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O fundador da Wikipédia quer ajudar a salvar o jornalismo

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Jimmy Wales, fundador da Wikipédia, na conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos

José Carlos Carvalho

Jimmy Wales tem um plano para salvar o jornalismo que não dependa do mercado publicitário. Como? Aplicando o mesmo modelo da Wikipédia.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

O fundador da Wikipédia foi o primeiro orador da conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos para debater o trabalho. Durante a sua intervenção, Jimmy Wales decidiu concentrar-se no futuro do jornalismo e nos desafios que existem ao modelo de negócio dos media.

“Devem imaginar quão triste eu fico quando as pessoas dizem que vivemos num mundo pós-facto”, sublinhou o homem que criou a maior enciclopédia do mundo, à audiência reunida no Jardim Botânico Tropical, em Belém. Wales explicou que a indústria dos media tem sofrido muito. Há menos receita, menos jornalistas e a qualidade da informação caiu. “Os grandes jornais de referência continuam a lutar, mas concorrem com uma vaga de informação de baixa qualidade.”

No centro da crise está o modelo de negócio baseado em publicidade. Antes, a preocupação era que um jornal como o “New York Times” não escrevesse coisas negativas sobre os seus principais anunciantes. Hoje, o problema é que esses anunciantes já não precisam tanto do NYT. “Quando navegamos na net, estamos sempre a ver os mesmos anúncios. A mim, aparecem-me barcos [para comprar]. Todos os conteúdos estão a competir uns com os outros” por cliques, afirmou.

Se é esse o modelo - assegurar que o maior número de pessoas clica numa notícia - os incentivos podem tornar-se perversos: o jornal pode preferir ter um jornalista inexperiente a produzir artigos de clickbait em catadupa do que um repórter sénior, que faça investigações ou análises mais profundas. “O modelo de dependência da publicidade tem sido muito destrutivo para o jornalismo”, frisa.

Como escapar a esta armadilha? Wales dá o exemplo da Wikitribune, o projeto que fundou há cerca de um ano e meio. Um site noticioso que junta jornalistas e membros da comunidade online. Os primeiros escrevem as notícias, os segundos verificam os factos e sugerem alterações.

Ainda é apenas um projeto piloto - só tem dez jornalistas - mas servirá, pelo menos, para testar um modelo de negócio. O site tem fins lucrativos, mas não terá publicidade, nem paywall. Viverá dos donativos que os leitores quiserem dar.

A motivação para criar o Wikitribune surgiu depois de Donald Trump ter sido eleito. “Houve este debate sobre o tamanho da multidão que estava [na tomada de posse] e a Kelly Conway disse algo sobre factos alternativos e eu achei que era ridículo que tivéssemos que discutir isso”, recordou na semana passada, em entrevista ao Diário de Notícias, onde diz que há cinco mil pessoas inscritas na comunidade Wikitribune, mas apenas uma ou duas dezenas são realmente centrais. “Acho que todos temos de desempenhar o nosso papel, a defender a ideia de que, sim, os factos interessam.”

O final da intervenção de Jimmy Wales foi mais otimista. Questionado por José Alberto Carvalho, referiu que viu com entusiasmo que as subscrições digitais do NYT cresceram de um para três milhões em poucos anos, o que mostra que algumas pessoas podem ter começado a perceber que “se quero notícias [de qualidade], tenho de pagar por elas”. Além disso, a maior facilidade e rapidez de subscrição está também a impulsionar estas vendas online. Hoje, basta um clique. O fundador da Wikipédia é um exemplo. “Durante uma altura não comprava revistas. Agora que tenho Kindle, subscrevo oito.”

Tal como as assinaturas do NYT aumentaram, “os donativos da Wikipédia também dispararam após a eleição” de Trump. Porquê? “As pessoas sentem que precisam de factos.”