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Science 4 You: Fazer dinheiro a brincar

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Diana Tinoco

O fundador e CEO da Science4You tem 31 anos e um sorriso que não lhe sai do rosto. Afável, descontraído e muito exigente, acredita que fez a escolha certa quando abraçou o projeto da startup em detrimento de um percurso na banca de investimento. Este texto foi originalmente publicado na edição de julho de 2018 da revista EXAME

É na fábrica de Loures, em pleno MARL – Mercado Abastecedor da Região de Lisboa – que se erguem os 12 mil metros quadrados onde a Science4You produz a maior parte dos seus brinquedos, os embala, e de onde saem um pouco para todo o mundo. No andar de cima juntam-se os escritórios da administração, os laboratórios e a parte de inovação que fez desta startup, nascida de um projeto de faculdade, uma empresa de sucesso no panorama nacional. “Eu gosto de lhe chamar startup. Primeiro, porque está na moda [risos], e depois porque se a Google e o Facebook podem ser startups, a Science4You também pode”, responde, divertido, Miguel Pina Martins, fundador e presidente-executivo da companhia.

Estamos no showroom da Science4You – “quando a empresa nasceu, foi num espaço que era um décimo disto” – rodeados de caixas coloridas e brinquedos com os quais temos vontade de brincar. Há laboratórios para aprender a fazer maquilhagem, fábricas de sabonetes, vulcões, fábricas de chocolate, estufas de produção de minimelancias e de morangos… uma panóplia de opções que juntam ciência e divertimento, e que fizeram a empresa, agora a celebrar uma década de vida, faturar 21 milhões de euros no ano passado.
Atualmente, emprega 400 pessoas – no Natal esse número duplica – e está presente em dezenas de países. Líder de mercado como maior produtor de brinquedos em Portugal, tem escritório em Espanha, e o Reino Unido ocupa o terceiro lugar no pódio das geografias que mais contribuem para a sua atividade. Há dois anos, a companhia contratou John Harper, antigo dirigente da Hasbro, o líder mundial de venda de brinquedos, para fazer a consultoria da expansão internacional: pagava-lhe 2 500 euros por dia e foi, nas palavras de Miguel na altura, “o melhor investimento” que podia ter feito. Objetivo último? A entrada da empresa em bolsa. “Mas isso é um sonho, tipo unicórnio”, atira com uma gargalhada sonora. “Ainda temos de crescer muito para pensar nisso.”

Objetivos que fazem sentido ao fundador da companhia? Um exit intermédio. Abandonar, de vez, a Science4You, “seria difícil”, confessa, antes de admitir que a vê como se fosse um filho seu. “Mas se não for eu a dizê-lo, não parece tão lamechas”, conclui a sorrir.

A história de como apareceram estes brinquedos em jeito de escola é sobejamente conhecida: em 2008, no âmbito do seu projeto de final de curso, Miguel Pina Martins viu calhar-lhe, em sorteio, a obrigação de desenvolver um plano de negócios para uma ideia de kits de Física. Depois de ter achado que era inviável, abraçou a missão – na verdade, ou resolvia o problema ou chumbava à cadeira – e traçou o plano com o grupo de colegas que tinha formado.

Meses depois de ter conseguido um 17 na licenciatura em Finanças, no ISCTE, agarrou em 1 250 euros de poupanças, foi bater à porta dos antigos professores e vendeu rifas para conseguir mais capital. Com a ajuda de 55 mil euros de um fundo de capital de risco e a consultoria da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, criava a Science4You. Os seus antigos colegas optaram por outras vias profissionais – o próprio Miguel ainda passou pela banca de investimento, mas só demorou quatro meses a perceber que não era nada daquilo que queria. Arregaçou as mangas e tornou-se um one man show: fazia tudo, desde a conceção dos brinquedos até ao design das embalagens – “era francamente mau. E estou à vontade para o dizer, porque era eu que o fazia”, atira com uma gargalhada. Ia porta a porta apresentar as criações, com uma carrinha cheia de brinquedos e um otimismo próprio da idade. Acredita que ter 21 anos facilitou a opção por correr riscos – hoje, casado, com dois filhos pequenos e um terceiro a caminho, essa decisão encontraria, certamente, mais entraves. E nem o facto de Portugal estar à beira de uma crise financeira – cujo expoente máximo se sentiria uns anos depois, com a chegada do resgate financeiro internacional – o fez baixar os braços. Aliás, talvez até tenha ajudado a erguê-los ainda mais alto.

Diana Tinoco

Mercado difícil

Miguel repete o conselho durante a nossa conversa: “Aos empreendedores que me estiverem a ler, recomendo vivamente que ‘born global’ [nasçam já com perspetivas internacionais, numa tradução livre]. Portugal não é um sítio fácil de começar. Não é o mercado mais fácil do mundo. Foi mais fácil para nós entrar no Reino Unido, por exemplo, do que aqui.” O problema, garante, não é o público, que considera bastante fiel a marcas e atento a produtos nacionais. A questão é a estrutura do mercado, dominada por alguns grandes grupos e que dificulta a entrada de novos players. “Estamos dependentes das retalhistas”, apesar de poderem ter alguns espaços próprios. No entanto, sem as grandes cadeias, jamais conseguiriam ganhar escala.

Hoje, Miguel já não faz design, antes passa cerca de 80% do seu tempo a delinear estratégias, a trabalhar as relações com os investidores, a fazer contactos com clientes estrangeiros. Hoje, “há um Miguel mais maduro. Que sabe que gerir uma empresa de 50 mil euros não tem nada a ver com gerir uma empresa de 27 milhões” – o valor das vendas totais do grupo, contando com Espanha. Aprendeu a delegar, a não controlar processos e a confiar nas pessoas que estão ao seu lado. “Só controlo objetivos, de resto não acho que haja vantagem em andar a controlar a forma como as pessoas trabalham.” Tem atualmente seis braços-direitos que lhe facilitam a vida e lhe permitem ter tempo para se focar na visão global do grupo. “O diretor financeiro, o diretor de operações, e as pessoas responsáveis pelos departamentos de I&D, de vendas internacionais, de vendas nacionais e de vendas em Espanha”, elenca. “Não é uma passagem fácil de fazer, mas é inevitável.” E é desejável que as dificuldades continuem a aumentar, ainda que a um ritmo mais lento. “Começa a ser muito difícil continuar a escalar desta forma”, admite. No ano em que celebra dez anos de atividade, não acredita que consiga igualar o crescimento de 2017. “Principalmente este ano, em que vai haver desafios consideráveis para a indústria dos brinquedos, com o fecho das lojas da Toys’R’us, por exemplo.”

O empresário recorda ainda que a Hasbro perdeu 20% das vendas no primeiro trimestre, e que, apesar de a Science4You não dever ser diretamente afetada por esta instabilidade que se sente nos gigantes mundiais, há algum receio de contágio. “Estamos dentro da rede e temos parceiros que estão expostos – nós, particularmente, estamos bem –, mas pode haver questões na distribuição, por exemplo”, salienta. Seja como for, o primeiro trimestre do ano correu como era esperado – é sempre o mais desafiante, devido à “ressaca do Natal” – e o gestor está otimista em relação ao resto do ano.

A entrada nas prateleiras da Target e no catálogo da Amazon tem ajudado e, para o empresário, é sinal de qualidade e de reconhecimento do que a empresa tem feito. A Science4You conseguiu entrar na gigante norte-americana Target no início deste ano, após apenas um mês de conversações. Os resultados só influenciarão as contas deste ano, mas se acontecer como na Amazon – em que viram o seu slime a ser o sexto produto mais vendido no site –, está tudo bem encaminhado. E este início de ano ficou ainda marcado pela implementação do sistema SAP, o que foi possível devido ao acordo de financiamento assinado no final do ano passado com o Banco Europeu de Investimento (BEI) e que garantiu um investimento de 10 milhões de euros por parte da instituição, em troca de 8% do capital da startup, o que representa uma avaliação “bastante simpática”, admite.

Ensinar a fazer

Miguel não está particularmente preocupado com o crescimento galopante da digitalização, uma vez que, nota, “as pessoas querem é fugir do digital” quando se fala de brinquedos. Acredita até que, quanto mais as crianças derem importância às tecnologias, mais o seu mercado vai crescer, com os pais a quererem encontrar alternativas que impliquem criatividade, poucos ecrãs e uma componente didática.

A Sciene4You lança entre três e quatro novas referências por ano, sendo que o mercado nacional tem sempre mais oferta. Este ano, as novidades são a Ciência das Engenhocas, a Ciência Nojenta (“ou um nome parecido”) e as bombas de banho, revela o gestor, para quem as novidades são menos complicadas do que podem parecer: é só preciso agarrar nas coisas do dia a dia e torná-las divertidas e, acima de tudo, educativas. “A nossa fábrica de chocolate só é diferente das outras porque ensina a fazer o chocolate. Tudo o que tem que ver com a questão mais científica de cozinhar.” Atualmente, a parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa é praticamente inexistente, mas abundam os biólogos, bioquímicos e cientistas de áreas afins na empresa. O ritmo do mercado não se compadece com o da Academia e, portanto, foi preciso trazer o departamento científico para dentro da estrutura a fim de conseguir responder aos curtos ciclos dos produtos. “As loucuras, hoje em dia, duram muito, muito, pouco. Temos de ser muito rápidos a perceber o que vai ser tendência e fazê-lo ainda mais depressa”, diz, exemplificando com os spinners ou com os Pokémon Go – “foram loucuras que duraram três meses”.

As maiores dificuldades prendem-se, por isso, com o fluxo de caixa, sobretudo num mercado tipicamente sazonal, em que as vendas só disparam no final do ano. Seja como for, para Miguel Pina Martins a receita é simples – ainda que trabalhosa. O gestor acredita que para conseguir uma empresa de sucesso é preciso, acima de tudo, estar atento à sorte e trabalhar muito. “Eu tive a sorte de rifar o papelinho. Acho que é preciso termos sorte para agarrar as oportunidades. Mas também é importante não ter azar. Há doenças, há acidentes, há questões familiares… e isso ninguém pode prever. Depois é preciso trabalhar muito, muito.” Uma década após a fundação, a Science4You admite continua a ser um desafio “muito grande”, porque “é quase uma empresa nova de dois em dois anos. Em 2015, faturávamos 12 milhões. É muito diferente”, diz, antes de nos convidar a uma visita pelas linhas de montagem, onde embalagens coloridas vão ganhando corpo, frascos se enchem de essências e de produtos que permitirão criar espumas, fazer vulcões entrar em erupção, criar bâtons ou fazer chocolates. Aqui, a imaginação tem poucos limites.