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Há, e são verdes 

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Fundada no Porto, a empresa de hortas urbanas Noocity estendeu raízes a França e prepara uma nova ronda de financiamento. Este ano, espera chegar ao break-even e duplicar a equipa

Está a preparar o jantar quando dá pela falta de uma mão-cheia de cenouras para a sopa, uma alface para a salada ou morangos para a sobremesa. Volta à pressa ao supermercado para completar a lista? Ou abre a janela da cozinha, estica o braço e resolve o assunto? A cena parece caricata mas, havendo espaço e tempo – além de algumas centenas de euros para gastar –, é isso que a Noocity tenta vender há dois anos: soluções chave-na-mão para o cultivo de produtos em pequenas áreas, a aproveitar o movimento de quem procura levar o campo para a cidade e aqueles que se converteram – ou se querem converter – a uma alimentação mais saudável.

A ideia nasceu em 2013, quando José Ruivo, formado em Gestão, equacionou mudar de vida e sair da cidade para o campo, “na onda dos novos rurais”, explica à EXAME. “Mas percebi que essa transição – abdicar do conforto e qualidade de vida – não seria tão fácil como o esperado. E decidi fazer ao contrário, trazer o contacto com a Natureza para dentro da cidade.” O conceito começou a criar raízes em 2015. Depois da prototipagem, um crowdfunding de €75 200 permitiu escalar e industrializar os kits Growbed, recipientes para plantação produzidos em alumínio e PVC e equipados com uma solução de subirrigação que promete autonomia e poupanças consideráveis de água.

Em 2017, primeiro ano no mercado, a Cidade com Perfil (dona da Noocity) fez vendas de €107 mil, mas o resultado continuou negativo, em €43 mil. “São anos de investimento em que estamos mais preocupados em saber como adaptamos o produto às necessidades do mercado”, justifica o sócio-gerente, que sinaliza um 2018 não muito diferente em termos de contas. Além das exigências de investimento, esse foi também o ano do reposicionamento da Noocity.

As Growbed, um produto inicialmente vocacionado para uso individual, começaram a ser procuradas de forma crescente por empresas, o que obrigou a marca a transplantar a estratégia para um vaso maior. O maior impulso veio de França, onde a companhia passou a integrar os seus sistemas nas miniestufas vendidas pela empresa Myfood e, em simultâneo, desenvolveu projetos-piloto para dois hotéis da cadeia Accor, em Nantes (Ibis) e um em Grenoble (Novotel). A experiência com a rede francesa abriu a porta à instalação de soluções semelhantes em oito hotéis do grupo, incluindo em Portugal, e tornou-a um dos fornecedores credenciados do projeto de desenvolvimento sustentável da Accor, que tem o objetivo de instalar hortas ecológicas em mil hotéis europeus até 2020.

Grão a grão

Estima-se que, a nível global, 800 milhões de pessoas cultivem produtos em ambiente urbano e, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cada metro quadrado plantado pode render por ano qualquer coisa como 30 kg de tomate; 36 alfaces ao fim de dois meses; ou uma centena de cebolas em quatro meses. Contributos que podem ajudar a satisfazer as necessidades alimentares da população mundial nas próximas décadas, que até 2050 deverão obrigar a aumentar a produção agrícola em 60%, segundo a mesma organização.

O potencial do negócio já atraiu a atenção de grandes multinacionais de consumo – a IKEA anunciou o lançamento, dentro de dois anos, de uma nova linha de produtos para agricultura urbana – e em alguns países extravasou o conceito da microprodução para autoconsumo. Nos Estados Unidos da América, empresas como a Gotham Greens, a Brooklyn Grange ou a Edenworks, usam terraços de prédios no centro de Nova Iorque ou Chicago para plantar e produzir vegetais em média escala que são depois vendidos localmente ao cliente final.

Diversificar e financiar

Hotéis como o Crowne Plaza Porto (na foto) ou o Grande Hotel do Porto, restaurantes como o Panorâmico by Marlene Vieira no Taguspark (Oeiras) ou a tecnológica Blip Web Engineers estão entre os clientes da Noocity em Portugal. O mercado corporativo, que ajudou a superar a barreira dos mil clientes, já gera a maioria da faturação (60%). E o objetivo é continuar a crescer neste segmento, o que leva a Noocity a implementar este ano uma rede de parceiros locais de instalação e manutenção em Portugal e em França, que mais tarde poderá estender-se ao Reino Unido e à Alemanha.

O outro eixo é o da diversificação. No arranque de 2019 estava previsto o lançamento de um novo produto, um compostor de lixo orgânico à escala doméstica para fertilização autónoma das Growbed, e nos últimos meses deste ano arranca a venda de pacotes de sementes e plantas em modelo de subscrição. “Terá um preço semelhante ou mais barato do que o praticado num horto ou numa loja, com a comodidade de os produtos serem entregues em casa e nas alturas certas do ano”, explica José Ruivo. O responsável espera que pelo menos 50% dos atuais clientes venham a subscrever estes planos.

Com a estratégia em Portugal e em França a continuar a dar frutos e a abordagem a novos mercados e produtos já semeada, o número de trabalhadores a tempo inteiro deverá duplicar este ano para os dez e as vendas poderão superar os €500 mil, fechando o exercício próximo do verde. No entanto, adubar os próximos anos de atividade vai exigir capital. Depois de, no ano passado, os business angels da Red Angels terem aplicado €125 mil numa ronda de investimento-semente, a Noocity está agora a preparar uma nova ida ao mercado, que será “bastante maior” e deverá passar por investidores internacionais. “Estamos a negociar com várias capitais de risco francesas que têm manifestado algum interesse em investir no projeto”, diz o sócio-gerente, que recusa avançar nomes ou valores.

Notícia publicada originalmente na edição de março de 2019 da EXAME