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Tudo na mesma no xadrez feminino da bolsa

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Lucilia Monteiro

As peças até mudam de lugar, mas o statu quo mantém-se. Cláudia Azevedo passa a liderar a Sonae mas continuará a ser a única mulher entre os CEO das empresas do PSI20.

Ana Maria Fernandes e Cláudia Azevedo. Se recuarmos dez anos no tempo, estes são os únicos dois nomes femininos que vai encontrar na liderança das cotadas que têm lugar na montra da bolsa nacional. A primeira assumiu a liderança da EDP Renováveis em 2006 e deixou-a seis anos depois. E foram preciso quatro anos para voltar a haver uma mulher entre os poderosos do mercado bolsista: Cláudia Azevedo, a mesma que se prepara para assumir a Sonae a partir do ano que vem e que chegou em 2013 à liderança da Sonae Capital.

No mesmo ano em que a Sonae Capital entra no PSI-20, 2016, o Governo apresentava a proposta da aplicação de quotas às empresas cotadas: até 1 de janeiro de 2018 as mulheres tinham que ocupar pelo menos 20% dos cargos de administração nas empresas presentes em bolsa. Este número tem que chegar aos 33% em 2020. Mas o que mudou desde então? Numa análise rápida, a resposta parece clara: nada. Ou muito pouco.

As empresas vão cumprindo as determinações do governo de forma a não sofrerem penalizações, nomeando mulheres para assentos na administração – muitas vezes em cargos não executivos –, mas elas continuam sem chegar ao topo da pirâmide. Ao ser substituída por Miguel Gil Mata na liderança da Sonae Capital, Cláudia Azevedo muda de lugar mas a jogada mantém o resultado. É a única "dama" no tabuleiro do PSI-20.

Em 2005, em declarações ao Público, Paulo Azevedo, o agora - ainda - CEO da Sonae, dizia não ter dúvidas de que se ia "começar a ver cada vez mais mulheres nos lugares de topo das empresas, porque, ao longo dos últimos anos, cada vez temos visto mais mulheres nas universidades e nas escolas de negócios". Na ocasião, o gestor referia que apesar de haver profissões dominadas pela "corporação masculina" no caso das empresas “a preocupação com a eficácia e o predomínio do mérito destroem completamente todos os atavismos".

A verdade é que já passaram 13 anos e os números não são tão animadores quanto Paulo Azevedo vaticinava. E quando se olha para as restantes cotadas, o cenário também mudou pouco. Um estudo da Deloitte referia que, no ano passado, apenas 13% dos cargos de direção das empresas cotadas eram ocupados por elementos do sexo feminino e que apenas 2% dos conselhos de administração eram presididos por mulheres. "Apesar de as mulheres representarem mais de metade do total da população e de se graduarem em maior número do que os homens, ainda são poucas as que se ocupam de cargos de alta direção nas empresas nacionais", afirmou na altura João Costa da Silva, “center for corporate governance lead partner" da Deloitte Portugal, citado em comunicado.

E apesar de os números serem claros, não surpreendem. Afinal, o próprio Executivo não é um bom exemplo das quotas que mandou aplicar, pelo menos nas posições de topo: quando olhamos para o Governo de António Costa, apenas três mulheres têm assento ministerial num total de 17 cargos: Francisca Van Dunem (ministra da Justiça), Maria Manuel Leitão Marques (ministra da Presidência) e Ana Paula Vitorino (ministra do Mar e das Pescas).

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