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A Turquia procura amigos (mas o Ocidente não vai gostar)

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Perante a crise financeira, Erdogan continua a desafiar os EUA e apostar na retórica nacionalista. Rússia ou China podem ser os aliados de conveniência

Tiago Freire

Tiago Freire

DIRETOR DA EXAME

A economia turca está a levar pancada de todos os lados nas últimas semanas, com a fraqueza da lira a ser o indicador mais visível dessa decadência. E se, por um lado, há medidas concretas a serem tomadas para estancar a crise, o presidente Erdogan continua desafiante, assente na sua habitual retórica nacionalista.

A questão, para vários analistas internacionais, é o que precisa a Turquia de fazer para travar a questão. No curto prazo, a resposta é simples: a Turquia precisa de dinheiro. Agora a pergunta seguinte: e de onde virá esse dinheiro? É aqui que, mais uma vez, a finança se mistura com a política.

O próprio presidente turco já indiciou que o caminho passa, agora, por encontrar aliados com poder financeiro e que se encontrem alinhados com os interesses do país, num momento em que os EUA surgem como o autor, pelo menos moral, do ataque à lira e à economia turca.

Num artigo publicado na sexta-feira pelo New York Times, o presidente turco avisava que os EUA tinham de deixar de tratar a Turquia como um parceiro menor e ganhar a noção de que "a Turquia tem alternativas".

Já no sábado, Erdogan prosseguiu: "a nossa resposta à pessoa que trava uma guerra comercial com o mundo inteiro, incluindo com o nosso país, é procurar novos mercados, uma nova cooperação, novos aliados".

Segundo vários especialistas citados pela edição online do Financial Times, há alguns candidatos óbvios a quem Erdogan deverá recorrer: Rússia, China e Qatar, à cabeça. No entanto, se há uma via política aberta, todos eles têm limitações em dar a resposta que o presidente turco está à procura.

Começando pela Rússia, um país que, sob a liderança de Vladimir Putin, não tem enjeitado qualquer possibilidade de se afirmar como via alternativa a relações privilegiadas com os EUA. A aproximação à Rússia tem sido gradual mas evidente. Com a União Europeia cada vez mais crítica do reforço de poder autocrático na Turquia, Moscovo tem sido um aliado natural, como aliás foi visível com o conflito na Síria. Recentemente, Ankara comprou aos russos um novo sistema de defesa aérea, o que levantou algumas críticas de Washington.

A questão é se a Rússia, que está a enfrentar também sanções, tem a vontade e a capacidade de assegurar toda a liquidez de que a Turquia precisa. Sergei Lavrov, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, está esta semana em Ankara, com a questão financeira a juntar-se à ordem de trabalhos.

E se os laços com a Rússia se vêm estreitando, na origem desse movimento está aquilo que as autoridades turcas vêem como incompreensão e ingerência por parte da União Europeia e dos EUA. No casos destes últimos, o episódio mais marcante é a recusa turca em libertar um missionário religioso norte-americano, que está acusado de espionagem. Andrew Brunson, de 50 anos, está na Turquia há mais de 20 anos, e foi preso na sequência do golpe falhado contra Erdogan, embora a embaixada norte-americana continue a defender que não há qualquer indício relevante do seu envolvimento.

Na sequência da escalada verbal iniciada com este caso, que já se arrasta há muito, Donald Trump anunciou que está a preparar o aumento das tarifas à importação de aço e alumínio da Turquia. No mesmo tweet, uma provocação que Erdogan não poderia ignorar: a referência à forte quebra da lira "face ao nosso dólar muito forte". Na prática, uma moeda fraca pontencia as exportações, que ficam mais baratas para o comprador externo, e é isso que Trump quer evitar, para proteger as indústrias norte-americanas. Para além da questão do missionário americano, essa é a outra questão que tem irritado Washington: a recusa da Turquia em subir as taxas de juro, que poderia travar a desvalorização da moeda local.

Além dos russos, a China é outro bloco que tem interesse em ganhar influência às portas da Europa. No entanto, segundo o mesmo artigo do FT, Pequim não deverá estar particularmente interessada em desagradar ainda mais aos EUA, cujo presidente tem insistido no ataque à China devido às trocas comerciais. Depois dos primeiros anúncios de Trump sobre as tarifas às importações turcas, foi anunciado um grande empréstimo do Industrial and Commercial Bank of China ao sector público turco. No entanto, há algum cepticismo de que a relação possa aprofundar-se de forma vincada.

E há ainda o Qatar, com quem a Turquia tem boas relações (tem inclusivamente lá uma base militar). Mas o Qatar não demonstra a pujança de outros tempos, depois do embargo de outros países da região. E, por outro lado, o Qatar precisa dos EUA (que têm a maior base militar no território) para pressionar a Arábia Saudita no afrouxamento do embargo.

Se não há um candidato ideal entre os possíveis parceiros da Turquia, a verdade é que não cessa de aumentar a pressão para algum tipo de cedência do regime turco.

No campo financeiro, a questão não é de agora e vem do próprio modelo de desenvolvimento económico que tem vindo a ser promovido na Turquia. Taxas de juro muito baixas, elevado endividamento externo, com moeda a desvalorizar e a inflação imparável. A questão das taxas de juro pode parecer bastante aborrecida para um líder carismático como Erdogan, mas este tem falado muitas vezes do tema, afirmando que taxas altas são um inimigo do povo turco, porque limitariam o crescimento económico.

O que observadores internacionais contrapõem é que o modelo de crescimento turco é desequilibrado e demasiado dependente de financiamento externo. Este aumentou, à Turquia mas também a muitos outros mercados emergentes, com o programa de estímulo económico norte-americano, que encharcou os mercados de dinheiro que foi aplicado em regiões de maior risco mas de maior potencial retorno. Agora que o programa acabou, e os juros nos EUA estão mais altos, muito desse dinheiro está a regressar aos EUA. Mais, nestes tempos de incerteza como os vividos na última semana, este efeito penalizou também a moeda emergente do México, o peso, fortalecendo o dólar, o iene ou o franco suíço, e levando a maior procura por dívida pública vista como mais segura, como a alemã ou a norte-americana.

Até há pouco tempo, as autoridades turcas vinham defendendo que não há nenhum problema nem qualquer necessidade de preparar um 'soft landing' da economia, que cresceria menos mas de forma mais sustentável, afastando uma quebra abrupta se o modelo falhasse. Agora, o ministro das Finanças, Berat Albayrak, está com um discurso menos definitivo.

Anunciou apoio de liquidez ilimitada aos bancos e prometeu um programa económico direcionado às PME. No entanto, na questão das taxas de juro, não há evoluções. No final de Julho, o banco central surpreendeu o mercado ao não subir as taxas de juro, apesar de a inflação estar num máximo de 15 anos. Esta decisão foi vista como uma incapacidade de o banco central agir de forma independente do poder político.

E, aos olhos de muitos analistas ocidentais, esta é a verdadeira questão: se o estilo populista e nacionalista de Erdogan continuará a determinar as medidas económicas e financeiras, ou se haverá a capacidade de tomar decisões tecnocratas, mas que se podem revelar impopulares.

Neste sentido, mesmo as palavras do ministro das Finanças turco são vistas com cepticismo, uma vez que este é genro do próprio Erdogan.

O perigo de contágio

Os próximos dias serão importantes para se perceber se a crise acalma ou se ainda se acentuará. Para já, na Europa, abunda o receio. Mais uma vez, a questão está, como noutras crises, nos bancos. As instituições financeiras da Zona Euro, com as espanholas à cabeça, têm uma exposição de mais de 140 mil milhões de euros aos bancos turcos. Ou seja, se estes não conseguirem cumprir integralmente com as suas responsabilidades em moeda estrangeira, o problema não está só na Turquia. O raciocínio é relativamente simples: com a lira a valer cada vez menos, cada vez é preciso mais dinheiro para as famílias e empresas turcas pagarem os seus empréstimos em moeda estrangeira, o que pode levar a um crescimento súbito do incumprimento.

Num momento em que a banca europeia parece mais estabilizada, depois de uma década de sobressaltos, esta seria uma má notícia, com consequências dependentes da gravidade do incumprimento e de uma eventual resposta europeia a essa questão.