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O novo barão de Colares 

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José Carlos Carvalho

Com uma história de mais de 50 anos, o Casal de Santa Maria quer conquistar o coração dos portugueses ao elevar a qualidade dos vinhos. Este texto foi originalmente publicado na edição de agosto de 2018 da revista EXAME

É meio-dia de uma terça-feira de junho, mas Colares está com aquela neblina que tanto caracteriza a zona de Sintra. “É a nossa nuvem privativa”, diz, em jeito de brincadeira Nicholas von Bruemmer. Ao longe já é possível ver o mar, aponta-nos o empresário, mas “há duas horas nem se via o jardim”. Com lama dos pés à cabeça, pede licença para ir tomar um duche. A casa senhorial que se ergue nas nossas costas está em obras visíveis, mas os jardins chamam por uma visita. Nicholas tem pouco mais de 50 anos e uma sólida carreira em banca privada e gestão de fortunas. Foi presidente-executivo da Pelham Investments e vice-presidente do grupo Hansa, depois de ter passado por uma empresa de infraestruturas em Itália, onde foi responsável pelo programa de expansão internacional. Alemão de nascimento e suíço de educação e experiência profissional, para ele Portugal tem-se revelado um desafio na área dos negócios, admite com uma gargalhada. “Demorei, até perceber qual a estratégia que funcionava para conseguir ter as coisas feitas”, conta, já de camisa e calças lavadas, sentado no recém-reconstruído terraço da casa, que funciona também como loja dos vinhos nascidos na vinha mais ocidental da Europa.

Barão Bodo Von Bruemmer, 103 anos Em Portugal desde 1962, o suíço de origem russa quer viver mais dez anos para ter tempo de produzir um azeite de qualidade. Aos 96 anos, começou a fazer vinho pela primeira vez

Barão Bodo Von Bruemmer, 103 anos Em Portugal desde 1962, o suíço de origem russa quer viver mais dez anos para ter tempo de produzir um azeite de qualidade. Aos 96 anos, começou a fazer vinho pela primeira vez

A história dos Von Bruemmer e do Casal de Santa Maria remonta aos anos 1960, quando a propriedade foi comprada pelo barão Bodo von Bruemmer, avô de Nicholas, que se apaixonou por Portugal e pela região de Sintra em particular. Nascido nas antigas províncias do Báltico, que hoje conhecemos por Estónia, Letónia e Lituânia, Bodo e a sua família foram obrigados a fugir para a Alemanha durante a Revolução Russa. No entanto, seria na Suíça que viveria grande parte da sua vida de banqueiro, antes de trocar o país definitivamente por Portugal. Encontrou o Casal de Santa Maria escondido e em ruínas – o edifício principal data do início do século XVIII –, mas decidiu reconstruí-lo e adotá-lo como casa. À produção de leite juntou algumas galinhas e hortas, além de investir no magnífico jardim que ainda hoje faz as delícias de habitantes e visitantes da quinta. Depois do 25 de Abril, Bodo trocou as vacas pelos cavalos árabes e precisou apenas de cerca de dez anos para formar a maior coudelaria de cavalos árabes em Portugal, segundo conta a família. No final dos anos 1980, no entanto, a peste do cavalo ditaria o declínio do negócio e anteciparia a morte da sua mulher – a segunda esposa de Bodo von Bruemmer faleceria em 1994.

Mas só em 2006, aos 96 anos, é que o barão decidiu recuperar a produção de vinho deste terreno que hoje podemos visitar, e que já lá existira durante o século XIX. Recém-chegado de uma complicada cirurgia a que foi submetido na Suíça, Bodo dedicou os últimos dez anos da sua vida aos vinhos. Só porque gostava de os beber.

Quando o avô morreu, em 2016, Nicholas percebeu que chegara a hora de assentar arraiais em Portugal. O desafio para integrar o projeto já lhe tinha sido feito várias vezes pelo centenário barão von Bruemmer, mas Nicholas é pragmático: “Muitos cozinheiros estragam a sopa.” Vinha a Portugal várias vezes passar férias, gostava do País, adorava o avô, mas estavam em polos diametralmente opostos no que à gestão dizia respeito. “O meu avô enterrou aqui alguns milhões nos últimos anos”, confessa à EXAME. Desafiou a família – a mulher, espanhola, e os dois filhos – e mudaram-se para Sintra há cerca de um ano. Para Nicholas, foi a altura certa. Estava também ligeiramente cansado da vida na alta finança – “o dinheiro é ótimo, mas não dá toda a felicidade de que precisamos” – e depois dos 50 anos, achou que a hora de se dedicar a uma atividade diferente tinha chegado. Convenceu os filhos com a oferta de dois cães e a promessa de bom tempo – “quer dizer, se não estivermos em Sintra” – e a mulher tem-se dedicado totalmente ao projeto com disponibilidade e energia.

Nicholas sabia que teria de fazer obras de fundo na casa da família, que não sofria renovações desde o tempo em que o avô a comprou, mas não esperava o caos que se seguiu à morte do barão von Bruemmer. “Os canos rebentaram no dia a seguir. Parecia que a casa tinha, ela também, desistido de viver”, diz. Foi aí que começou a sua exasperação. “Os empreiteiros, em Portugal, têm alguma dificuldade em cumprir prazos…”, atira com um sorriso rasgado. Chegado da Suíça, habituado a um método de trabalho absolutamente metódico, teve de aprender a lidar com as características menos rígidas dos portugueses. “Gritar não funcionava. Dizer muitas vezes a mesma coisa também não. Percebi rapidamente que só metendo a mão na massa é que ia conseguir fazer isto”, continua, divertido. Reduziu significativamente a equipa que o avô tinha constituído – “tínhamos, claramente, pessoas a mais” – e como acredita “na liderança pelo exemplo”, está nos campos das 7h às 19h. Pelo menos. “É uma felicidade diferente a que sinto hoje, mas estou muito feliz.”

Teve de aprender a trabalhar nas vinhas, a conduzir máquinas agrícolas e a lidar com as burocracias nacionais, o que poderia ser um problema para quem geria milhares de milhões de euros em ativos num contexto diametralmente oposto. Mas Nicholas gosta de desafios. O primeiro é, precisamente, tornar a empresa mais “profissional”. Estima precisar de quatro anos e entre três a cinco milhões de euros para conseguir transformar o Casal de Santa Maria no produto que quer apresentar ao mundo. Vinhos de qualidade superior que sairão à conquista do mercado nacional.

“É um disparate pensar que posso ganhar com a exportação”, atira. “Conheço demasiado bem o mercado internacional para saber que é em Portugal que consigo criar valor. Posso vender online, porque isso posso fazer sozinho”, agora investir em distribuição internacional seria demasiado.

Para Nicholas, a história do Casal de Santa Maria é a sua grande mais-valia. “Quando contamos às pessoas a história da propriedade desta família, há um carinho imediato. Não são muitas as empresas que podem contar tantos anos e episódios de vida.” E é isso que tenciona explorar, juntamente com uma aposta clara em apenas seis ou sete castas, ao invés das dezenas que era hábito cultivar-se ali. “O meu avô tinha 23 castas. Já baixei esse número para 14 ou 15, mas é para continuar a reduzir”, garante. “Não posso cultivar castas só porque gosto delas. Tenho de apostar na qualidade.” E é rápido a elencar aquelas em que vai apostar: Malvasia, Ramisco, Touriga Nacional, Arinto, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Merlon e Pinot Noir. Poderá haver mais, mas serão escolhidas a dedo e têm de dar provas de que conseguem fazer os melhores vinhos. Atualmente, o Casal de Santa Maria conta com 14 referências, sendo seis delas monocasta.

Uma pesada herança
Não é preciso conhecer Bodo von Bruemmer para perceber que a sua presença dificilmente se desvanecerá um dia. Na casa senhorial dramaticamente decorada, os talheres de prata têm as suas iniciais.

A expressão “o meu avô” é dita incontáveis vezes com um brilho no olhar e um sorriso, por Nicholas. Nos jardins, a história é mais sobre Bodo do que sobre a propriedade. Quando nos deparamos com milhares de pés de roseiras, é novamente de Bodo, a presença. Plantou-as em homenagem à mulher, e elas são a melhor proteção para os quatro hectares de vinha que se desenvolvem abaixo – até 2021 deverão ser oito, aos quais se juntarão os três que já detêm atualmente junto à Praia da Adraga. O barão, que viveu mais de 100 anos e que sobreviveu a duas guerras mundiais, a um cancro no pâncreas e às vicissitudes de uma vida passada longe da sua terra natal, é bem conhecido da população de
Colares, que evitou, por exemplo, que a sua propriedade fosse desmembrada após o 25 de Abril. Nicholas deverá conseguir, com mais facilidade do que o avô, fazer do Casal de Santa Maria um negócio de sucesso.

É metódico, organizado, focado, tem um plano a cinco anos e experiência mais do que suficiente para colocar os seus vinhos nas bocas do mundo. Resta saber se conseguirá ser tão paradigmático quanto Bodo, o barão que tomava decisões com base naquilo que lhe dizia um pêndulo. Para já, todos os olhos estão postos no “novo” barão de Colares, que promete rosés capazes de competir com os italianos, Sauvignon Blancs tão bons quanto os franceses e Pinot Noirs com uma nota de salinidade que só o clima de Sintra permite.