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Investir na felicidade é bom para o negócio

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Tal Ben-Shahar, professor em Harvard especializado em Psicologia Positiva e da Liderança, escreveu recentemente The Joy of Leadership, em coautoria com Angus Ridgway, e esteve em Lisboa para participar na Happy Conference 2019

A propósito da sua vinda a Lisboa para uma conferência sobre felicidade, o autor e professor universitário Tal Ben-Shahar partilhou com a EXAME o seu pensamento em relação à importância de ter pessoas mais satisfeitas dentro das organizações mas não só. Mil amigos numa rede social não substituem o melhor amigo. As interações cara a cara, sem tecnologia, são importantes,” exemplifica o especialista.

É mais uma manhã de trabalho, cheguei à minha redação, estou sentado ao computador. Cumprimento os meus colegas e da minha janela vejo um dia luminoso lá fora. Como é que posso saber se estou feliz?

A questão não é se uma pessoa está ou não feliz, mas como pode tornar-se mais feliz. Pergunto-me muitas vezes: “Sou feliz?” Outros, sobretudo os que me são mais próximos, preocupam-se com o meu bem-estar e fazem-me a mesma pergunta. Demorei um pouco a reconhecer que, apesar de bem-intencionada, essa questão não é adequada. Como é que determino se sou ou não feliz? Em que momento me torno feliz? Há algum padrão universal de felicidade e, se sim, como o identificar? Se a minha felicidade depende da dos outros, então como é que meço o quão felizes eles estão? Não há uma forma fiável de responder a estas perguntas e mesmo que houvesse, não ficaria feliz por isso.

Mas há uma checklist para isso?

“Eu sou feliz?” é uma pergunta fechada, que sugere uma abordagem binária em busca da solução final: ou sou feliz ou não sou. De acordo com esta abordagem, ser feliz é o fim de um processo, um ponto finito e definível que, quando alcançado, significa o fim da nossa busca. No entanto, este ponto não existe e agarrarmo-nos a essa crença leva-nos à insatisfação e ao niilismo. Podemos ser sempre mais felizes, ninguém vive a felicidade perfeita sem mais nada a ambicionar. Assim, mais do que me perguntar se sou feliz ou não, a pergunta útil é: “Como é que me torno mais feliz?” Esta pergunta pressupõe que a busca da felicidade é um processo representado por um contínuo infinito e não por um ponto finito. Mais do que nos sentirmos desanimados porque ainda não alcançámos o ponto ilusório da perfeita felicidade e do que desperdiçarmos as nossas energias a tentar medir a nossa felicidade, reconhecemos que há recursos ilimitados de felicidade e passamos a focar-nos nas formas de obter mais deles.

Vivemos cada vez mais virados para o nosso umbigo, para as redes sociais, para a exibição e a validação, fechados em tribos e bolhas. Mesmo assim, é possível – verdadeiramente – ser feliz? E como?

As relações são críticas para uma felicidade verdadeira e duradoura. Há duas coisas importantes na sua abordagem. Primeiro, priorizá-las. Hoje, demasiadas pessoas dão prioridade ao trabalho ou ao emprego e as relações são relegadas para segundo plano. O tempo com aqueles que se preocupam connosco e com quem nós nos preocupamos é crítico para a felicidade. Depois, as relações têm de ser reais. Mil amigos numa rede social não substituem o melhor amigo. As interações cara a cara, sem tecnologia, são importantes.

Independentemente do país onde se nasce, do ambiente em que se cresce, das condições que nos são proporcionadas ou que criamos, é sempre possível trabalhar para atingir a felicidade?

Normalmente é possível tornarmo-nos mais felizes. Embora circunstâncias extremas – como a pobreza extrema ou a opressão política – possam reduzir a nossa capacidade para sermos felizes, na maioria das situações podemos fazer coisas para aumentar os nossos níveis de bem-estar.

E há uma felicidade ou há várias felicidades? Um conceito de multifelicidades...

Há várias definições de felicidade. A que considero mais útil reside nas palavras de Helen Keller [ativista social norte-americana] que escreveu: “Para mim, a única definição de felicidade é plenitude.” Inspirado em Keller, defino felicidade como “a experiência do bem-estar de corpo inteiro.” Para melhor abreviar a definição, misturando as palavras wholeperson e well-being, a felicidade é a “experiência do wholebeing.” Não quero com isto substituir outras definições existentes. Não quero nem preciso de discutir com outros que escolhem definições diferentes de felicidade. Da forma como o entendo, o objetivo de uma definição é operacionalizar o conceito de modo a poder ser usado para perseguir uma vida plena e realizada. Para lá desta definição, é preciso separar o termo wholebeing olhando para o bem-estar de indivíduos, grupos e da sociedade à luz dos cinco elementos que constituem a pessoa inteira. Estes cinco elementos são o bem-estar espiritual, físico, intelectual, relacional e emocional. Uma vez mais, não são verdades universais e absolutas que eu ou alguém tenha recebido através de alguma revelação divina. Os cinco elementos provam ser, antes, construções úteis e pragmáticas.

Acreditar em algo superior, num deus, numa filosofia, é essencial para se ser feliz? Ou, pelo menos, torna mais fácil atingir esse patamar?

As pessoas religiosas são geralmente mais felizes do que as não religiosas. Isso não significa que não haja pessoas seculares que sejam extremamente felizes e pessoas religiosas que sejam extremamente infelizes, mas a religião como um todo parece contribuir para o bem-estar. Uma das razões é que as pessoas religiosas experienciam a espiritualidade, o que é importante para a felicidade. Contudo, uma pessoa secular pode experienciar também a espiritualidade. Uma das definições de espiritualidade é encontrar um sentido de significância em algo. Um banqueiro de investimento que encontra significado no seu trabalho – que está nele pelas razões corretas – leva uma vida mais espiritual e realizada do que o monge que está nesta atividade pelas razões erradas.

Como é que as organizações, que são por natureza máquinas de fazer dinheiro e não podem parar, conseguem permitir aos seus colaboradores reorganizarem-se e encontrarem a felicidade? Isso não é uma utopia?

As organizações precisam de perceber que investir na felicidade dos seus empregados é bom para o negócio. Embora saibamos pela investigação que o sucesso não conduz à felicidade, também sabemos que a felicidade conduz ao sucesso. As pessoas que são mais felizes tendem a ser mais criativas, a trabalhar melhor em equipa, a ter mais motivação e energia e, sobretudo, a gozar de maiores níveis de produtividade. A felicidade é um bom investimento tanto para o empregado como para o patrão!

E como é que alguém, enquanto superior hierárquico ou colega, identifica entre os seus pares ou subordinados aqueles que precisam de estimular a sua felicidade?

Uma vez que podemos ser sempre mais felizes, a felicidade de cada pessoa pode
e deve ser estimulada e aumentada.

Quando, nesta quarta revolução tecnológica, as máquinas tomarem boa parte do trabalho nas organizações, vamos ter de mudar ou adaptar o paradigma de felicidade?

Os humanos vão ser pagos, no futuro, pela sua criatividade, a sua inovação e o seu pensamento fora da caixa, disruptivo. Tudo isto é reforçado e cultivado, aumentando os níveis de felicidade.

Quando me falam de felicidade nas organizações, imagino sempre uma seita ou uma igreja com seguidores férreos. Qual é a forma mais efetiva de a espalhar?

A chave é basear as intervenções na ciência e na investigação – que é a forma de o diferenciar de seitas ou religiões. Uma das mensagens claras da revolução científica é a de que para a criatividade e a inovação – para o progresso – necessitamos de preservar
a individualidade.

Numa sociedade em que o objetivo é ganhar – e em que, por isso, nem todos podem ganhar –, como é que se consegue distribuir ou alcançar uma felicidade generalizada? Para uns serem felizes, outros têm de o ser menos [ou ser infelizes]?

A felicidade é um jogo de soma positiva, não de soma zero. Enquanto aumento a minha própria felicidade, maior probabilidade há de os outros aumentarem a deles. A felicidade é contagiosa.

As suas sete lições e os ensinamentos são aplicáveis a todas as pessoas? Imagino que quem não trabalhe para uma organização ou não faça parte de um país de primeiro mundo ou emergente e com uma economia de mercado possa ter mais dificuldade em extrair utilidade nas suas palavras...

Sim, para que haja felicidade individual é essencial existir uma sociedade livre. Mas a característica comum que encontro nos países mais felizes do mundo é o foco nas relações. Países onde as pessoas investem muito nas suas relações. Quem investe nas relações é mais feliz. Por exemplo, países como Finlândia, Dinamarca, Israel, Colômbia e Austrália vivem níveis mais elevados de bem-estar porque as suas culturas valorizam as relações.

E as centenas, os milhares, de pessoas que impactou com as suas mensagens de psicologia positiva: consegue saber se elas realmente as transformaram e conseguiram, por sua vez, transformar outras pessoas e vidas?

Eu e os meus colegas temos feito muita investigação apontando para o impacto de intervenções que fazem parte da ciência da felicidade. Além disso, alunos da ciência da felicidade relatam um impacto real e transformador em vários domínios das suas vidas – do trabalho até casa.

Entrevista publicada originalmente na edição de abril de 2019 da EXAME