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EUA questionam "lealdade" de Portugal a empresas chinesas

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Arlindo Camacho

"Porque estão a ser leais a alguém que chegou aqui e basicamente roubou a vossa empresa?", pergunta o embaixador norte-americano. "Xi [Jinping], não é a mesma China com que lidavam há 500 anos," avisa.

O embaixador dos Estados Unidos da América sugere que Portugal não devia ter deixado que a China entrasse no capital de algumas das suas empresas estratégicas e questiona a lealdade dos portugueses a um país cujas empresas se limitaram a comprar ativos numa altura de necessidade do País.

“Eles vieram e compraram as vossas infra-estruturas críticas por ‘10 cêntimos’. Do ponto de vista de negócio, porque estão a recompensá-los?,” questionou George Edward Glass num encontro com jornalistas. “Porque estão a dar lealdade a alguém que chegou aqui e basicamente roubou a vossa empresa? Não percebo essa filosofia. É por isso que não vejo as coisas da mesma forma.”

Para Glass, um antigo empresário, que recentemente se insurgiu contra a OPA da China Three Gorges sobre a EDP e contra a adoção por Portugal da tecnologia 5G da também chinesa Huawei, o argumento de uma longa relação de séculos entre Portugal e China não é suficiente, tal como não o é o facto de compras em empresas como a EDP, a REN ou a Fidelidade terem sido feitas numa altura em que o País precisava de financiamento externo.

“A minha resposta, do ponto de vista de negócio, é retirar toda a emoção,” defendeu, sublinhando no entanto que não acredita que os empresários portugueses sejam ingénuos. “Tudo o que tenho visto foi muito calculado. Há uma lealdade. [Dizem que] são pessoas com quem fazem negócios há centenas de anos. Mas este líder, Xi [Jinping], não é a mesma China com que lidavam há 500 anos. Os portugueses são leais, bons amigos e querem manter as relações abertas e acho que isso pode ter toldado a questão do negócio,” sugere.

"Portugal nunca devia vender a sua infra-estrutura crítica a uma entidade estrangeira"

Em relação à OPA da EDP, que ficou pelo caminho depois de não ter sido aprovada a desblindagem dos estatutos (uma das condições para o avanço da operação), Glass admite que as objeções que os EUA levantaram à compra pela estatal chinesa dos ativos de renováveis norte-americanas foram apenas uma “alavanca” em toda a questão: “Portugal nunca devia vender a sua infra-estrutura crítica a uma entidade estrangeira. Não deixaria os EUA comprarem a minha empresa elétrica crítica, também não deixaria os chineses.”

O diplomata negou ainda qualquer intervenção no negócio, que foi travado depois de votada a proposta do fundo norte-americano Elliott para a desblindagem dos estatutos. E disse que o fim da oferta se deveu aos acionistas que perceberam que era um “mau negócio”. “Havia uma questão de segurança nacional e os fatores de mercado prevaleceram,” definiu.

De segurança nacional é também o tema da infra-estrutura de redes de quinta geração (5G), em que os EUA têm feito finca-pé que Portugal não entregue à chinesa Huawei. Sobre este assunto, George Glass avisa que uma adesão àquela tecnologia vai obrigatoriamente mudar a relação na forma como Portugal e os EUA partilham informação sensível, nomeadamente no âmbito da Aliança Atlântica.

“Se os meios para transmitir informação não forem seguros, temos de encontrar uma nova forma de a comunicar. Ainda não tenho uma resposta para como se fará. Mas não significa que não seremos amigos ou aliados,” salvaguarda. Glass diz que não houve alteração de posição de Portugal desde que cá esteve o chairman da FCC (responsável pelas comunicações nos EUA) para pressionar o País a excluir os chineses do 5G. Mas confia que as autoridades portuguesas estão pacientemente à espera de ver qual será a posição comum europeia em termos regulatórios antes de dar os próximos passos.

5G afeta "segurança, inovação e crescimento"

Na semana em que os recuos da China nas conversações comerciais levaram o Presidente norte-americano a anunciar o agravamento de tarifas aplicadas a produtos oriundos daquele país asiático, o representante de Trump em Portugal nega que, tal como sugere Pequim, haja questões de concorrência a opor os EUA e a China na questão do 5G. E insiste na tónica da segurança nacional e no risco de o Ocidente ficar para trás em termos de inovação durante duas décadas. “Isso para mim é um crime, apenas um crime. Não são apenas os assuntos de segurança. É inovação, crescimento, é tudo.”

O "incómodo" com o que diz ser o modus operandi da China - reunindo, apoiando e subsidiando entidades estatais nos negócios internacionais - é assumido: "Não operamos [EUA] dessa forma. Somos empresas privadas, não subsidiamos as companhias." E sublinha a pressa com que as entidades chinesas parecem agir na questão do 5G, ao tentar convencer os países europeus a não esperar pela tecnologia ocidental. "Porquê? Porque ainda não há regulação contra isso. Essa urgência não é nada chinesa, é contrário à forma deles agirem. E para mim, se estão a impor-se para serem os primeiros a chegar ao mercado, isso não é bom. Não significa que o produto seja bom."

O embaixador considerou ainda “muito justa” a declaração de Marcelo Rebelo de Sousa que, durante a visita recente à China, defendeu que Portugal “é livre de escolher quem melhor cumprir as regras e quem estiver em condições de ser escolhido". “Mas o que não foi referido,” diz Glass, “foi que o 5G é um assunto de segurança nacional. Isso é muito importante. A segurança nacional não é barata, não é fácil, mas é preciso fazer o melhor,” argumentou.

Notícia atualizada às 11:38 de 9 de maio