Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

João Freire Andrade

João Freire Andrade

Co-fundador da Portugal Fintech

Bancos e seguradoras, não brinquem com as Fintechs

Exame

João Freire Andrade

As Fintechs vão acabar com os bancos ou poderão ser uma ferramenta para a sobrevivência destes, dentro do panorama financeiro atual?

É de conhecimento geral a ameaça de que os bancos podem vir as ser uberizados, processo que já é evidente e está a ser materializado na existência de neo banks – aplicações com funcionalidades de banco mas sem licença bancária – como a Revolut, que apesar de existir há menos de 5 anos terá em breve mais clientes que o maior banco português.

Poderia relembrar que a situação regulatória também traz desafios para o sector, o passaporte bancário poderá ser um exemplo desta realidade, pois permite a um banco lançar-se noutros estados membros de uma forma leve em recursos e capital, podendo ser regulado maioritariamente num só país da eurozona.

Também a diretiva europeia do PSD2 (Payment Service Directive II) tem agitado o sector pois obrigará, já a partir de 2019, que todos os bancos tenham open API’s – protocolos abertos de troca de informação. Será uma realidade em que qualquer pessoa pode aceder à informação de todos os seus bancos, de forma agregada, podendo utilizar aplicações de entidades não bancárias. Neste contexto podemos facilmente ter a Google como ponto de acesso às nossas contas e a comparar, para cada produto bancário, a melhor oferta do mercado. Ou pode um banco internacional, com uma dimensão e um orçamento de inovação superior às receitas da maioria dos bancos portugueses, através da sua oferta digital concorrer na abertura de contas de portugueses. Estes bancos, com um maior volume de clientes, podem realizar desenvolvimentos que criam vantagens competitivas tanto ao nível da eficiência da camada operacional, como da experiência de utilização.

Estará o sector financeiro nacional condenado? E qual o papel das fintechs no meio deste processo? Serão verdadeiras ameaças para os bancos e seguradoras? Sim e não. Sim, porque estas startups têm tido a capacidade de atrair talento melhor que muitos incumbentes e tipicamente estão mais capitalizadas, focadas, incentivadas e especializadas em resolver um único problema. Não, porque mais de 70% delas estão no mercado para colaborar e fornecer os incumbentes e não para os substituir.

No último ano todas as conferências sobre banca e seguros foram focadas em fintech. Esta foi uma ótima oportunidade para voltarmos a ouvir o quão inovadores os incumbentes dizem ser, o quão colocam o cliente em primeiro lugar e que além de colaborarem com as fintechs que os próprios incumbentes são fintechs. Mas será que as fintechs têm a mesma opinião? E os consumidores?

Internacionalmente o problema tem sido atacado com uma tripla estratégia que engloba integrar serviços de fintechs na oferta dos incumbentes, co-criar para resolver em conjunto determinados desafios que não conseguem ou não compensa um incumbente resolver sozinho e investir no capital destas empresas. Para isso é necessário saber como encontrar as fintechs com qualidade, definir com claridade os casos em que os produtos destas empresas podem ser usados, responder em tempos razoáveis, ter um “champion” interno que ajude a navegar as complicadas políticas e labirínticos processos internos dos incumbentes. É igualmente importante evitar paternalismos, pois a exigência que se tem com estas empresas, apesar de adaptada à dimensão, terá que ser igual à que se tem com qualquer outro fornecedor. Por fim, não vale a pena a arquitetura paisagística de uma grande instituição colaborar com uma fintech, que é sempre uma flor bonita para se colocar nos relatórios de informação aos accionistas, caso não haja um objectivo claro e calendarização de entregas de resultados.

Dada a importância da regulação nestas temáticas os reguladores financeiros portugueses têm mostrado abertura para apoiar o sector. A ilustrar esta tendência é de sublinhar iniciativa do Portugal FinLab - Where Regulation meets Innovation. Uma ação concertada vinda destas organizações, tipicamente associadas a tempos de resposta lentos, é um passo importante e um exemplo de como deixarmos de “brincar ao Fintech”. Poderemos ter a esperança de ver os incumbentes portugueses com estratégias claras para utilizar estas empresas como alavanca para garantir a subsistência do sector?

João Freire Andrade

João Freire Andrade

Co-fundador da Portugal Fintech

Portugal Fintech