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Caldeira Cabral em entrevista: "Não se pode ter turismo de alta qualidade com trabalhadores sem qualificações"

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Caldeira Cabral abandona a pasta da Economia

Marcos Borga

Em entrevista à EXAME no âmbito do Dia Mundial do Turismo, que se comemorou no final da semana passada, o ministro da Economia não abre o jogo em relação ao Orçamento do Estado mas garante que não será eleitoralista. E que, apesar da perceção de salários baixos no turismo, "na hotelaria já há grupos a começar a pagar melhor."

Os últimos números – junho e julho - sinalizam um abrandamento na atividade turística no País, ao nível das dormidas e dos hóspedes estrangeiros. Preocupa-o?

As receitas cresceram 13% [em julho], o que é muito bom. No ano passado crescemos 19% mas, se for para trás, terá de recuar vários anos para encontrar outro ano em que se cresça 13%. Continua a ser um crescimento muito bom em termos de receitas e é mais isso que nos interessa, o contributo que o turismo dá para a riqueza. Continua a crescer e a crescer bem, mais em receitas do que em turistas, espalhado por todo o País e não apenas nas regiões que já tinham turismo e mais equilibrado ao longo do ano. Cresceu duas vezes mais na época baixa do que na alta, muitos hotéis nas zonas com maior sazonalidade como o Algarve agora já não fecham no inverno, mantêm emprego ao longo de todo o ano, podem apostar mais na formação profissional. Esse é também um caminho para maior estabilidade do negócio. Nesse sentido não me preocupa. Preocupam-me alguns mercados particulares e temos feito um trabalho muito forte com o inglês, com a questão do Brexit...

É uma das causas para esta descida das dormidas dos britânicos?
O mercado inglês foi o único com grande expressão a ter uma diminuição forte, o que causa algum abrandamento no crescimento do número de turistas. O interessante é que, apesar do Brexit e da redução de turistas ingleses - que estamos a trabalhar para conter e até para reverter -, as receitas continuam a crescer 13%. Há também alguma discrepância entre os dados das chegadas de turistas aos aeroportos, dos hotéis e do alojamento local. Além desta nova oferta, as viagens e o número de passageiros que aterram em Lisboa continuam a crescer.

O que é que está a ser feito para conter e reverter essas reduções?
Fizemos campanhas, estamos a trabalhar com os operadores e com as companhias aéreas. Houve companhias que fecharam mas os slots que estavam a usar podem ser repostos por outras companhias e já há interessadas. No mercado inglês fizemos um trabalho importante para conter esta perda de curto prazo. Mas temos feito uma grande diversificação, com o mercado americano a crescer quase 40%, os turistas americanos gastam em média o dobro dos europeus. Estamos a crescer em mercados que fazem mais despesa, com estadas médias mais longas.

Deu hoje [27 de setembro] a aula de abertura do ano letivo a novos alunos da escola de hotelaria de Setúbal, que querem trabalhar e até criar os seus próprios negócios no turismo. Como se muda a imagem de um setor marcado por salários baixos?
Passa, em primeiro lugar, pela formação. Aí, reformulámos os currículos das escolas de hotelaria e turismo, aumentámos o número de alunos e estamos a renovar e a melhorar as escolas. Mas há outras formas de valorizar os trabalhadores, como o combate à sazonalidade, para que menos hotéis despeçam e contratem pessoas novas todos os anos. O crescimento do turismo gera hoje questões que não se colocavam. Há dois anos e meio não havia hoteleiros a queixarem-se da falta de mão de obra e agora há. Isso cria uma pressão para que se valorize mais a mão de obra, ganhando mais produtividade. Para isso é preciso ter trabalhadores mais treinados, motivados e mais bem pagos também. E eu penso que esse é o processo que se segue. Muitas profissões no turismo, como a restauração, têm diferenças salariais face aos hotéis, mas na hotelaria já há grupos a começar a pagar melhor. Pagar melhor, num turismo de mais qualidade, valorizando os trabalhadores. Não se pode ter turismo de alta qualidade com trabalhadores sem qualificações, sem formação e que não são sempre os mesmos. Não é assim que se faz um bom projeto turístico.

O facto de o turismo ter fixado tanta mão de obra depois da crise não pode pôr em risco a sustentabilidade da recuperação do emprego dos últimos anos, já que é também dos setores mais expostos a variações externas?
A indústria transformadora foi o setor em que Portugal criou mais emprego desde que entrámos para o Governo, logo seguido do turismo, com quase um terço dos empregos. São ambos transacionáveis, virados para o mercado externo e que estão a crescer. Contesto que o turismo seja mais volátil do que muitos setores industriais. A do automóvel cresce muito e quando há crises as pessoas também adiam a compra de carro; a construção também tem ciclos e sofre sempre bastante em recessão. O turismo português conseguiu crescer mesmo nos anos de crise, há qualquer coisa que estamos a fazer melhor e mais do que só a conjuntura. Numa crise, quando os turistas europeus fazem menos turismo, substituem viagens mais longas por mais próximas. Portugal, que está a duas horas de avião e onde não é muito caro cá chegar, muitas vezes beneficia de alguma dessa transferência. Uma forma de tornar o crescimento do turismo mais sustentável é promover junto de grupos diferentes, fazendo acordos com agências de viagens diferentes, promovendo em mercados diferentes com uma abordagem diferente. Se continuarmos a trabalhar assim não vamos ficar totalmente imunes a uma crise - porque ninguém fica -, mas conseguiremos equilibrar, porque as crises afetam os segmentos de forma diferente.

Esses são os fatores que não dominamos, mas há ainda bloqueios internos que precisam de ser resolvidos...
Construímos e estamos a implementar uma estratégia coerente para os próximos dez anos, a Turismo 2027. A inovação vai ser cada vez mais importante, com a diferenciação da oferta dentro e fora do hotel, a componente digital. O Nest [Centro de Inovação do Turismo, apresentado na semana passada] junta grandes empresas da tecnologia e o Turismo de Portugal, trabalhando com os hotéis. Temos 300 startup em programas de aceleração este ano e estamos a desenvolver um programa com uma das maiores aceleradoras mundiais, a Techstars.

Durante a crise os hotéis baixaram muito os preços e tiveram de adiar o investimento em remodelação, que tem de ser constante na hotelaria. Entre Portugal 2020 (cerca de €600 milhões), linhas de qualificação da oferta e outros financiamentos do Turismo de Portugal já se alavancou investimento privado em cerca de €1 000 milhões. E temos cerca de €400 milhões disponíveis em linhas de financiamento ou a linha Capitalizar que vamos lançar, fundos de capital de risco - lançámos agora uma call de €18 milhões para projetos empreendedores -, ou instrumentos de capitalização como o fundo imobiliário que, com o leaseback, permite investir na parte imobiliária e libertar fundos para a remodelação e promoção do hotel.

Continua a haver constrangimentos, nomeadamente de infraestruturas, nos quais o Governo está a trabalhar, mas que vão demorar algum tempo a ter uma resposta global - o aeroporto de Lisboa é talvez o mais discutido. Estamos a trabalhar para termos respostas que, mesmo parciais, alarguem a capacidade das infraestruturas existentes permitindo que o turismo continue a crescer.

Este é um setor que assenta muito na flexibilidade e à esquerda, que apoia o Governo, continua a defender-se a reversão das medidas laborais do tempo da troika. Isso poderia afetar o turismo?
Andámos quatro anos a discutir os problemas do mercado laboral à luz da troika, deixando crescer e não olhando para o maior problema que aconteceu ao mercado de trabalho português nos últimos seis anos. Qual foi? Saírem 500 mil jovens trabalhadores qualificados do País foi brutal, numa força de trabalho de pouco mais de cinco milhões de pessoas. E resultou da crise, de muitos olharem para um País que só lhes oferecia precariedade, baixos salários, poucas condições para se realizarem nas suas carreiras. Hoje olham para um País que não aposta e não quer a precariedade, que está a começar a valorizar os salários e o trabalho e para onde estão a vir empresas internacionais e portuguesas a crescer, com projetos interessantes de carreira. Tão ou mais do que aqueles que os fizeram sair do País. Eu estava a dar aulas na universidade e assustei-me quando via os alunos que estavam no segundo ano do curso a fazerem cursos de alemão, de outras línguas para se prepararem [para sair]. Já não estavam sequer a enviar currículos para empresas portuguesas. Têm todo o direito e interesse em seguir carreiras internacionais, mas hoje vemos que muitos estão a procurar em primeiro lugar trabalhar em Portugal. Temos de ter sempre em atenção as necessidades dos diversos setores, não estamos neste momento a fazer alterações de fundo na legislação laboral. Esses medos são eventualmente infundados.

E nota retorno de alguns desses portugueses que saíram?
Estive esta semana [a inaugurar as instalações] na Vestas, uma empresa dinamarquesa que está a criar 400 a 500 postos de trabalho no Porto, quase todos de engenheiros. Encontrei aí um engenheiro civil que, com a crise da construção, teve de ir trabalhar cinco anos para a Noruega e, quando soube deste projeto, resolveu regressar a Portugal. E há mais casos desses vindos da Alemanha, da França, da Inglaterra que resolveram vir para Portugal. Mas encontra esses casos também em muitas outras empresas portuguesas, startups que estão a acelerar, empresas de engenharia, tecnologia, outras vindas do Brasil e Angola, também nas áreas de Gestão, Economia, Direito. Ainda há muito trabalho a fazer, principalmente criar oportunidades de emprego interessantes, justas, bem remuneradas para esta geração que tem um talento cobiçado por muitas empresas internacionais. Conseguimos que estas empresas, em vez de virem recrutar para a porta das nossas universidades, tenham vindo instalar centros de competências e trazer empregos para a porta das mesmas universidades.

Estamos a cerca de 15 dias da entrega do Orçamento do Estado. Que novidades é que o setor do turismo pode esperar?
O Orçamento do Estado vai ser apresentado dentro de 15 dias e vai ser o ministro das Finanças, como sempre, a apresentá-lo. O resto é especulação. Tenho como política não fazer qualquer comentário sobre questões orçamentais.

É o último orçamento deste Governo para um ano que será de legislativas. Será eleitoralista?
Não vou fazer qualquer comentário, mas não vai ser um orçamento eleitoralista de certeza. Isso não vai e nem são os orçamentos que temos feito. Temos feito sempre orçamentos responsáveis e temos reduzido o défice sempre acima das metas que temos colocado. Mas conseguimos fazer isso sem cortes em salários, sem cortes em pensões, repondo os rendimentos e a confiança, criando mais instrumentos de financiamento para as empresas e com isso lançando um crescimento muito mais forte, com uma forte componente de aumento do investimento - no ano passado tivemos o maior aumento de investimento dos últimos 18 anos - e com um reforço da competitividade. Temos feito coisas que muitos disseram muitas vezes que eram impossíveis de fazer. Não são nenhuns milagres, é política económica e é isso que vamos continuar a fazer com o orçamento de uma forma responsável.

Em vários momentos o seu nome foi apontado várias vezes como potencialmente remodelável mas até agora - e falta um ano para o fim do mandato - não aconteceu. A que é que atribui estas notícias?
O meu lugar esteve sempre à disposição e, portanto, não sou agarrado ao poder. Tenho um projeto, tenho trabalhado muito bem com o primeiro-ministro e um conjunto muito amplo de outros ministros, da Agricultura, do Ambiente, em projetos de economia circular, da ministra da Justiça na reforma que fizemos com o programa Capitalizar, do Ministério das Finanças também neste programa e em medidas do Startup Portugal com benefícios fiscais. Com o Ministério da Administração Interna com os vistos, temos trabalhado muito bem com todos os ministérios.

As notícias sobre a minha saída foram claramente exageradas, parafraseado outros, e diria que em alguns casos pode ter havido alguns interesses económicos por detrás, noutros casos penso que é só especulação. Mas acho que é isso que não devemos alimentar, a especulação. Estamos cá para trabalhar e o que fizemos ao longo destes quase três anos foi um conjunto amplo de reformas, com os programas Capitalizar, Startup Portugal, Indústria 4.0, Interface, esta estratégia e muitas das reformas para o Turismo, com a participação no Simplex. Temos trabalho para mostrar, que fala por nós, que fica e me dá muita satisfação.

As eleições ainda vêm longe e o desfecho imprevisível. Mas estaria disponível para participar num futuro Executivo?
Não vou comentar.