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IKEA: projeto de sustentabilidade social chega a mais de 10 mil pessoas

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Açucareiro Välgorände

A marca sueca apresentou uma coleção exclusiva desenvolvida em parceria com artesãos romenos e tailandeses

Há cerca de seis anos a Ikea decidiu levar à letra as palavras de Patrick Geddes, o famoso urbanista escocês que viveu no século passado. A empresa sueca criou duas parcerias com projetos sociais que promovem a independência e a formação de artesãos: o Projeto de Desenvolvimento Dai Tung (Tailândia) e o Mesteshukar ButiQ (Roménia). Com a ajuda dos designers da Ikea, o conhecimento da empresa e o trabalho árduo dos artesãos, apresentou recentemente a coleção exclusiva e limitada Välgorände, que numa tradução livre do sueco significa algo como “bem conseguido” e que está à venda em Portugal desde o início do mês.

“Oos projetos de empreendedorismo social da Ikea já contribuem para a subsistência de mais de 10 500 pessoas em que 80% são mulheres”, revelou Vaishali Misra, Business Leader da Ikea Social Entrepreneur Initiative à EXAME. Misra está à frente do projeto desde a sua criação e explica que o principal objetivo destas parcerias é criar empregos nestas comunidades, e contribuir para a economia local, garantindo a independência dos participantes.

O objetivo da Ikea é que até 2020 seja possível garantir 20 mil postos de trabalho através destes projetos, que podem ser desenvolvidos em todo o mundo. Para isso, é preciso apenas que as organizações se candidatem e que cumpram uma série de requisitos pedidos pela Ikea. Um deles é que consigam efetivamente integrar as pessoas que apoiam nas comunidades a que pertencem.

“Podemos expandir para todos os países que se propuserem”, garante a responsável. “As organizações têm é que ter um modelo funcional e têm que garantir que parte do retorno gerado por estas parcerias é investido nas comunidades”, sublinha. “Não queremos que sejam associações que façam caridade, mas sim que estejam verdadeiramente envolvidas” nas comunidades, reitera a responsável do projeto.

Afastando a ideia de que este tipo de projetos só encontra terreno fértil em países menos desenvolvidos, Misra revela, a título de exemplo, que iniciou recentemente “alguns trabalhos na Suécia, com mulheres imigrantes. Nos bairros em que habitam”, diz, “o desemprego chega aos 80%. Imagine o conflito social em zonas como estas em que o desemprego é tão alto”.

Muito do trabalho começa nos maridos, filhos, irmãos destas mulheres que continuam a ser as mais vulneráveis. É preciso “torna-los parte do processo, explicar-lhes que a mulher trabalhar significa a entrada de mais rendimento em casa”. É preciso mudar cânones muitas vezes instituídos há séculos, mas os progressos são animadores. “Ao fim de seis ou sete anos já há famílias onde mudou completamente a forma de olhar para o trabalho das mulheres. Onde agora os homens dizem que elas têm trabalhado no duro. Em que filhas já são autorizadas a estudar…”, revela com um sorriso aberto.

“Na Tailândia, de onde vem a cerâmica desta coleção”, adianta ainda, trabalhou-se sobretudo com artesão da tribo Hill, um povo que habita as montanhas do norte daquele país e que se dedicava basicamente à produção de opiáceos, no caso dos homens, e à prostituição, no caso das mulheres. “Como é que se quebra este ciclo?”, pergunta Misra? A chegada da IKEA, aliada ao Doi Tung Social Project acabaria por consegui-lo com muitos anos de dedicação: as mulheres passaram a ter um rendimento fixo e portanto a contribuir para o orçamento familiar; a natureza perdeu o cultivo intensivo de papoilas o que levou a flora regional a diversificar e até o clima voltou ao que era, explica ainda Misra. Para além de que houve um aumento de crianças na escola e, claro, um impacto positivo na economia local.

Com a Välgorände nas lojas, Misra está de mangas arregaçadas para continuar a criar parcerias em todo o mundo. “E sim, estamos a olhar ativamente para Portugal, França e Espanha para saber como podemos atuar aqui”, revela com um sorriso. O mesmo que, garante, é a maior recompensa que pode ter no final do dia.