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Tiago Freire

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DIRETOR DA EXAME

Almoços grátis e soluções fáceis

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Tiago Freire

Há 20 anos, o euro chegava às nossas vidas acompanhado de uma fanfarra que, vista à distância, até roça o vagamente ridículo. Em tempo de balanço, valeu a pena?

Com a moeda, uma moeda única, Portugal dava um passo de gigante no aprofundamento da sua relação com a União Europeia. Quem se lembra de, pela primeira vez, ter ido a outro país europeu sem necessidade de trocar dinheiro certamente guarda essa satisfação como um sinal de progresso e de elevação.


Tanto tempo depois, e com tanto que nos sucedeu pelo caminho, a data redonda pede-nos irresistivelmente que façamos um balanço, e é isso que procuramos fazer na última edição da EXAME, que tem na análise aprofundada uma das suas mais gratas missões.


Ainda magoados com o ajustamento, os tempos de chumbo da Troika, os impostos (que nunca mais descem, diga-se), com um certo autismo de um centro europeu que continua a parecer-nos demasiado frio, longínquo e desinteressado da nossa realidade, o campo é fértil para avaliações negras e para coisas muito piores e mais graves, como a manipulação do descontentamento pela pena da demagogia.


O euro trouxe-nos muitas coisas boas. E outras más. Umas ligadas às outras, curiosamente. Trouxe-nos uma maior vigilância, perda de soberania em vários domínios que não apenas o monetário, competitividade, concorrência, menos quick fixes e uma maior obrigação de disciplina, que não é o nosso forte.


Com a entrada no euro, mergulhámos “de bomba” na piscina dos crescidos, ainda que não fôssemos grandes nadadores. Fizemos uns brilharetes, chegámos a chapinhar alegremente como iguais aos grandes, mas afogámo-nos na nossa própria fragilidade.


É fácil culpar a adesão ao euro de todos os nossos problemas. É fácil mas não é correto. A nossa propensão para nos metermos em sarilhos é longa e repetida, muito antes de alguém ter inventado o infeliz ECU.


Há muito de errado no funcionamento do euro, nomeadamente a nível político e a nível burocrático. Daí que a discussão e a reflexão sejam importantes, sem tabus. Mas, tal como temos visto com a questão do Brexit, o debate e a troca de ideias devem ser responsáveis e profundos, evitando promessas grandiosas mas vazias, que no fim do dia têm sempre os mais fracos como as principais vítimas.


As soluções fáceis são tão tentadoras como os almoços grátis. Mas dos últimos diz-se que não existem, e das primeiras estamos fartos, porque na realidade não costumam resolver grande coisa.

Tiago Freire

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