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Juncker: “Não fomos suficientemente solidários com a Grécia”

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LUDOVIC MARIN/ Getty Images

Os eurodeputados estão hoje a celebrar os 20 anos da Zona Euro, numa cerimónia marcada pela identificação das lacunas da moeda única por parte dos responsáveis europeus

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Este ano marca o vigésimo aniversário da Zona Euro. Convidados a reflectir sobre estas duas décadas, os mais altos quadros europeus vieram a Estrasburgo elogiar o nascimento da moeda única, mas assumiram as falhas cometidas e a construção que ainda está por terminar.

Talvez nenhum tenha sido tão assertivo como Jean-Claude Juncker. O presidente da Comissão Europeia reconheceu que os líderes europeus cometeram alguns erros na gestão da crise, em especial na resposta aos problemas gregos.

“Talvez tenhamos tomado algumas decisões pouco reflectidas, mas não porque queríamos punir quem estava no desemprego, mas lamento que tenhamos dado demasiada importância ao FMI. Se a Califórnia tiver dificuldades, os EUA não se dirigem ao FMI”, afirmou durante a sua intervenção na comemoração do aniversário da moeda única, no Parlamento Europeu. “Não fomos suficientemente solidários com a Grécia. Nós insultámos a Grécia. Agora regozijo-me por ver a Grécia e Portugal, não digo num lugar ao Sol, mas a ocuparem o seu espaço de direito na democracia europeia.”

Sobre as dificuldades estruturais da Zona Euro, Juncker admitiu que existem “debilidades”. “Não fui um daqueles que defendeu um sistema de governação única e isso foi uma debilidade. A esse nível continuamos a ter uma fraqueza.”

Minutos antes, Mario Draghi também assumiu que a união “não está completa” e que o trabalho dos responsáveis europeus é “completar o que começou há duas décadas”.

A cerimónia terminou com a intervenção de Mário Centeno que, no papel de presidente do Eurogrupo, notou que “as lacunas [do euro] ficaram expostas” e que, mesmo com as reformas mais recentes, o trabalho ainda não está concluído.

Celebrar a moeda

Claro que grande parte das intervenções serviu para lembrar as conquistas da moeda única e não para a criticar. Jean-Claude Trichet, segundo presidente do Banco Central Europeu, lembrou os sucessos do euro, nomeadamente a sua estabilidade (inflação controlada) e credibilidade (é a segunda moeda mais usada em todo o mundo). “Os países do euro no momento da falência do Lehman Brothers continuam a ser membros, incluindo a Grécia. Não creio que precisemos de mais argumentos para a solidez do euro”, sublinhou.

O seu sucessor, Draghi, observou que as economias europeias estão hoje integradas a um nível inimaginável no final dos anos 90. “O euro cimentou o mercado único”, frisou. “O euro garantiu duas décadas de estabilidade de preços, mesmo em países onde essa estabilidade era uma memória esquecida. Com base nessa estabilidade, as empresas investem e criam emprego.”

Juncker também elogiou os esforços destes vinte anos. “Foram muitos aqueles que consideraram que éramos loucos e que uma moeda única nunca poderi funcionar em países tão diferentes. Mas estamos longe desse abismo e podemos constatar que o processo foi um êxito.”

O jornalista viajou a convite do Parlamento Europeu.