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Os riscos que não queremos antecipar

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António Nogueira Leite

A juntar à nova fase do ciclo económico há factores específicos de risco a nível internacional que, confirmando-se, poderão apanhar Portugal numa situação de grande fragilidade

Há pouco mais de um ano, no World Economic Outlook de 2017, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertava para a possibilidade de cenários de elevado risco e difícil controlo, em função da evolução que até à data se tinha vindo a registar nos mercados financeiros globais e da postura que os bancos centrais mantiveram nos anos precedentes. O FMI não estava a falar de cenários de realização imediata, mas a verdade é que, para uma economia como a portuguesa, há várias conjugações de cenários que, materializando-se em simultâneo, poderão levar a uma situação ainda bem mais grave do que a que vivemos no início desta década. Não falo apenas de impactos isolados, como os efeitos orçamentais da alteração da política monetária, as implicações da mesma sobre empresas ainda excessivamente endividadas, do impacto do Brexit sobre as exportações, da dificuldade em levar a cabo a necessária reforma da zona euro, das dificuldades que a contestação social inorgânica e o populismo crescente colocam à prossecução de reformas económicas essenciais, dos impactos da guerra comercial entre blocos sobre o desempenho económico global. Falo, outrossim, da elevada probabilidade de nos próximos anos enfrentarmos uma combinação negativa de um subconjunto destas múltiplas ameaças que pairam sobre todos nós. No seu estado actual, a economia portuguesa não está preparada para os enfrentar sem danos muito substanciais. Isto é, os efeitos económicos e sociais poderão ser devastadores.


A imparável e longa valorização de muitos activos que durou até 2017 e só em 2018 começou a ser revertida para algumas classes, a política monetária fortemente expansionista que foi seguida durante anos e o grande endividamento de certas economias como a portuguesa, são, por si só, factores que, em determinadas conjugações, podem criar uma crise de repercussões difíceis de antecipar na sua magnitude e na sua duração. Além disso, e no nosso caso concreto, há que somar os já referidos riscos específicos da Zona Euro e, mais genericamente, da fragilidade política em muitos dos mais importantes países europeus, para já não falar dos factores que especificamente se prendem com Portugal e o imobilismo reformista a que chegámos, na administração pública, nas empresas públicas, nos mercados e na sua
regulação.


Uma economia como a portuguesa será fortemente afectada no caso de os riscos acima elencados, mesmo se apenas os de carácter geral, se materializarem: somos uma pequena economia aberta e integrada nos mercados internacionais, mantemos muitas das debilidades estruturais tanto nos mercados de factores como de bens e serviços, o sistema financeiro ainda se encontra em recuperação e com importantes desafios concorrenciais e o endividamento das empresas não financeiras e do Estado ainda é muito importante. A economia europeia já atingiu o pico do ciclo de crescimento e a política monetária deverá mudar de forma clara nos próximos meses. Mesmo sem grandes convulsões na Europa e sem que a guerra comercial entre numa escalada incontornável, teremos um impacto importante nos juros da dívida do Estado e, pela mesma razão, uma pressão sobre as contas das empresas mais endividadas. A estes impactos há que juntar os efeitos sobre o orçamento de um menor crescimento económico e a inevitável pressão da falta de investimento público e de anos de contenção irracional nas despesas operacionais. Ou os portugueses aceitam uma ainda menor qualidade da prestação dos serviços públicos ou a necessidade de gastos correntes e de investimento público aumentará de forma incontornável nos próximos anos. Isto é, a simples desaceleração económica e o passar de mais um ano sem investimento nem reestruturações nos serviços públicos colocarão imensas pressões sobre as políticas orçamental e fiscal. Mesmo no cenário em que, contrariamente à evidência histórica, não haja desmandos na despesa pública em ano eleitoral.

Se estes riscos, que não são mais do que o caminho natural da economia na fase do ciclo em que estamos a entrar, já colocam como urgente a tomada de medidas de prevenção, que ninguém por ora parece defender ou sequer contemplar, imagine-se o que esperar se, por mero exemplo, a crise italiana se materializa num contexto de descontrolo político ou se as dificuldades que hoje se sentem no plano político e social em França levam a um abrandamento mais brusco da economia europeia e, consequentemente, da portuguesa. Ninguém parece querer discuti-lo, nem sequer a oposição. Mas a verdade é que não é por ignorarmos os riscos e os desafios que garantimos um seguro contra os mesmos. E, mesmo com um desenlace favorável de muitos deles, parece irónico mas o risco maior ainda será o de manter a actual postura de adormecimento perante os cenários mais difíceis que inevitavelmente se nos vão colocar em breve. Talvez só depois de Outubro de 2019. Mas em breve.

António Nogueira Leite

António Nogueira Leite

Administrador da HipogesIberia e professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa