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Alberto Cairo: “As pessoas têm a responsabilidade de se tornarem mais inteligentes”

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Paulo A. M. Oliveira | iNOVA Media Lab

Alberto Cairo é uma referência mundial na visualização de informação, cuja popularidade explodiu nos últimos anos. Veio a Portugal falar dos erros que jornalistas e leitores cometem. Este artigo foi originalmente publicado na edição de janeiro de 2019 da revista EXAME

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Embora tenhamos cada vez mais gráficos e outras formas de visualização, a informação não tem ficado necessariamente mais compreensível. Alberto Cairo ajuda-nos a perceber porquê. Autor do livro The Truthful Art e coordenador da área de Visualização na Universidade de Miami, o ex-jornalista aponta alguns dos erros mais comuns – propositados ou não – cometidos por quem trabalha nesta área (ver as imagens que acompanham o texto). No entanto, os leitores partilham também alguma responsabilidade. “Temos de usar a informação que recebemos de forma responsável, tal como estamos obrigados a conduzir um carro de forma responsável”, explica nestas páginas. Veio a Portugal dar uma aula aberta na FCSH e uma palestra no ISCTE, intitulada Visual Trumpery. A EXAME entrevistou-o antes de ambas.

Os últimos anos trouxeram uma explosão de infografia. A informação ficou mais clara?

Houve uma explosão na apresentação gráfica de histórias, mas também uma queda mundial na infografia mais tradicional, de grandes peças, com ilustração e explicação em texto. Nos EUA, praticamente desapareceu. O que cresceu muito foi a visualização de dados: transformar números em mapas e gráficos. A informação fica mais clara? A visualização é como escrever. Pode deixar as coisas mais ou menos claras.

Mas está melhor?

Pode avaliar-se de diferentes formas. Em termos de visitas, no jornalismo norte-americano as visualizações são muito populares. No The New York Times, algumas das histórias mais populares de sempre são visualizações de dados. No site FiveThirtyEight, a página mais vistas é sempre o modelo de previsões das eleições, que tem imensos gráficos. Quanto à compreensão, as conclusões são menos claras. A reação do público aos modelos de previsão [das eleições norte-americanas] foi muito reveladora. As pessoas ficaram surpreendidas por Trump ter ganhado. O FiveThirtyEight dava 30% de probabilidades a Donald Trump e as pessoas interpretaram como se Clinton tivesse 100% de hipóteses de ganhar.

Isso é um problema de quem produz a informação ou de literacia estatística?

Os dois. É responsabilidade do jornalista explicar as coisas o mais claramente possível, e naqueles casos eu acho que isso foi feito. Eles alertaram que 30% não é 0%. Agora, eles mudaram um pouco e tentaram deixar isso ainda mais claro: em vez de dizerem 30%, eles passaram a dizer que há 1 hipótese em 3. Temos de usar metáforas físicas. Explicar que é como lançar um dado e sair um 1 ou um 2.

A minha área é economia, onde é bastante sedutor utilizar visualização de dados. É uma das áreas de onde se podem retirar mais vantagens?

A visualização pode ter muitos objetivos. Um deles é tornar as informações quantitativas mais fáceis de absorver. O problema é quando o resulta em visualizações demasiado simples. Elas não servem para simplificar as histórias, mas para as aprofundar. Por exemplo, nós adoramos usar médias. No entanto, ao fazê-lo podemos estar a esconder que existe uma grande variedade de valores. A responsabilidade dos jornalistas é encontrar o nível de detalhe necessário para que o leitor seja capaz de compreender a informação.

Quais são as principais críticas que faz às visualizações?

Uma delas já referi: a simplificação excessiva. Outra é não falar da incerteza. Apresentar apenas um número, esquecendo que tudo o que está relacionado com ciências sociais, como a economia, tem incerteza. Nunca mostramos isso, e é perigoso. Numa sondagem, se o candidato X tem 49% e o candidato Y tem 48,5%, diz-se que o candidato X está a ganhar. Não se pode dizer isso. Não se pode! Em economia, se houver um número positivo de emprego, tem de se contextualizar e ver a série temporal. Pode ser apenas ruído.

As infografias podem ser uma arma de desinformação mais eficaz do que um texto?

É um ponto importante. A informação visual é normalmente tomada como mais objetiva, o que obriga a uma maior responsabilidade. A maior parte dos gráficos que desinforma foi criada com as melhores intenções, não com o objetivo de mentir. Estás distraído, não sabes, não consultas as fontes adequadas… A quantidade de gráficos criados para desinformar propositadamente é muito menor. É um problema, mas a minha preocupação não é tanto os que querem mentir, mas os que têm boas intenções e criam um gráfico duvidoso.

Um exemplo que se costuma dar é o mapa das eleições norte-americanas.

É um mapa enganador. Não porque esteja mal feito… É um bom exemplo para falar de profundidade [de análise]. É necessário mostrar mais coisas além desse mapa. É preciso mostrar o mapa, falar do colégio eleitoral, do voto popular…

Donald Trump pendurou na Sala Oval o mapa que mostra as vitórias que teve por condados. Em mais do que uma ocasião – sondagens, fotos de comícios –, o Presidente dos EUA tem usado dados e visualizações duvidosas a seu favor. Para um público muito tribalizado, uma imagem pode simplesmente servir para reforçar preconceitos?

É um dos problemas de que falo nas palestras. Uma imagem que está bem-feita pode enganar simplesmente porque gostamos de projetar nelas aquilo em que já acreditamos.

Os problemas normalmente são mais estéticos ou de tratamento de dados?

São todos. Que dados são apresentados? São representativos? É preciso ler a metodologia. Os dados estão bem representados? Os eixos do gráfico distorcem os dados? O mapa mostra bem a realidade? E, depois, há o leitor que, mesmo com todos estes esforços, pode ler demasiado no gráfico. Como lidar com isso? Não faço a mínima ideia, mas é um problema importante.

Por vezes, os jornalistas também estimulam essa interpretação abusiva.

Sim, porque queremos muito ver essas conclusões. Há uma correlação famosa entre consumo de chocolate e prémios Nobel, a partir da qual se infere que é o consumo de chocolate que faz ganhar mais prémios. Não é. O gráfico está a mostrar algo verdadeiro: a correlação entre chocolate e prémios Nobel, mas não a causalidade entre os dois.

Como podem os jornalistas proteger-se de um gráfico seu ser cortado, descontextualizado e ganhar nova vida numa rede social?

Não podem. Não é essa a sua responsabilidade. No mundo da tecnologia, colocou-se muita ênfase no criador das ferramentas. Nunca se fala da responsabilidade do utilizador. Como se ele fosse uma criança. Se usar mal, a responsabilidade é dele. Li uma frase há pouco tempo: “As pessoas têm a responsabilidade de se tornarem mais inteligentes”. Não expressar uma opinião sem alguma evidência. Temos de usar a informação que recebemos de forma responsável, tal como estamos obrigados a conduzir um carro de forma responsável. A responsabilidade não está tanto no produtor do aparelho mas sim na pessoa que o usa.

Faz sentido haver uma dimensão de literacia de informação no sistema de ensino?

Não precisa de ser uma disciplina, mas uma questão mais ampla, de educação cívica. Caso contrário, a responsabilidade é sempre dos outros: do Estado, dos imigrantes, da tecnologia… De todos, menos minha. Sou simplesmente um átomo à mercê dos ventos.

Como se enquadra a infografia num mundo dos jornais com grandes dificuldades financeiras?

Sei que os gráficos são populares. Mas formar departamentos enormes para criação de gráficos? Até pode ser contraprodutivo. É necessário haver especialistas, mas é mais importante que qualquer pessoa da redação saiba fazer um gráfico de barras ou de linhas.

Há resistência por parte dos jornalistas, por acharem que isso é trabalho de designers?

Sim, há essa resistência, mas é errada. Não é diferente de escrever. Se não quer acreditar que é jornalismo, tudo bem. Mas daqui a 5 ou 10 anos vai estar fora do mercado de trabalho.

Um jornalista que comece agora a carreira tem de saber programação?

Qualquer jornalista tem de ter um conhecimento mínimo sobre como lidar com números, fazer um gráfico e ter alguma sofisticação visual. Nem toda a gente tem de aprender código, mas saber as ideias básicas de código, sim. É o que está por detrás da web. É o equivalente, há algumas décadas, a não saber utilizar uma máquina de escrever. Se um jornalista resiste a ter esse nível de conhecimento, então não merece ser jornalista.

A que devemos estar atentos na visualização de dados?

Há muitas mudanças a ocorrer. Há muito mais gráficos adaptados ao Twitter e Instagram; gráficos animados, alguns deles narrados; e experiências com realidade aumentada. Estou a trabalhar com uma equipa nos EUA que está a desenvolver uma ferramenta para sonorizar os dados. Transforma um gráfico de linhas em sons. E, depois, há cada vez mais ferramentas gratuitas. Dá-me esperança na democratização [deste conhecimento]. Perceber que não é magia e que, quando se aprende, a sua capacidade de informar aumenta massivamente.