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Mais confiança pode catapultar mulheres nos negócios

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The Martinhal Entrepreneurship Event 2019

JOSE CARLOS CARVALHO

Às mulheres não faltam competências técnicas nem experiência para singrar no mundo dos negócios: falta terem menos medo de falhar. Aos homens, falta reconhecer que a diversidade é uma vantagem

Foi de um painel propositalmente composto por homens que vieram as primeiras críticas aos próprios homens, e alguns conselhos para as mulheres que procuram investimento para os seus projetos: “Primeiro, acho que é injusto pedir às mulheres que ajam de forma diferente dos homens”, começou por dizer Pedro Santos Vieira, da venture capital 500 Startups. “Todos temos que ser profissionais no que fazemos, seja a pedir financiamento, a dá-lo ou a criar uma empresa. Acho que os conselhos devem ser dados a quem investe, aos homens investidores: aos particulares, diria que temos que ter noção de que as mulheres não se sentem tratadas da mesma forma! Portanto, não ponham as mulheres em situações em que possam sentir-se desconfortáveis. Tenham atenção a escolher o lugar onde vão reunir, como decorre a conversa, como falam. O meu conselho para os fundos de investimento é de que contratem para a diversidade e para ter os melhores, porque isso vai acabar por impactar o resultado. Tenham noção de que homens e mulheres têm diferentes formas de ver o mundo. E de que uma equipa de investidores deve ser representativa da sociedade. Essa representação só é possível havendo diversidade”.

O investidor falava durante o The Martinhal Entrepreneurship Event, que decorreu esta quatra-feira, 3 de abril, no Hotel Martinhal de Cascais. Pelo terceiro ano consecutivo o grupo Elegant, detentor destas unidades hoteleiras, decidiu fazer uma conferência dedicada aos negócios e ao empreendedorismo, abandonando, no entanto, a anterior designação – Luxury Family Brand Event. Este ano, o tema foi a liderança e a gestão no feminino.

Na mesma linha de Pedro Santos Vieira, o inglês Colm Railley, que acumula vários anos de experiência como investidor em start-ups em redor do globo, decidiu partilhar uma experiência. Num recente processo de escolha de projetos para financiar, e para os quais o limite máximo de investimento era de 750 mil dólares, “os projetos apresentados por mulheres pediam, por norma, 300 mil. Todos os projetos submetidos por homens pediam o máximo”, revelou. “Não acho que as mulheres tenham um problema de habilitações, mas acho que têm muita dificuldade em conseguirem colocar-se no mercado”. E atirou em jeito de brincadeira: “Sabem como são os homens. Eles gostam de exagerar para conseguir uma posição. Talvez esse seja um caminho. Sejam mais confiantes!”, pediu.

No painel anterior, a checa Petra Ondrusová, que trabalha no Erste Group e gere um portefólio de cerca de 4 milhões de euros e uma equipa de 200 pessoas, lembrava as dificuldades do regresso ao trabalho, sobretudo numa carreira exigente na área financeira, depois da maternidade. “Nessa altura percebi que se eu realmente queria ser boa no trabalho e em casa, teria que abdicar de algo: tinha que delegar mais, dar à minha equipa espaço e responsabilidade, e ter noção de que não podia fazer tudo”.

A segunda parte do encontro, que durante um dia inteiro reuniu especialistas e curiosos de vários países, foi dedicada sobretudo a mulheres que, depois da maternidade ou por causa dela, decidiram abrir o seu próprio negócio. Num painel que juntou três norte-americanas (Jodie Pattrerson, Anna Wallack e Latham Thomas) com negócios intimamente ligados à maternidade, a mensagem foi unânime: sejam honestas no que querem para a vida, façam aquilo em que acreditam e defendam sempre os vossos valores. Para as três empreendedoras, conseguir um equilíbrio entre a família e a realização profissional deu o mote para mudarem de vida, e garantem ser hoje pessoas mais felizes.

A brasileira Thaya Marcondes e a irlandesa Jennie McGinn falaram sobre a importância de sair da zona de conforto e de falhar nos negócios para aprender, respetivamente. Por seu lado, a inglesa Charlie Rosier partilhou a história do negócio que criou para conseguir suprir uma necessidade sua: um co-work com creche integrada que vende pacotes flexíveis a pais que querem trabalhar e estar perto dos seus filhos, sem terem que pagar os proibitivos preços que, em Londres, se praticam nos infantários.

A mensagem das empresárias mais experientes, durante todo o evento, foi também ela unânime, e sumarizada por uma frase repetida por Chitra Stern de cada vez que intervinha: tenham confiança, arrisquem, sejam persistentes, pediu. Numa altura em que o papel da mulher no mercado de trabalho está cada vez mais na agenda, o Martinhal quis juntar-se à discussão trazendo a Cascais diferentes pontos de vista e experiências de vida, que poderá ler em detalhe na edição de maio da revista EXAME.