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Paul Smith: Brexit é um “pesadelo político” e os últimos dias “tornaram os extremos mais prováveis”

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Paul Smith, presidente executivo do CFA Institute

Luís Barra

O presidente do CFA Institute, que tem mais de 170 mil profissionais de investimento certificados em todo o mundo, considera que Portugal pode atrair o segmento ‘boutique’ de gestão de investimentos no âmbito do Brexit.

Pesadelo. Tragédia. Bizarro. Exaustão. São apenas quatro das palavras que o britânico Paul Smith, presidente executivo do CFA Institute, usa para caracterizar o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, que nos últimos dias entrou num impasse com o adiamento da votação do acordo com Bruxelas na Câmara dos Comuns.

“Estamos numa situação impossível porque qualquer plano que seja colocado ao povo britânico será rejeitado. É um pesadelo político, não há maiorias para nada,” afirma em entrevista à EXAME o responsável da instituição que certifica profissionais da área da gestão de investimentos em todo o mundo. “Os acontecimentos dos últimos dias tornaram mais prováveis os extremos - um novo referendo ou a saída da União Europeia sem um acordo.”

No dia em que a primeira-ministra britânica Theresa May enfrenta um voto de desconfiança no Parlamento britânico – desencadeado por 48 cartas de deputados conservadores que questionam a sua liderança -, o londrino não exclui qualquer cenário para o processo, incluindo uma “terceira via”, o Reino Unido escolher não sair (uma decisão que o Tribunal Europeu de Justiça diz poder ser tomada unilateralmente). “O que necessariamente não quererá dizer que não saiamos em qualquer ponto no futuro, mas dizendo que, por agora, não estamos prontos,” concretiza.

A ausência de maiorias convencionais pode, no entanto, ter desfechos “bizarros”, avisa. “Tanto os que defendem a presença como os que querem a saída da UE podem concordar em fazer outro referendo, mas por razões diferentes. E ambos podem decidir sair sem acordo, por razões diferentes. Pode haver uma maioria para um dos polos porque há demasiadas pessoas a discordar. É uma posição muito estranha,” justifica.

Os efeitos da saída – aprazada para 29 de março do próximo ano – continuam a fazer-se sentir de forma transversal na indústria de gestão de investimentos no Reino Unido, como na generalidade dos setores económicos. À incerteza que impede ou adia decisões de investimento, soma-se o efeito de transferência de empresas do seu negócio para fora de Londres. "A tragédia do Brexit, concorde-se com ele ou não, é que condenou o Reino Unido a pelo menos uma década de crescimento abaixo do potencial,” afirma Paul Smith.

Poderá Portugal recolher parte dos “cacos” deste processo, como ainda esta semana a estrutura de missão Portugal IN criada para captar investimento no âmbito do Brexit tentou fazer em Londres, vendendo o país como “destino apelativo para instituições financeiras de gestão de ativos”?

“Haverá algumas oportunidades, alguns gestores mudar-se-ão para Portugal. É um sítio maravilhoso para viver, para trabalhar. Mas será mais no segmento ‘boutique’ de gestão de investimento do que entre as maiores,” salienta o CEO do CFA Institute. “No ‘major end’, onde o acesso a infraestrutura e talento humano é importante, Portugal não tem a escala para conseguir apoiar as maiores empresas de gestão de ativos,” conclui.