sylvanian Families, miniaturas de coelhos, poodles ou gatos que vivem em casinhas e comem à mesa como os humanos.

Há quase uma década que entrar na sala do Hotel Roma, onde de dois em dois meses se juntam 40 expositores, é como embarcar numa nave de volta ao passado. Lá dentro, uma procissão de visitantes percorre as bancas em silêncio e com olhares curiosos. Há soldadinhos de plástico, Barbies e Kens de costas voltadas, a espanhola Nancy e a boneca portuguesa Tucha “que faz o que tu fazes”. As mãos pegam, mexem, reviram, devolvem à mesa. Ali estão os carrinhos, os bonecos em PVC e as pistolas de cowboys. “Este é quanto?” Avançam para o próximo monte de objetos, repetem o ritual. Livros de banda desenhada, bonecos da Playmobil, brinquedos de madeira ou os mais recentes videojogos.

São sobretudo adultos – homens na sua maioria, dos 30 anos em diante – os que por aqui circulam à procura dos objetos que marcaram a sua infância. Como a miniatura do automóvel que Carlos Fonseca tem na mão, comprada por €15 no site de leilões Catawiki a um dos expositores. É uma réplica do Ford Deluxe Woody, “o carro do senhor Hélio”, filho da dona da pensão em Nampula, Moçambique, onde Carlos costumava andar há mais de 60 anos. “Uma vez, ele apanhou um leão à beira da estrada e levou-o para a pensão. Cresceu até que começou a rebentar com as cortinas,” recorda o aposentado da Banca, hoje com 75 anos, depois de levantar o objeto. “Teve de o dar ao jardim zoológico, mas quando o visitava ele lembrava-se do dono!”

Menina também entra

Em 2011 só se ouvia falar de troika e de crise e o País estava para tudo menos para brincadeiras. Mas nem isso travou o entusiasmo. “Nessas alturas, as pessoas poupam mais em despesas grandes e o consolo são coisas deste tipo. Para se satisfazerem, gastam mais em colecionismo”, argumenta Ricardo Leite, economista de formação e um dos quatro fundadores do certame que arrancou naquele ano. De edição para edição, a feira cresceu não apenas em âmbito – hoje já acolhe banda desenhada, por exemplo –, mas também a divulgação nas redes sociais trouxe cada vez mais interessados.

Embora o número de visitantes não seja controlado, a perceção é a de que “há sempre caras novas” e de que o público não só cresceu mas está também a diversificar-se. “O colecionismo é mais de homens do que de mulheres, mas há cada vez mais público feminino, porque cada vez há mais temática feminina. E clientela júnior também”, afirma o responsável à EXAME. A próxima edição – prevista para 13 de abril – já vai refletir esta dinâmica e o número de expositores vai passar para 60, potenciando o crescimento de visitantes. “Cada expositor arrasta consigo a sua lista de clientes”, diz, enquanto se desdobra entre a sua banca e a porta de entrada.

E não há só peças antigas ou em segunda mão. Sarah Bronze, de 36 anos, vende miniaturas novas de automóveis, de marcas como Hot Wheels e GreenLight, as mais pedidas. Começou a vir à feira no ano passado e hoje o espaço é uma extensão da loja que criou há três anos no Barreiro, a Maria Diecast. Em cima da bancada, há caixinhas e mais caixinhas com carrinhos dentro. Em média, por cada edição, há uma centena deles que é despachada para outras mãos. “Já tenho a venda feita antes de cá chegar”, revela, referindo-se às vendas feitas na internet e que depois entrega na feira.

Vendas nos carris

As ambulâncias e os comboios que circulam lá fora – a sala do hotel, além de ficar numa rua paralela à linha ferroviária que atravessa Lisboa, está paredes meias com as instalações do INEM – também se encontram cá dentro. Só que numa escala consideravelmente menor. No caso das locomotivas, a suficiente para se encaixarem nos carris da pista que Henrique Magalhães demonstra. Presença habitual nestas feiras, o eletricista de 56 anos promove miniaturas de comboios e o livro que escreveu sobre réplicas de automóveis.

Liga e desliga freneticamente interruptores na pista montada numa placa de madeira para tentar pôr dois comboios em andamento, e enquanto isso vai mostrando o conteúdo de pequenas embalagens arrumadas ao lado. Embrulhados metodicamente em cilindros de cartão estão acessórios para pistas ferroviárias, que Henrique produz à mão há oito anos. Um trabalho de minúcia com tiragem limitada (só faz 100 exemplares de cada) e que já originou 11 referências diferentes, como a réplica de um antigo depósito de água da estação de Aveiro.

Ricardo Leite, que além de organizador é dono da loja de brinquedos Toybroker, põe igualmente à venda peças que produz artesanalmente. Neste caso, miniaturas de soldadinhos em liga de estanho que reproduzem formações de alunos do Colégio Militar, dos Pupilos do Exército ou dos soldados da Infantaria Portuguesa que participaram na Grande Guerra, que se vendem em conjuntos de cinco por €75.

No caso de Henrique Magalhães, as peças da sua marca pessoal, a VEART, construídas na escala adequada às linhas Marklin (a “marca de referência”), podem custar de €40 a €70 e até vêm com livro de instruções. Mas hoje o dia não correu de feição. A poucas horas do fim da feira, faz as contas às vendas: renderam €50. “Não sou negociante, não tenho jeito”, reconhece. Mas parece haver luz ao fundo do túnel, já que vai aventurar-se a dar os primeiros passos nas vendas online, uma via há muito trilhada pela generalidade dos outros expositores.

Bonecos de PVC (policloreto de vinilo), banda desenhada e cadernetas fazem parte do catálogo de produtos que Alexandre Fernandes, 50 anos, tem à venda na internet. Só na página de leilões Neverland, no Facebook, faz um leilão de BD por semana. E como outros vendedores, abastece-se de peças em segunda mão em feiras e casas particulares. Nem sempre acontece, mas entre compras e vendas podem proporcionar-se negócios que se revelam boas surpresas. “Às vezes, acontece comprar por €1 e vender por €200”, admite. Como sucedeu com a venda de um brinde antigo, que vinha dentro dos detergentes Azur, uma marca que costumava oferecer miniaturas de animais. Mas a peça mais cara que vendeu até hoje foi um boneco de PVC da Timpo Toys, por €380. “Na altura, era raro”, explica.

Sentado atrás da sua banca, onde repousam brinquedos de corda e modelos à escala de carros, aviões e comboios, Bertino Pinto (na foto) conta um caso semelhante que se passou consigo. De óculos na ponta do nariz, enquanto cofia o bigode branco (“O barbeiro cortou-me demasiado as pontas”, queixa-se), recorda as miniaturas de carros belgas à escala de 1:43 compradas por €10. Pô-los a leilão e dois deles ultrapassaram os €750. “A mais-valia disto é subjetiva. Se conseguir comprar à tal velhinha que tinha lá [em casa] as coisas do oficial do Exército, vale a pena”, exemplifica. De resto, é difícil fazer grandes negócios. Comprar a colegas para revender “não tem margem”, e além de haver leilões e feiras em todo o lado, o comprador está mais informado: “Vai ao Google e vê o preço.”

Internet e redes sociais eram uma miragem em 1980, a altura em que se iniciou na atividade. De visita a Monsanto e Penamacor, um homem que vendia brinquedos levou-o a visitar o seu armazém. “Era uma caverna de Ali Babá!” Propôs vender-lhe cada um por 15 escudos. Bertino arranjou 1 500 escudos e comprou tudo o que podia. Depois vendeu a espanhóis, cada um por 1 500 ou 2 000 escudos. “Fiz tanto dinheiro que comprei um casaco de 20 contos à minha mulher!”, conta. Outra situação: em Olhão, nos anos 80, comprou uma pilha de caixas de soldados de chumbo à porta de uma loja por 200 escudos. Vendeu cada uma a três contos. “Comecei a fazer dinheiro com isto e nunca mais parei.”

Como ele, uns compram em lojas que já fecharam, outros em recheios de casas, outros nas feiras “da ladra”. Há quem faça vida disto ou use as receitas para complementar rendimentos de outro trabalho ou da reforma. “Na maior parte, são colecionadores de uma área específica que usam as feiras para canalizar peças de que já não precisam. Assim podem financiar a sua coleção, vendendo as peças que já não lhes interessam”, explica Ricardo Leite. Veja-se Alexandre Fernandes, que tem uma coleção de banda desenhada com 2 000 livros e investe anualmente na ordem das centenas de euros. Mas o que traz para o salão, apesar de encher por completo o espaço da banca, representa menos de 10% de tudo o que tem em casa.

Mercado da memória

A motivação para quem compra nestas feiras de peças vintage, gaste mais ou menos dinheiro, é quase sempre a mesma: “A pessoa quer o brinquedo de quando era miúdo”, simplifica Bertino Pinto. E isso tanto pode ser a boneca da marca brasileira Estrela como aquela caixa de Lego, ou os brindes cada vez mais populares que nos anos 60 e 70 acompanhavam os gelados, as farinhas (Amparo), os detergentes (OMO e Sunil), bem como as coleções inspiradas em séries de animação. “De há cinco anos para cá, a procura destes produtos [miniaturas] explodiu”, diz um expositor, que prefere não ser identificado.

Durante anos, empresas como a portuguesa Maia & Borges reproduziram em figuras PVC o fenómeno de popularidade de séries como Dartacão, Abelha Maia e Estrumpfes. Algumas delas chegaram aos dias de hoje em condições e com uma raridade tal, que acabam vendidas na internet, cada uma por preços que podem superar a centena e meia de euros.

Foi à procura de uma destas peças – e logo uma das mais difíceis de encontrar – que José Diogo Madeira veio desta vez ao salão. “Compro para mim, não é para investimento. É uma memória”, realça. Encontramo-lo já à saída da feira. Gastou €60 nas várias compras que fez e exibe com triunfo a conquista do dia: a miniatura do robot Métro, da série Era uma Vez... o Espaço, exibida na RTP nos anos 1980. “Aparece quase sempre com as antenas partidas, mas estas estão inteiras”, diz, com incontida satisfação. O exemplar que segura terá proporcionado horas de brincadeiras nas mãos de outras crianças antes de passar anos dentro de caixas, perdido em gavetas ou estantes para chegar quase intacto a 2019. E vai agora, finalmente, juntar-se às peças Lego, aos militares da Timpo Toys e aos carrinhos Corgi de José Diogo Madeira. Quem havia de imaginar que numa tarde de janeiro, mais de 30 anos depois, ganharia uma nova casa?! E novos amigos.

Notícia publicada originalmente na edição de março de 2019 da EXAME