Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Nesta casa há muito mais do que papel e moeda

Exame

Paulo Zacarias Gomes e André Moreira

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda, que fala cada vez mais na linguagem da indústria 4.0, não quer perder de vista o papel cultural e social conquistado ao longo de 250 anos

André Moreira

André Moreira

Jornalista Multimédia

Faça o exercício: pegue na carteira e retire o seu Cartão de Cidadão, o cartão bancário e o de refeição. Conduz? Então tire a carta de condução e o Documento único automóvel. Fuma? Venha de lá o maço de tabaco e, já agora, os trocos que tiver consigo. Essa pulseira e essa aliança de ouro que tem no dedo, pode retirá-las também. Agora, olhe para a mesa: há uma elevada probabilidade de muitos – senão todos – desses itens que diariamente guarda nos bolsos terem sido produzidos ou certificados por uma empresa portuguesa, que funciona discretamente há décadas no coração de Lisboa.

Mais exemplos? As estampilhas fiscais das bebidas alcoólicas, os hologramas dos DVD, o passaporte eletrónico, a licença de uso e porte de arma, o cartão de dador de sangue. E ainda o Livro de Reclamações, as vinhetas médicas, as cadernetas de voo ou o Diário da República. Tudo isto passa todos os dias pelas impressoras e pelos cunhos da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), num percurso envolto em camadas sucessivas de segurança com o qual se pretende garantir a integridade do produto final.

Apenas três quilómetros separam os edifícios principais da empresa na capital, que ocupam praticamente dois quarteirões. Perto do bairro do Arco do Cego, a Casa da Moeda, instalada em pleno Estado Novo no edifício projetado por Jorge Segurado. No miolo da cidade, próximo do Príncipe Real, a Imprensa Nacional está num prédio setecentista, o “único edifício industrial num bairro histórico da cidade”. Combinados, 25 mil metros quadrados onde, 250 anos depois da sua fundação, a instituição continua a reinventar-se para se manter a dar cartas num mundo que tem tendencialmente menos papel e menos dinheiro físico.

“Quando se passa ao lado da Casa da Moeda, não se imagina que estamos a fazer coisas destas”, expõe Gonçalo Caseiro enquanto, por detrás do ecrã do computador portátil, enuncia de cor a agenda de inovação impulsionada pela instituição. Iniciativas que envolvem termos correntes da indústria do século XXI, como algoritmos, blockchain ou encriptação, e que entusiasmam o presidente da INCM, há um ano e meio no cargo, e mais de seis na administração: “Queremos fazer a ligação entre o mundo físico e o digital”, sintetiza.

Ao longo de várias horas, em duas manhãs de março, o dirigente conduziu a EXAME pelas instalações da empresa onde se concentra a esmagadora maioria dos quase 700 colaboradores. Um labirinto de apertado controlo, que obriga a passar por portas e mais portas de transição para áreas sensíveis, sempre munidos de um cartão de identificação e acompanhados pelo responsável da segurança. As regras de captação de imagens são estritas, os movimentos limitados, com recurso a Inteligência Artificial, para garantir a segurança e a inviolabilidade das áreas.

Por todo o lado no edifício, da nave da gráfica de segurança à de cartões, há sinais da renovação em curso no âmbito do ciclo de investimento, que será concluído em 2021/2022. As intervenções são planeadas para não se prejudicar os ritmos de produção e, nalguns casos, nota-se bem a diferença entre o antes e o depois, com uma fábrica altamente compartimentada a dar lugar a instalações mais amplas, modernas e luminosas. No final do processo – que, em 2019, obrigou a reforçar o investimento para €17,6 milhões, a que se seguirá uma estabilização em torno dos €10 milhões nos dois anos seguintes –, espera-se que a renovação traga uma automatização crescente das tarefas e se gerem ganhos de eficiência.

Um dos investimentos em curso, que partiu do prémio de inovação atribuído pela instituição em 2018, é a robotização 4.0 da área de produção de cartões e passaportes. A partir de maio, as máquinas inteligentes vão tornar-se omnipresentes, do início da produção até à logística. Por exemplo, o transporte de cartões, hoje feito em carrinhos por vários humanos (a segregação da segurança a isso obriga), passará a ser feito por um o robô com gavetas seguras, que pode cruzar sozinho todas as camadas de segurança e até chamar o elevador. Será praticamente autónomo, guiando-se por sensores e câmaras de vídeo.

Das cadernetas ao passaporte

Na nave dos cartões, onde o ruído ritmado das máquinas de corte obriga a falar mais alto para conseguirmos ouvir-nos, concentra-se todo o processo de produção, desde o desenho inicial até à impressão de alta resolução com microtexto. Pelo meio, acrescentam-se outros elementos de segurança e, no caso do Cartão de Cidadão, o chip e a laminação, o processo que junta as oito camadas distintas que compõem o documento. Numa sala restrita, sujeita às regras da Visa e da Mastercard, são produzidos todos os anos milhões de suportes destinados a bancos portugueses e estrangeiros, como os dos PALOP.

“O cartão bancário é uma questão estratégica para nós. Apesar de haver cada vez maior digitalização, o seu uso na Europa aumentou, não diminuiu. E as pessoas ainda não abdicam dele”, considera o presidente. No entanto, admite um crescimento mais lento deste negócio, já que a sua duração é cada vez maior, e que possa entrar em declínio num futuro mais longínquo. Os serviços financeiros são exemplo de como a INCM aproveitou capacidade e know-how para se adaptar ao fim do ciclo de vida de determinados produtos.

A caderneta bancária, usada sobretudo por clientes da Caixa Geral de Depósitos e do Crédito Agrícola, está em franco decréscimo entre os suportes concebidos, mas foi entretanto adaptada à produção de passaportes. “O passaporte português é dos melhores do mundo. É um documento de alta segurança, não tenho conhecimento de nenhum que consiga destacar-se. Fazer um passaporte não é muito diferente de fazer uma nota de banco: tem de sair perfeito”, explica Gonçalo Caseiro.

Além de Portugal, aqui também já se fazem documentos semelhantes para Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, e a Casa da Moeda é candidata, num consórcio pluricontinental, a um grande concurso num país da América do Sul. Se vencer, este contrato pode vir a ter um impacto “razoável” nas contas, numa rubrica que já de si é a mais importante entre as fontes de receita. A unidade gráfica, que abrange a produção de impressos, passaportes, cadernetas e cartões bancários ou de identificação, representou 68% do total de €96,15 milhões de receitas verificadas em 2018.

Mergulho na tecnologia

Mesmo que alguns dos equipamentos contenham décadas de vida, nas naves industriais da INCM há tecnologia de ponta por todos os lados. Nos sensores que detetam e reportam anomalias no funcionamento das máquinas, e que são complementados com inputs dos operadores humanos; no sistema de planeamento de trabalho diário, que dá indicações sobre as tarefas a realizar consoante o perfil do trabalhador (se é autónomo, se pode ensinar outros, etc.); na contrastaria, em que as técnicas manuais de certificação de metais preciosos convivem com a gravação a laser; no simulador numérico, que prevê o tempo de vida útil dos cunhos de produção de moeda e aconselha melhorias na liga metálica a usar (desenvolvido com o Instituto Superior Técnico); ou no tableau de bord do computador, onde é possível acompanhar em tempo real o funcionamento e o histórico de produção.

Uma das máquinas monitorizadas é a prensa Schuler. Com uma força de 100 toneladas aplicada a pequenos discos dourados, faz sair do outro lado uma cascata de 800 moedas, já cunhadas, de 10 cêntimos, por minuto. É aqui, onde há 20 anos começaram a ser produzidos os primeiros euros do País, que se despacham as encomendas de divisas colocadas pelo Banco de Portugal – são 110 milhões só neste ano, sobretudo de um e de cinco cêntimos – e as que são conquistadas, por concurso, noutros países.

Numa sala ao lado, três trabalhadores de luvas calçadas manejam uma outra prensa. De forma lenta e precisa, vão colocando e retirando pequenos discos metálicos prateados. Depois de cunhada individualmente, cada moeda é cuidadosamente verificada à lupa, à procura da mínima imprecisão. Até ao fim do ano, sairão dali as 12 moedas do plano numismático de 2019, incluindo a que comemora este mês os 45 anos do 25 de Abril.

Um quinto da faturação da INCM tem origem no negócio da moeda, uma tecnologia com séculos, em que parece haver poucas variáveis além do formato e do design. Isso seria verdade, não fossem as tecnologias aditivas. A moeda que celebra a arquitetura do ferro e do vidro, por exemplo, combina a liga metálica com um polímero transparente que simula o vidro. E já é possível acrescentar cor, incorporar chips com identificação por radiofrequência (RFID) e mesmo hologramas.

Muitas destas inovações têm origem na rede que envolve duas dezenas de universidades e instituições e põe mais de 70 pessoas, algumas das quais doutoradas, a trabalhar com a INCM em mais de uma dezena de projetos. Todos os anos, a empresa aplica 1% do volume de negócios em I&D e premeia, com €850 mil ,as ideias inovadoras que possam ser ligadas ao seu DNA. Além de conceder incentivos financeiros, garante que “uma percentagem razoável” da propriedade intelectual fica com a universidade ou com os investigadores, para permitir continuar o desenvolvimento da ideia ou, no limite, o seu spin-off.

Desta colaboração com o ecossistema exterior surgiram tecnologias como o simulador numérico dos cunhos ou a que, a partir de maio, permitirá armazenar informação encriptada nos desenhos dos selos fiscais dos maços de tabaco, lida com uma simples aplicação de smartphone. Uma funcionalidade que inviabiliza a falsificação e com múltiplas utilizações, incluindo em produtos alimentares com denominação de origem protegida.

Com a Navigator, a equipa da Faculdade de Ciência e Tecnologia liderada pela cientista Elvira Fortunato e pela Câmara de Almada, a INCM está a desenvolver um projeto para substituir em dez anos os chips de silício por papel com propriedades eletrónicas. E realizou um crowdfunding para apoiar o projeto da WalliD ,para armazenamento da identificação digital dos cidadãos sobre tecnologia blockchain, que pode ser alargado para o espaço europeu, garantindo a interoperabilidade entre os vários cartões de cidadão. Há três venture capital portugueses interessados em entrar no projeto e a participação da INCM, que é hoje de 10%, pode chegar a 17% do capital.

“No final, tudo isto terá uma componente fabril, continuaremos a ser uma empresa industrial”, assevera Gonçalo Caseiro. “Não queremos deixar de ser uma indústria, não estamos a transformar-nos numa software house nem nada parecido.”

Gestão de proximidade

Enquanto circula pelos pavilhões, Gonçalo (é assim que o trata a generalidade dos colaboradores) cumprimenta e aperta as mãos dos que se cruzam consigo nos corredores. Trata e é tratado por tu. “Conheço quase toda a gente, diria toda a gente. Conseguimos ter uma relação mais flat. Acredito que, com proximidade, consigo tomar melhores decisões de gestão.” Não comenta as práticas das presidências anteriores, mas reconhece ter feito “questão de que isso fosse assim” desde que se tornou presidente.

Em quatro anos, a instituição cresceu de 650 para 698 trabalhadores e a antiguidade reduziu-se ligeiramente. Em média, entram 30 a 40 pessoas por ano e saem um pouco menos. A conquista de novas encomendas no estrangeiro obrigará a aumentar aos poucos o número de colaboradores e o estatuto de empresa pública, com relações laborais ao abrigo do Código do Trabalho, dá alguma flexibilidade nas contratações. “Fiz carreira no privado e não sinto que haja mais pressão aqui para não aumentar o headcount do que sentia de Espanha ou dos EUA quando estava no setor privado”, afirma Gonçalo Caseiro.

A retenção de contratados é “muito forte” e, entre os recrutados, já se sente a presença dos millennials, “pessoas que não querem emprego para a vida mas se interessam pelo projeto”. Ainda assim, continua a haver oportunidades para construir carreira, como mostra o caso de Alcides Gama, que entrou na casa como técnico e chegou a diretor comercial antes de entrar na administração. Ou de Carlos Ribeiro, que também foi da base até chegar a diretor das publicações oficiais.

Até 2006, o Diário da República, que Carlos Ribeiro dirige, era o principal negócio da Imprensa Nacional, instalada na Rua da Escola Politécnica. Este é talvez o maior exemplo de como a tecnologia quase apagava um negócio da folha de balanços da INCM. Doze anos depois, o jornal oficial ainda se produz em papel, mas está resumido a 30 exemplares diários, para depósito legal obrigatório em entidades como a Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional.

A equipa do jornal oficial concentra 60 pessoas, que asseguram a publicação online de uma média de 200 atos legais por dia. Com o fim das assinaturas digitais, a sustentabilidade financeira da operação passou a ser totalmente assegurada pelas entidades anunciantes. O preço a cobrar por publicação baixou, mas todas as publicações passaram a ser pagas, quando antes só 30% o eram.

Nas instalações da Imprensa Nacional, toda a área antes ocupada pela produção do diário em papel está hoje dedicada a outras atividades editoriais. Espalhadas pelo chão sintético verde estão impressoras folha a folha, de bobine, offset e digitais.

À volta das colunas de ferro pintadas de amarelo, no centro de socalcos ligados por meia dúzia de degraus, dispõem-se máquinas de dobrar e de encadernação em capa dura e mole. Cheira a tinta e o ruído ritmado dos mecanismos ecoa nos tetos falsos e nos azulejos antigos das paredes. Nas bobinas, há vinhetas médicas, folhas do Livro de Reclamações e do Livro Amarelo, páginas de um livro de Bocage... O parque tem equipamentos com 20 e poucos anos, alguns mais, e, em breve, o plano de investimentos contempla a chegada de uma nova rotativa para substituir a existente. A máquina de produção de selos já está robotizada e vai permitir acelerar o processo de finalização.

Apesar de o volume de negócios se ter mantido praticamente inalterado em 2018, em €96,15 milhões, a ausência do registo de imparidade relacionado com um terreno, que teve impacto no exercício anterior, permitiu levar o resultado líquido para €19,7 milhões, um disparo de 30% em termos anuais. É, em boa parte, um efeito de recirculação, já que o mesmo Estado que é dono da empresa – 100% detida pela Parpública – é também o maior cliente dos seus serviços, gerando em média 60% a 70% da faturação.

Ainda assim, a INCM é um bom negócio para o Estado? “É”, reconhece Gonçalo Caseiro. “Mas não trabalho para esses números. Trabalho para garantir que uma instituição com 250 anos possa fazer 300 ou 350. Os resultados financeiros são uma consequência do bom ou do mau trabalho que eu possa fazer.” E insiste que a matriz do valor económico da INCM, o trabalho da instituição no apoio à academia, à inovação e à cultura e à preservação da língua, é “mais importante” do que o valor financeiro.

“A cultura é softpower, é transversal. Permite chegar a todo o lado”, corrobora Duarte Azinheira, diretor editorial e cultural da INCM. A Imprensa Nacional, que em 1972 foi fundida com a Casa da Moeda, tem uma filosofia muito própria que passa por promover a língua e a cultura portuguesas, como demonstram as 80 a 100 edições levadas ao prelo todos os anos, os prémios literários atribuídos em Portugal e no estrangeiro e o ciclo de eventos na biblioteca da instituição, onde estão 20 mil publicações. “Não visa o lucro, deve ser gerida com parcimónia e ter finalidade diferente.”

Todos os anos, o plano de responsabilidade social e cultural recebe 1% das verbas do valor de todas as vendas da INCM, dando plena autonomia de programação. “É quase uma margem negativa que a empresa está disposta a suportar. Mas a cultura tem-nos ajudado a abrir portas para os negócios nos países onde estamos”, reconhece Gonçalo Caseiro, em particular nos mercados de língua portuguesa. 

Notícia publicada originalmente na edição de abril de 2019 da EXAME