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Pilhas de inovação no Porto

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Lucília Monteiro

Um projeto da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto está a desenvolver um protótipo de pilha de combustível de metanol, mais barato e duradouro, que pode ajudar a diversificar as fontes de energia de pequenos dispositivos eletrónicos

E se, em vez de passar horas a carregar uma bateria ou de mudar frequentemente uma pilha, pudesse ter um acumulador com autonomia superior à tradicional pilha de lítio e com carregamento instantâneo? Para já, é um projeto, mas a investigação pode levar o futuro desta área da energia a passar por Portugal, em particular pelo Centro de Estudos de Fenómenos de Transporte (CEFT) e pelo Departamento de Engenharia Química da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

É ali que a investigadora Vânia Oliveira esteve nos últimos meses a constituir a equipa de quatro pessoas que, em três anos, se propõe desenvolver o protótipo de uma pilha de combustível de metanol, através do projeto NewPortCell.

“[Estas pilhas] podem ser usadas para carregar as atuais baterias de lítio sem recurso à corrente, como um powerbank; ou podem ser feitas de raiz, para substituir as baterias de lítio,” explicou Vânia Oliveira à EXAME, por telefone a partir do Porto. Além da investigadora, a equipa é composta por Alexandra Pinto (professora e investigadora da mesma instituição, diretora do programa doutoral em Engenharia Química e Biológica e responsável pela área de Energia do CEFT), um investigador (contratado por 31 meses) e um bolseiro.

Há vários anos que grandes empresas como a Toshiba e a Samsung investigam e desenvolvem produtos nesta área, mas o objetivo do projeto português é a aplicação a dispositivos médicos portáteis, como os aparelhos auditivos, evitando a substituição regular da bateria. Uma recarga de metanol – feita através de um cartucho estanque contendo o líquido que é injetado na pilha – pode durar meses.

“Na Europa, que saibamos, este é o primeiro com essa aplicação. Na Dinamarca já houve a ideia de aplicar aos aparelhos auditivos mas, mesmo que a tecnologia surja entretanto, pode depois ser melhorada,” frisa Vânia Oliveira, que trabalha desde 2005 com pilhas de combustível de metanol, área em que obteve o seu doutoramento.

A maior durabilidade (limitando a 20% a perda de eficiência ao longo do ciclo de vida) e a redução do custo (também em 20%, com materiais mais baratos ou fáceis de produzir) são metas do projeto, que pretende tornar o protótipo atrativo para futuras parcerias com o mundo empresarial. Embora, explica a investigadora, as pilhas mais estudadas e divulgadas sejam as de hidrogénio, este elemento dissipa-se facilmente e é difícil de armazenar e distribuir – o que não acontece com o metanol, que é líquido à temperatura ambiente. Tem contudo uma desvantagem atual: produz menos energia.

O projeto foi submetido em 2017 na sequência de uma call da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Arrancou a meio do verão passado, com um orçamento de €239,5 mil (85% FEDER e fundos regionais e 15% fundos nacionais), e prolonga-se até 22 de julho de 2021.

Notícia publicada originalmente na edição de janeiro de 2019 da EXAME