Exame

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José Roquette

José Roquette

Chief Development Officer do Pestana Hotels Group

Portela mais Zero

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José Roquette

Jeff Greenberg/ Getty Images

Tudo indica que nos estamos a aproximar da saturação da Portela e é realmente impressionante(...). É caso para dizer aguenta, aguenta. E vai ter que aguentar mais.

Aviso prévio: sempre fui contra a ideia de acabar com a Portela para embarcar numa obra faraónica, absurda no período da Troika, ainda menos recomendável durante a anterior gestão do tema, evidentemente pouco transparente. Tentarei aqui evitar temas misteriosos tais como rotas de migrações das aves, caprichos dos militares, corredores aéreos, birras dos pilotos, ventos cruzados, etc, admitindo que com trabalho de casa sério, vontade política firme e bom senso, tudo se resolve…

Como ponto de partida é bom recordar que a ideia (felizmente abandonada) de Lisboa ter um único aeroporto longe da cidade nos levaria perder as enormes vantagens da proximidade da Portela e a não aproveitar a infraestrutura existente no Montijo (e na própria Portela). Algo óbvio mas não para todos.

Porém, em função do desporto nacional que é navegar à vista – leia-se governar à vista – o tema foi sendo adiado, remetido para a categoria de assuntos em que pouco se planeia. E quando assim é, abre-se a porta ao palpite e ao improviso, outras modalidades de excelência por terras lusas. Arrastámos o assunto ao mesmo tempo que privatizámos a ANA, sem coordenar bem os 2 temas, pelo que iremos pagar o preço de ver bloqueado o crescimento a cidade. Eis o modelo Portela + Zero.

Claro que há os que não querem mais este passo de desenvolvimento porque não querem mais turismo. Esses nem queriam o metro no aeroporto e mereciam a decadência em que os centros históricos de Lisboa e Porto se encontravam antes desta vaga. Para eles, sempre haverá o Portugal dos Pequenitos.

É justo porém fazer um passo atrás para balizar algumas ideias e sobretudo porque quem não planeia faz à pressa, logo é mais vulnerável às pressões do imediatismo, do bailarico da política, etc.

Tudo indica que nos estamos a aproximar da saturação da Portela e é realmente impressionante - tanto quanto era imprevisível - o volume de passageiros superar 20 milhões, valor que duplicou nos últimos 15 anos. Mas a verdade é que a racionalização feita depois da privatização da ANA foi notável e mostra como se pode ir mais longe com os mesmo recursos, algo que muitos diziam ser impossível. É caso para dizer aguenta, aguenta. E vai ter que aguentar mais.

Esta situação torna inevitável uma reflexão esquecida: a TAP fez o seu famoso HUB em Lisboa, para servir mercados onde consegue competir (Africa e Brasil, porque na Europa não consegue), e isso tem contribuído para o fluxo da Portela. Mas do volume de passageiros que aterra em Lisboa quantos ficam em Lisboa? Se o HUB está a funcionar é porque muitos apenas só passam por cá… (existe o tal programa stop-over mas é residual e, por isso, irrelevante para isto). Assim, sobra a pergunta: esta infraestrutura diz-se “esgotada” em parte devido à estratégia da TAP? Tem sentido permitir que o HUB (que pouco valor tem para a cidade e tem um “custo” para quem desembarca) condicione a qualidade da Portela e bloqueie a cidade? Basta ver o preço que Madrid pagou por proteger a Iberia em Barajas.

Por outro lado, nunca é demais recordar: estamos num momento extraordinariamente forte do nosso turismo. E sabemos que os ciclos existem (a ultima crise reduziu 5 milhoes de passageiros em Barajas…). Por isso, há que ter o bom senso de não reagir apenas ao stress do momento. Além de que a qualidade do serviço prestado não é assim tão má; viajo todas as semanas e posso comparar com muitos aeroportos por essa Europa fora. E ainda existe a oportunidade do aeroporto do Porto – que tem espaço para crescer – poder “ajudar” (e beneficiar) se souber tornar-se porta de entrada e/ou saída complementar.

É também incontornável o tema das responsabilidades da ANA e do Estado - além das obrigações previstas na privatização - em tudo o que não são temas de trafego aéreo, slots, segurança, e condições de uso das pistas, etc. Para melhorar a “experiência” de quem desembarca na Portela, há que exigir maior eficiência (e criatividade) logística, mas também uma clara melhoria dos serviços de imigração (by the way, sem esquecer temas “menores” como disciplina na vergonha do serviço de táxis, etc).

Explorando outro angulo, o estrangulamento da Portela poderá refrear alguns devaneios de investimento hoteleiro mais especulativo - frutos do boom imobiliário, é certo – o que pode ser uma oportunidade para nos concentrarmos na qualidade em vez de nos viciarmos nos volume, abrindo a porta ao maior desafio: progredir nos preços e posicionamento (estamos na 3ª divisão da Europa).

A mensagem é, portanto, “Para o Montijo, rapidamente e em força!” mas este puzzle tem muitas peças. O sonho do novo aeroporto - como se um brinquedo novo se tratasse - não pode fazer escamotear a realidade: há seguramente muita otimização a fazer na situação actual, há bons desafios de na relação com a ANA, há que não recear temas incómodos como o do HUB e da própria TAP (que pouco tem feito pelo turismo). Isto, além de rigor no planeamento que não foi feito em tempo e agora se impõe.

José Roquette

José Roquette

Chief Development Officer do Pestana Hotels Group