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O BCE não sabe fazer previsões e isso é um problema

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© Kai Pfaffenbach / Reuters

O BCE tem demonstrado uma preocupante incapacidade de prever a evolução dos preços na economia da moeda única. Um problema, uma vez que essa é a principal bússola para decidir quando retirar os estímulos monetários e voltar a subir os juros.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Se fosse um sniper, talvez fosse altura de ajustar a mira. Nos últimos cinco anos, as previsões do Banco Central Europeu (BCE) têm sido consistentemente incapazes de acompanhar a realidade. Num artigo publicado na semana passada no ‘think tank’ Bruegel, o economista Zsolt Darvas é claro: “as previsões do BCE têm provado estar sistematicamente incorretas: a inflação subjacente permaneceu relativamente estável em 1%, apesar da previsão teimosa de um aumento, enquanto a taxa de desemprego caiu mais rápido do que o estimado.”

Darvas olha para cinco anos de previsões falhadas da instituição com sede em Frankfurt e o que isso pode significar para a capacidade do banco para controlar a inflação. O historial do BCE pode ser resumido no seguinte gráfico:

A linha vermelha mostra a evolução da inflação subjacente ou “core” da zona euro (que exclui energia e bens alimentares não transformados). As diferentes linhas coloridas mostram a previsão que o BCE fez naquele momento para os meses seguintes. Como é fácil ver, essa linha vermelha – a realidade – ficou sempre muito longe da previsão do banco.

“A imagem 1 mostra que o BCE tem teimosamente previsto um aumento da inflação subjacente pelo menos desde dezembro de 2013, a primeira vez que a previsão de inflação subjacente foi tornada pública. Todas as previsões desde essa altura se mostraram sistematicamente incorretas: a inflação subjacente continuou a cair entre dezembro de 2013 e o início de 2015 e o seu aumento para 1% desde o arranque de 2015 é minúsculo em comparação com o significativo avanço das previsões em cada trimestre”, escreve Zsolt Darvas.

Algo semelhante vai acontecendo com a previsão da taxa de desemprego, que tem surpreendido bastante os economistas do BCE, caindo bastante mais rápido do que as estimativas.

Porque é que esta incapacidade de acertar nas previsões é preocupante? Porque é com base nelas que estão a ser tomadas decisões centrais para a economia da zona euro, agora que chegámos ao momento de normalização da política monetária - a compra de ativos termina este mês - e de afastamento dos juros dos mínimos históricos em que se encontram (espera-se uma primeira subida no final de 2019). Passos que apenas são dados se acreditarmos que a inflação está a regressar ao nível desejado pelo BCE: perto de 2%.

“Estas previsões, em conjunto com um renovado crescimento económico e queda da taxa de desemprego, constituem argumentos a favor de um passo importante de normalização da política monetária, nomeadamente o anúncio do fim da compra de ativos no final de dezembro de 2018. O timing da primeira subida de juros também pode ser influenciada pelas previsões”, aponta Darvas. Previsões, sublinhe-se novamente, que têm estado sempre erradas.

Além de desconfiarmos destas projeções para tomar decisões sobre política monetária, a incapacidade sistemática do BCE para colocar a inflação subjacente em 2% também nos deve fazer refletir, principalmente tendo em conta o gigante arsenal monetário que lhe foi atirado para cima. Embora tenham sido disparadas todas as armas, nem assim a inflação atingiu a meta (Darvas suspeita que pode ter a ver com o reforço da participação laboral).

Independentemente de o caso europeu ser mais semelhante ao Japão ou ao EUA, o investigador vê “um risco significativo de não ser atingido num futuro próximo o objetivo de [inflação subjacente] perto de 2% na zona euro”. Caso isso se confirme, poderá obrigar o BCE a uma mudança sísmica da sua política que, pelo menos nesta altura, parece muito longe dos seus planos.