Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Vieira da Silva: "Temos mais capacidade de adaptação a esta revolução tecnológica do que nas anteriores"

Exame

Diana Tinoco

O ministro do Trabalho perspetivou as mudanças que se avizinham no mundo do emprego nas próximas décadas. E avisou para as questões estruturais que ainda marcam a economia portuguesa.

É um futuro difícil de delinear mas, como certo, sabe-se que a nova revolução vai trazer alterações profundas à forma como trabalhamos e nos relacionarmos com o emprego. Uma economia pequena e aberta como a portuguesa terá de fazer valer-se de um trabalho cada vez mais qualificado, flexível e adequado às necessidades das empresas. E quanto mais depressa elas começarem a pensar e a transformar-se para o que aí vem, melhor.

"A nossa melhor caraterística não é investir na prospetiva. Há outras e se calhar muito importantes, como a capacidade de adaptação. Um melhor investimento no futuro seria importante, caso contrário seremos surpreendidos," adverte Vieira da Silva sobre a economia portuguesa. Esta foi uma das ideias deixadas sobre a evolução do emprego pelo ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, durante a entrega, esta quarta-feira, dos prémios das Melhores Empresas para Trabalhar 2018, promovidos pela revista EXAME em parceira com a Everis Portugal e a AESE Business School.

Na conversa que teve com Tiago Freire, diretor da EXAME, a propósito das transformações no trabalho, o ministro reconheceu que a discussão sobre como nos prepararmos para os próximos anos já está avançada em algumas economias. Como acontece na Alemanha, que tem em discussão o Livro Verde sobre o trabalho do futuro. Mas no resto dos países o caminho está por fazer. "Se olharmos para as agendas políticas e económicas da União Europeia encontramos uma presença escassíssima desses problemas. (...) É mais fácil encontrar essa discussão dentro das empresas e na negociação interna entre pequenos grupos do que de uma forma global."

O governante acredita, porém, que, apesar da ameaça de destruição de postos de trabalho - com os avanços no processamento da informação e na tecnologia dos materiais a poderem substituir trabalho humano pelo das máquinas - estamos todos hoje mais bem preparados para enfrentar as consequências da automatização e da entrada das máquinas do que o homem estava perante as dificuldades criadas nas revoluções anteriores.

O futuro e as questões estruturais de hoje

Entre as novas realidades que se podem desenhar está a redução drástica da dimensão do trabalho, a predominância de trabalho não humano na oferta de produtos e serviços e o impacto que isso tem no rendimento dos cidadãos. Não será precisa tanta gente para trabalhar, mas é preciso que todos continuem a consumir. Como resolver? Taxar os robots? Pôr quem ganha a pagar por quem não tem porque não pode trabalhar, através de um rendimento básico? "[Nesse modelo] quem trabalha distribui o excedente pelos restantes. É desejável?" - questiona. "É uma espécie de distopia, não tenho grande simpatia por esse modelo. Acredito mais de uma forma generalizada que a inovação que estamos a ter tem enorme potencial de criar empregos," acrescenta.

A par da transformação tecnológica, Vieira da Silva apontou o foco a questões estruturais como a escassez de mão de obra qualificada no País, a necessidade de encontrar outros modelos de aprendizagem contínua para quem está na segunda metade da vida ativa, ou a alteração profunda na estrutura demográfica, que leva a que nasçam menos portugueses em Portugal, quando na Europa são 17 000 nascimentos por ano e que vão mais tarde contribuir para essas economias. "Demorámos tempo demais a perceber o que estava a acontecer. Há dez anos, quando atingimos o pico de postos de trabalho, as pessoas com mais de 45 anos representavam 34% do mercado de trabalho; hoje são 43%," frisa, apontando que foi nesta faixa etária que se concentrou a recuperação da grande maioria dos mais de 300 mil novos empregos no País nos últimos três anos.

Perfil em evolução e um caminho a percorrer

A 18.ª edição das Melhores Empresas para Trabalhar distinguiu 100 firmas em 2018, tendo a Xerox Portugal, a Unbabel e a Edge sido consideradas as três com melhores resultados na análise feita e cujos resultados foram dados a conhecer numa sessão no auditório da AESE Business School em Lisboa.

"Não temos a menor dúvida que uma empresa que coloca as suas pessoas no centro tem claramente uma probabilidade de sucesso muito maior," argumenta Miguel Teixeira, CEO da consultora Everis Portugal, que salientou a evolução do perfil das empresas ao longo das últimas edições, aumentando a diversidade geográfica e aumentando o equilíbrio entre multinacionais e locais.

"Numa altura em que a tecnologia ganha espaço, há algo que é certo e perene: a liderança, que também faz as empresas serem diferentes umas das outras," salientou por outro lado a Dean da AESE Business School, Maria de Fátima Carioca. "Temos noção de que não existem empresas perfeitas. As que têm perceção que o equilíbrio vital dos colaboradores é importante acabam por ser as melhores empresas para trabalhar. É um caminho."