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Resolver o problema do emprego um psicólogo de animais de cada vez

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David Autor explicou como por que não devemos olhar com pessimismo para os efeitos da tecnologia no mercado de trabalho. “Não sei qual será o emprego do futuro, mas sei que haverá bastante.”

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Pode ser um alívio ou fonte de preocupação. Depende daquilo que acha sobre o trabalho. David Autor, um dos maiores especialistas mundiais sobre mercado laboral, considera que estamos excessivamente preocupados com o fim do trabalho. Os empregos surgirão de fontes inesperadas. Há algumas décadas quantas pessoas imaginavam que haveria psicólogos para animais?

Durante a sua intervenção no segundo dia da conferência “O Trabalho dá que Pensar”, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Autor explicou que existe um ciclo comum a quase todos os setores: tornam-se mais produtivos e vão empregando cada vez menos pessoas.

Um caso paradigmático é a agricultura. Em 1860, 55% dos empregos nos Estados Unidos estavam no setor primário. Hoje são apenas 2%. “Por que são tão poucos? Não é porque comemos menos, mas porque nos tornámos mais produtivos”, nota Autor. Esta transformação não implicou o fim do trabalho. Pelo contrário, há mais pessoas a trabalhar nos EUA.

Se nos concentrarmos somente nos últimos anos, verificamos que a economia norte-americano criou mais de 19 milhões de postos de trabalho no período de recuperação da crise. “Não existem sinais de que estejamos a ficar sem empregos”, diz o economista.

No entanto, ninguém duvida que algumas profissões vão desaparecer. O que Autor argumenta é que nascerão outras, algumas das quais nós nem conseguimos imaginar. É muito mais fácil olhar para o lado e perceber como uma máquina poderá fazer determinada tarefa do que prever as novas necessidades laborais que esse desenvolvimento tecnológico irá criar.

Autor divide os novos empregos em três categorias. A primeira são os empregos de fronteira. Profissões que não existiam e que a evolução tecnológica vai gerando. Estão aqui integrados, por exemplo, analistas de optimização de websites, programadores de veículos autónomos, engenheiros biomédicos e especialistas em computação de cloud.

Em segundo lugar, há um grupo que o economista classifica como “trabalho relacionado com a riqueza”. Isto é, à medida que necessidades básicas como alimentação e roupa se vão tornando mais baratas, nós passamos a gastar o nosso dinheiro noutros bens e serviços menos essenciais e, nalguns casos, de luxo. Há 100 anos não haveria certamente muitas pessoas a anteciparem a existência de psicólogos para animais, por exemplo.

No terceiro grupo estão empregos que já são ocupados por máquinas, mas que ainda precisam de um empurrão final de um humano. Entre eles, está a classificação de imagens, a filtragem de conteúdos inapropriados ou a identificação de discurso de ódio. Pode criar mecanismos automáticos que façam estas tarefas, mas precisa de humanos para resolver mal-entendidos ou identificar nuances em determinados casos.

Isso significa que não temos nada com que nos preocupar? Nada disso. “Não há nenhuma garantia de que iremos utilizar bem essas oportunidades. Não depende só da tecnologia, mas também das nossas instituições sociais”, explica David Autor, dando o exemplo da Arábia Saudita e da Noruega. Dois países relativamente próximos em PIB per capita, mas com níveis de satisfação muito diferentes da sua população. Não há dúvidas que a robotização vai aumentar o PIB, mas não é certo que as pessoas vivam melhor por causa disso.

Começam a surgir sinais que nos deviam preocupar. Um deles é o esvaziamento dos empregos com qualificações intermédias. Os EUA estão a criar empregos muito qualificados e pouco qualificados, o que se traduz numa polarização no mercado. E isso também se reflete nos salários. Desde a década de 80, o rendimento dos licenciados aumentou 40% a 80% e entre aqueles que apenas concluíram o secundário houve um recuo entre 10% a 20%.

Ainda assim, Autor é um otimista, lembrando as várias ocasiões ao longo da História em que os humanos temeram que as máquinas lhe iriam roubar os empregos. “Essas previsões são presunçosas. Presumem que as pessoas não vão conseguir pensar em coisas para fazer. Acho que não é uma boa aposta”, avisou.

No ano da Revolução do 25 de Abril mais de um terço dos portugueses empregados trabalhava na agricultura e pescas. Hoje, apenas 6%. Se há 40 anos perguntasse a um agricultor português onde é que os netos dele iriam trabalhar, ele provavelmente teria errado no palpite. Por isso não é de estranhar que nós tenhamos a mesma dificuldade num mundo onde os avanços tecnológicos têm acelerado substancialmente.

“Não sei qual será o emprego do futuro, mas sei que haverá bastante”, conclui David Autor.

O economista foi entrevistado pela VISÃO para a edição desta semana, integrado num conjunto de artigos sobre o futuro do trabalho que dão capa à revista.